Mais difícil que adaptar é decidir a estética da sua adaptação.

Desde a semana passada, ao pensar sobre o que Dracula vem nos apresentando, a única coisa que nunca sai da minha cabeça é o quanto deve ser sedutor ter um personagem como esse nas mãos. E nem me refiro ao ator que ganha a sorte de representá-lo, mas ao autor que pega esse destino mitológico nas mãos. E existem grandes figuras ficcionais na nossa cultura que conseguem esse poder: serem a história que alguém contou, mas continuarem a ser história nova para outro alguém contar. Tudo se pode fazer com ícones que não podemos provar, mas há limites na estética dramatúrgica, imprescindíveis para garantir o nosso interesse.

Continuo indeciso sobre o que pensar de Dracula e a julgar por esse episódio, eles também parecem estar. Ao mesmo tempo em que o personagem lida com mudanças em sua mitologia que funcionariam muito melhor numa história transportada para os dias de hoje, ele está situado num tempo e espaço que condizem melhor com o apelo histórico de sua figura. A impressão que dá é que os executivos da NBC quiseram “abraçar o mundo”, fazendo uma adaptação que encosta em Anne Rice, flerta com Bram Stoker e termina com cheiro de The Vampire Diaries. Tudo isso querendo repetir o respeito crítico de Hannibal, mas ainda confusa no meio desse processo.

A parte Stoker dessa equação se vê nos flashbacks e aparece logo na primeira sequência. Todo o trabalho acerca da origem de Dracula parece bem apurado e soa realmente como algumas das melhores produções do gênero. Os vampiros são sim, sedutores, mas há uma parcela gore dessa existência que não  pode ser deixada de lado. A interação entre ele e Van Helsing ganha na ousadia estratégica e perde na motivação… Pelo menos alguma intriga no mundo das séries poderia não vir sempre de um desejo de vingança.

Quando a história volta para o presente de Alexander Grayson, o trabalho de Stoker é desprezado completamente. Eu entendo perfeitamente porque os roteiristas querem que o vampiro ande à luz do sol, mesmo que isso seja parte de uma importante descaracterização. Grayson prevê uma vingança pelo prisma monetário e para fazer negócios e não ser descoberto pelos inimigos, precisa agir como um homem normal. Só aparecer à noite iria denunciá-lo imediatamente. Ainda assim, ver a série lutar para achar uma saída é bem doloroso… The Vampire Diaries e a saga Crepusculo já foram bem preguiçosas nesse sentido, preferindo viradas mitológicas que lhes permitissem a inserção no High School. Mas estamos falando de Dracula em 1896, sob uma nublada e enegrecida Londres, tornando esse tipo de decisão absolutamente discutível.

E se Grayson tem o dom da sedução tal qual os vampiros de Anne Rice, ao mesmo tempo consegue fazer sexo como um homem comum, o que lhe coloca de novo na visão moderna da criatura. Parece, a cada episódio, que a decisão de não torná-lo visitante dos anos 2000 foi precipitada, e justamente porque a série não parece se decidir qual é o melhor caminho. Ela mostra Grayson em um lindo vocabulário arcaico, seduzindo uma vítima e a mordendo num beco escuro, como nas boas cinegrafias do gênero. Mas aí faz com que no momento em que quase é flagrado, sua inimiga pareça saída de uma sequência de ação de Matrix. Isso sem falar naquela decisão bisonha de fazer com que os “videntes detetives” usem um “espelho mágico” para suas visões. Aquilo fica estranho até em Once Upon a Time, quanto mais em Dracula.

Em contrapartida, a trama entre Mina e Jonathan se desenvolveu melhor, dando aos dois um norte para o resto da temporada. Ele sendo o X9 oficial de Grayson, e ela percebendo que ele é um porco machista. Claro que isso a aproximará de Alexander e eu quero que me expliquem muito bem porque ela é a cara da falecida mulher dele. Foi interessante ver a ambição de Jonathan sendo explorada de modo a deixá-lo dependente de Grayson, que muito espertamente, aproveitou a primeira leva de informações numa blitz da moral, que mesmo não sendo muito original, deu um up no episódio.

Enfim, gostaria de estar mais satisfeito nessa segunda semana, mas ao final desses 42 minutos, eu continuava confuso. O que me soa é que mesmo sabendo que precisam se agarrar ao personagem, os roteiristas se afastam cada vez mais dele, abrindo concessões dramatúrgicas que lhes facilitem a vida, mas que nos deixem com uma sensação incompleta. Se Dracula surgisse em 2013, eu estaria mais preparado para geringonças que lhe façam caminhar ao sol ou inimigos em trajes de látex. Quando Londres aparece aos relâmpagos e paralelepípedos na minha frente, eu só quero escuridão e vultos assustadores… Eu quero o suspense da noite e a ojeriza ao dia… Eu quero sangue e vísceras. Eu quero o que o vampirismo pode me oferecer.

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