Pouco mais de oito meses após o fim de Dragon Ball Super na TV japonesa, a saga de Goku e seus amigos volta aos cinemas brasileiros em 2019. Desde seu anúncio, o filme trouxe bastante curiosidade sobre como seria abordado um velho conhecido dos fãs, o saiyajin Broly, mas desta vez reconhecido dentro da história principal da saga. Como transformar um vilão de filme, totalmente desconexo da história principal, em um personagem novo, canônico e que não perdesse suas principais características que tanto fez os fãs amarem?
Dragon Ball Super: Broly estreou nos cinemas japonês em 14 de dezembro de 2018, porém, teve uma pré-estreia alguns dias antes. Toda sua história foi disponibilizada na internet através de relatos, então grande parte dos fãs já sabia da história antes da exibição oficial do filme. O interessante é que saber dos pontos em que a história tocaria não desvalorizou a experiência: o filme é um deleite para todos os espectadores, tanto para aqueles que detestavam o personagem quanto para os que o amavam.
Como preparação para este lançamento, há algumas semanas atrás resolvi assistir os três filmes nos quais Broly já havia sido o antagonista. Eu conhecia bastante o primeiro filme, pois eu tinha o VHS, e lembrava remotamente do segundo; o terceiro eu nunca tinha chegado perto. São filmes terríveis, apesar do primeiro ainda possuir alguma ideia interessante a ser tratada. E acho que o primeiro é realmente aquele que as pessoas têm um carinho maior, pois é nele que o vilão enfrenta Goku – em todos os outros, Broly enfrenta personagens mais secundários da franquia, como Gohan, Goten e Trunks, já que, na época em que eles se passam, Goku estava morto. De qualquer forma, é nesse primeiro filme que o atual foi fortemente baseado: Paragus nutre um enorme rancor de Vegeta e sua família; Broly possui uma força descomunal desde bebê e não é capaz de se manter são quando entra em conflito com algum adversário; a identidade visual dos dois também é mantida, assim como o conceito de controle que Paragus tem sobre seu filho. Tirando isso, toda a trajetória e o passado de Broly são diferentes e mais aprofundados nesta nova versão.
Deixando um pouco as comparações de lado, esta terceira aventura cinematográfica da fase Super (apesar de oficialmente ser a primeira a ter “Super” no título) é extremamente caprichada. O visual dos personagens foi repaginado, puxando um pouco para as formas do início de Dragon Ball Z, assim como as cores foram um pouco descarregadas, se tornando mais suaves e até mais inocentes, eu diria. Eu me senti assistindo às primeiras aventuras de Goku. Todos os movimentos dos personagens nas lutas eram muito criativos e não se repetiam, deixando tudo muito bonito de ser visto. Cada golpe trazia consigo a beleza da novidade somada à leveza que vinha com eles. Dava pra sentir que Goku e Vegeta tinham uma enorme experiência de batalhas e, por isso, sabiam se safar de situações perigosas e com ataques diversificados, ao passo que Broly era apenas um bruto que viveu isolado de qualquer outro ser humano, então seus golpes eram mais crus e secos, somente baseados em seu descontrole psíquico e em sua inexperiência de batalhas.

Falar que tudo está lindo e maravilhoso não é uma novidade: nos trailers já é possível ver essa característica do longa. Todos os cenários e as variações em que acontecem neles devido às lutas são fantásticos, com direito até a quebra do tecido dimensional (ou da realidade ou algo assim). Única coisa que incomoda, e que acontece em todos os filmes recentes da franquia, é a animação em computação gráfica inserida aleatoriamente em alguns trechos das lutas mais importantes. Os personagens, que antes eram fluidos e parte integrada do filme, se projetam pra fora da tela e ficam parecendo bonecões duros de vídeo-game: tira um pouco da imersão em alguns momentos.
Sobre a história contada no filme, baseada no roteiro de Akira Toriyama, acompanhamos primeiramente um prólogo sobre os quatro protagonistas do filme e suas relações com seus respectivos pais. Há um estranhamento sobre essa questão com o restante do filme, pois embora a relação paternal de Paragus e Broly seja um tema recorrente durante o filme, os demais paralelos feitos inicialmente sobre os pais e seus filhos jamais são abordados novamente. Teria sido algo muito especial, pois enriqueceria demais a história daqueles que já conhecíamos, como também agregaria para a problemática relação entre Broly e seu pai que permaneceu no filme… De qualquer forma, para os fãs mais antigos, essa primeira parte do filme é como um presente. Tudo que sempre queríamos ter visto e aprendido estava lá: todo o planeta Vegeta, os saiyajins e seus costumes, a subordinação entre o Rei Vegeta e o Rei Cold. Tivemos a primeira aparição animada de Gine, a mãe de Goku, assim como uma nova versão de Bardock (dessa vez canônica, apesar de eu gostar muito de seu especial televisivo de 1990). Revisitamos a triste cena de destruição do planeta Vegeta e o envio de Goku para a Terra, também vistos e já dentro do imaginário devido ao filme de Bardock.
Já nos dias atuais, o filme aborda de forma cuidadosa o encontro entre os membros do exército de Freeza e Broly e vai nos mostrando que aquele não é um cara maldoso e com pretensões vilanescas: é apenas um sujeito maltratado pelo pai e criado para ser sua arma contra uma vingança doentia que não tinha nenhuma possibilidade real de acontecer. Sobre essa nova visão do Broly, o filme sabe muito bem o que quer enfatizar. Algumas pessoas podem até achar repetitivo como Cheelai martela em nossa cabeça que o culpado disso tudo é Paragus e Broly é só uma vítima, mas isso vai de cada um.
Por conta desse holofote em Broly, o filme trata Goku e Vegeta basicamente como bonecos de ação, já que a história contada nos primeiros minutos de filme não é resgatada em nenhum momento depois que começa a pancadaria. Então, eu me arriscaria a dizer que o real protagonista do filme é Broly, na verdade – algo parecido com o que aconteceu em Vingadores: Guerra Infinita, em que, apesar de sabermos exatamente quem eram os bons e os maus, acompanhávamos o filme pelo olhar do antagonista. Mas isso não é nenhuma descoberta extraordinária. Acredito que muitos pensaram o mesmo que eu.

O que realmente é muito fraco é a participação de Freeza no filme. Ele serve como a “cola” que une Goku e seu núcleo ao de Broly. Fora isso, ele não tem serventia nenhuma no filme e desagrada nos momentos finais ao ser liberado pra ir embora, apesar dele claramente ter se mostrado como um problema a se preocupar, como Vegeta havia apontado no começo do filme. Ele poderia muito bem ter agido de longe e ficado fora de vista ou ter fugido em algum momento em que percebesse que perderia a batalha, mas ele está no filme simplesmente pra segurar Broly na história durante 1h para que Gogeta aparecesse, sem contar a motivação de crescer 5 centímetros… Olha, com muita boa vontade, é possível aceitar isso sob o olhar de que o filme estabelece um paralelo com o desejo da Bulma de rejuvenescer 5 anos também. São dois desejos extremamente egoístas, bobos e quebram com nossa expectativa do que ambos desejariam (talvez não nos espante tanto o desejo de Bulma, mas ok). Porém, Freeza tinha a ambição de ser imortal no começo de suas aparições e, apesar disso ser citado no filme, essa mudança de planos é muito abrupta. Em nenhum momento da série sua altura foi alvo de piadas ou era um problema (que eu me lembre). Pelo contrário! Era muito contrastante ver um ser tão pequeno e aparentemente inofensivo ser tão cruel, sádico e amedrontador. Toriyama adora fazer essa quebra de expectativa com seus personagens. Então eu realmente não entendi por que isso surgiu. É muito forçado, ainda mais se levarmos em consideração que acabamos de ver Freeza destruindo o planeta dos saiyajins por razões medrosas e supersticiosas. Que o motivo fosse se tornar imortal mesmo, oras!
Sobre Freeza ir com Broly e Paragus para a Terra também vai contra a lição que ele supostamente tinha aprendido no filme O Renascimento de F. Lá, ele tinha se precipitado e foi ter sua vingança contra Goku assim que atingiu a forma Dourada. Neste filme, aparentemente o erro de Freeza foi o mesmo: ele não mediu as forças de Broly e inocentemente acreditou no que Paragus dizia sobre seu filho. Freeza não se preparou e foi para a Terra sem nenhum plano A ou B. Muito estranho…
Ademais, Whis e Bulma também estão a passeio no filme, assim como Piccolo e Bills (esse último nem se fala). Senti falta da reação de outros personagens sobre a chegada de Freeza, Broly e Cia. na Terra. Tenho certeza que Kuririn, Tenshinhan e até mesmo Jaco perceberiam. Faltou uma atenção maior sobre os personagens secundários que sequer foram mencionados. Se o filme seguir a linha de adaptações de filmes de Dragon Ball em episódios da série, isso talvez seja aproveitado lá.
Por fim, a primeira aparição canônica de Gogeta na saga é muito bem vinda. Apesar de ser uma fusão de Goku e Vegeta e isso não ser nenhuma novidade para nós, Gogeta se diferencia de Vegetto em diversos quesitos. O primeiro deles está no conceito dessa fusão. Por ser uma fusão Metamoru, e não Potara, ela trás um ar mais místico consigo. Algo mais mágico mesmo, e não divino, como ocorrera com os brincos. Antes, a fusão dos corpos resultava num ser em que até as suas roupas remetiam a uma fusão das roupas de Goku e Vegeta, mas agora o ser que surge possui as mesmas roupas que Gotenks usa, fortalecendo a ideia de que a técnica possui um ar misterioso e mágico. Por isso, Gogeta não é simplesmente um Vegetto com outra roupa e vindo de outro método. Vegetto sempre foi brincalhão, sarcástico e Gogeta não demonstrou essas características: aparentou ser mais sério, centrado e… Heroico, como ele mesmo disse ao se autonomear. Isso condiz com a sua primeira aparição no filme de 1995 e traz personalidade para o personagem.

Outro fator que incomoda são as partes mal coladas e apressadas do filme. No começo, quando vimos rapidamente Bardock na linha de frente de resistência contra Freeza, vemos vários pontinhos pretos, mas em nenhum momento é mostrado o que estava acontecendo ali. Nós podemos inferir que era Bardock lutando contra soldados de Freeza porque temos essa imagem em nosso imaginário por causa do especial de TV, mas é tudo muito rápido e o filme não mostra em nenhum momento Bardock tendo lapsos heroicos e que tentaria algo contra Freeza. No fim do filme, com a preparação para a entrada de Gogeta, temos que ser muito complacentes com a história para acreditarmos que Freeza ficou ali apanhando durante 1h e que Whis ficou segurando Broly também para convenientemente Gogeta surgir depois de duas tentativas falhas. O filme deveria ter mostrado mais cenas das fusões erradas do Gogeta, como cenas dele entediado ou preocupado com o tempo perdido, entrecortando com cenas do Freeza, comentários do Whis sobre a demora… Algo do tipo. Também seria bom se os filmes de Dragon Ball não seguissem a formulinha: primeiro vem a comédia, com os diálogos concentrados na primeira parte, e depois exclusivamente ação. Também penso que deveria haver mais conversas nas lutas. Isso traria mais profundidade e nos conectaríamos mais com aqueles que estão em cena.
Dragon Ball Super: Broly é um ótimo filme, com lindas cenas de um trabalho caprichadíssimo, mas é mal amarrado em alguns momentos e pede por uma boa vontade dos espectadores. Uma versão estendida, com mais cenas explicando os pontos citados, seria muito bem vinda. Apesar das minhas reclamações, talvez ele seja o melhor dentre os três últimos filmes que são considerados canônicos. Sou apenas um fã chato que não consigo ser sucinto e quero destacar todas as ideias que tive com o filme, mas ele realmente me empolgou e vibrei com todas as lutas, sem exceção. Com certeza é uma reimaginação muito bem vinda de um personagem querido por grande parte dos fãs e que traz uma profundidade muito necessária que o mesmo não possuía. Dragon Ball, há alguns anos, era algo do passado, mas foi ressuscitado com as Esferas do Dragão e está mais vivo do que nunca.
Curiosidades e especulações:
– O filme teve ingressos esgotados cinco meses antes de sua estreia no Japão.
– As cenas de Gine, Bardock e Goku no planeta Vegeta são baseadas em Dragon Ball Minus, o capítulo extra do mangá de Jaco: O Patrulheiro Galático.
– Goku desconfia que Broly possa ser mais forte que Bills. Ele se tornar um Deus da Destruição seria o destino final do personagem?
– Freeza demonstra interesse em tentar novamente trazer Broly para o seu exército. Será que teremos mais adaptações da história do Broly antigo?
– Ao ver a forma de cabelos verdes de Broly, ninguém se lembra de Kale, do Universo 6. Muito estranho…
– O mangá de Dragon Ball Super ignora os eventos do filme Broly e segue a história, com tramas envolvendo a Patrulha Galática. Ainda não sabemos se isso será adaptado em anime e integrará o cânone, sendo um evento posterior ao do filme Broly, ou se será considerado filler.
– Também não sabemos se este filme será adaptado em episódios, como foi feito com A Batalha dos Deuses e O Renascimento de F.
> GAME OF THRONES, como vai ser quando ACABAR? ft Arya Stark e Sam Tarly!
– Tarble, apesar de seu nome não ser citado, foi mencionado no filme como irmão de Vegeta e se torna novamente canônico, depois de ser descanonizado e canonizado algumas vezes. Tomara que sigam com essa ideia e façam ele aparecer de uma vez por todas, acabando com essa confusão.











