Na saúde e na doença.

O dilema do poder versus modernidade ainda transita entre o conselho do hospital, o velho contra o novo é muito bem representado por Violet e Cora. As vantagens da hegemonia do hospital na vila são vistas em mais um jantar, desta vez desastroso. Onde até o Ministro da Saúde do reino é convocado para discutir a situação, a guerra entre Cora e Violet teve uma trégua infeliz.

If I withdrew my friendship from everyone who had spoken ill of me, my address book would be empty!”

– Violet

O retorno de Tom Branson trouxe um pouco da vitalidade na contínua reforma de Downton em uma propriedade com sentido mais capitalista do que aristocrático. Mary foi muito bem na questão de gestão, mas Tom consegue incluir as ideias mais simples e modestas. O novo fazendeiro da abadia, Mr. Mason, se instala e Daisy se abate bastante com essa mudança. Enquanto uma oportunidade surge com Andy e seu amor pela terra, já que Mason é experiente, mas o esforço físico preocupa.

Além de negócios, Tom e Mary parecem cada vez mais próximos – alguns têm a percepção de algo amoroso, mas acabaria como um incesto – e a amizade fraternal entre eles nunca esteve mais intima. Henry Talbot acabou ganhando com a aproximação dos cunhados, o incentivo de Tom foi um grande fator pra Mary enxergar potencial em Henry; não sugerindo que ela é esnobe, mas as razões dela têm fundamento para época e Matthew foi o grande amor, ninguém tem como equiparar-se.

Edith já demonstra sua independência quando praticamente faz tudo sozinha, sua mais recente viagem para Londres a aproximou ainda mais de Bertie Pelham, mas não deixou o tom profissional. Quando até Mary elogia as escolhas de Edith, o mundo parece realmente ter reagido quanto a questão feminina e o papel da mulher na sociedade. Escolher uma mulher como editora é um passo nada seguro e muito moderno, o apoio de Edith com essa ação é imprescindível para complementar a vida significativa que ela expressou desejar; até porque seria hipócrita ela não dar uma chance a uma mulher e isso Edith nunca foi.

A vida conjugal de Carson e Hughes não parece ter entrado em um acordo, com ele sendo exigente e crítico, os problemas iam aparecer. Ele não deixa seu lado mordomo nem em casa, isso obviamente incomoda a nova Mrs. Carson e até dá a impressão de que ele não a valoriza; na verdade Mr. Carson é um gosto adquirido, é difícil conviver com uma pessoa do tipo e demora ainda mais para criar uma rotina com ele. Mrs. Hughes não parece muito contente com as reclamações.

As dores frequentes do Robert eram muito preocupantes, apesar das pistas e deles acentuarem sempre o que ele estava sentido o que aconteceu foi surpreendente. O jantar com o Ministro não dava nenhum indicio de plot twist fora o conflito do hospital, escolherem esse momento para prosseguirem com a grande surpresa do episódio foi muito propicio. O desconforto de Robert podia ser dado pelo tom da conversa e da hostilidade e fervor no assunto, ele passar mal parecia normal para a atual condição dele.

Foi repentino a úlcera de Robert estourando, as cenas foram chocantes, fortes e muito impactantes. A presença do Dr. Clarkson foi muito bem, o pretexto para ele ter comparecido ao jantar foi excelente, se não fosse por esse assunto do hospital poderia parecer proposital para o colapso do conde não acabar em sua morte. O momento em que Robert arruma forças para se despedir e se declarar a Cora quando achou que estava morrendo foi trágico de um jeito encantador e toda a sequência foi emocionante como deveria.

If this is it, just know I have loved you very, very much”

– Robert

Nessa reta final, o misto entre coisas boas e ruins foi bem arranjado. Os roteiros estão fascinantes e realmente não tem como argumentar negativamente sobre as tramas apresentadas. A emoção é passada de episódio a episódio e os resultados estão sendo muito bem aproveitados, conseguir encaixar um dos melhores plots já criados – a mortalidade do Robert – logo no último ano não tem preço. A competência é indiscutível e a série tem absolutamente tudo para encaminhar um final incrível com esses três episódios a seguir.

Upstairs 1: as crianças com granny e donk foram fofas demais.

Upstairs 2: a maneira como Mary e Edith se olharam tentando encontrar consolo na outra quando o conde estava tendo o colapso foi excelente. Nos tempos difíceis elas se lembram de deixar tudo atrás e contar uma com a outra, espero que consigam se acertar um dia.

Downstairs 1: esperava mais do plot da Ms. Baxter, acabou de uma maneira inconclusiva e pareceu um desperdício.

Downstairs 2: Denker quase perdendo a posição pelo que ela fez com Dr. Clarkson foi divertido.

6×06: Episode 6

Downton tour e os perigos da modernização, segundo Carson.

Com os acontecimentos do episódio anterior e um cliffhanger surpreendente, Downton Abbey reforça a impressão de que esse é o seu ano final. O colapso de Robert acelera as mudanças, Mary e Tom assumem seus papéis e os do detentor do título e criam novas possibilidades para o futuro da abadia. Enquanto Violet procura respostas e não aceita ser deixada para trás, Cora e as meninas tentam manter o fluxo do primeiro open house dos Crawley.

Yes, she’s competent. Leading a revolution without turning a hair”

– Violet

Depois do susto e da noção da mortalidade do Robert, questões sobre o título e a sua perpetuidade não deixam de surgir. A doença do conde e a cirurgia reforçam o cuidado extra de que ele precisa e as preocupações e estresse pertinentes a administrar o condado é preocupante, mas nem por isso a recuperação de Lord Grantham será mais fácil. Encaminhada pela não tão nova administração da abadia, a grande novidade na residência dos Crawley é o evento de caridade para o hospital da vila que expõem o modo de vida aristocrata. Com o apoio de uns e a rejeição da ideia por outros, o open house de Downton Abbey acontece.

Como meios para arrecadar fundos financeiros para o hospital, a ideia de um open house na propriedade foi uma ideia nada ortodoxa, diferente e interessante ao mesmo tempo. As opiniões diversas colocaram mais expectativa no dia, os conceitos diferentes foram bem acentuados e complementaram a experiência de um evento inusitado. Alguns acham perigoso por ser inovador demais e se apoiam na história para tal, já outros são mais engraçados como a perspectiva de Daisy (bastante ignorante até) que tem um certo ressentimento bem evidenciado; Carson rebatendo a opinião equivocada de Daisy foi ótimo, qualquer civilização tem que ter leis e limites. No entanto, a novidade é algo curioso para todos.

Não só o staff dos Crawley dividiu opiniões sobre o assunto, até os comentários mais bem-sucedidos como o de Isobel – sobre a Elizabeth de Pride and Prejudice – foram engraçados e adicionaram mais a essa trama inimaginável. Violet obviamente ia ser contraria a algo assim, mas Isobel foi bem sensata e contrapôs muito bem, de forma humorada, as opiniões da condessa viúva. A dinâmica de Lady Violet e Mrs. Crawley nunca muda, é sensacional acompanhar as duas juntas e toda a trajetória da construção da amizade improvável entre as duas resultou em um dos melhores relacionamentos dentre as séries e essa discussão de opiniões bem diferentes prova isso.

Robert decidindo cumprir as ordens médicas foi excelente, mesmo podendo ter feito isso há tempos, é difícil deixar um hábito, é realmente difícil mudar, mas a nova força dele é empolgante. Carson tentou ser compreensivo e bondoso em levar o vinho, mas quase foi uma gentileza mortal se o conde tivesse aceitado, mas a lealdade dele é admirável e mesmo tendo seu mundo abalado com a doença do conde resolver ser solidário foi uma das atitudes mais engraçadas que ele já tomou. O repouso parece ser o que mais incomoda Robert, mas dessa trama surgiu um diálogo divertido com uma criança em visitação que se encaixou muito bem a conversa com Violet que foi o alivio cômico após o terror com Robert.

Enquanto o conde e a condessa já encontraram e continuam, felizmente, o seu “final feliz”, os pretendentes de Mary e Edith ainda tem um caminho a percorrer. Mary e Henry tem sido bem encaminhados – cortesia de Tom para isso – e de todos os partidos que apareceram depois de Matthew ele é o mais interessante, não que o Tony não tenha sido, mas Talbot parece bem mais compatível a atual fase de vida da Mary. Já Bertie e Edith conseguem parecer ainda mais certos um para o outro do que ela era com o Gregson, o complemento entre eles e a compatibilidade ficou excelente. Os novos casais agradam bastante e a sensação de que tudo vai ficar bem para elas é ótima, mas o “felizes para sempre” é ainda melhor.

Bertie pareceu se enturmar bastante com a família, bem mais do que Gregson e isso é uma diferença absurda para tudo dar certo entre ele e Edith. Foi muito cômico ele colocando medo, sem intenção, sobre o open house e relatando todos os possíveis acontecimentos que ninguém pensou antes por não estarem habituados a convidados desconhecidos. A visitação foi muito engraçada, Cora, Mary e Edith não sabendo praticamente nada foi muito estranho para os visitantes, mas ficou muito natural. O constrangimento mútuo é algo difícil de fazer dar certo em casos como esse e conseguiram atingir o ponto de forma descontraída. O timing de Violet para ajudar Mary foi sensacional, o comentário sobre o quarto conde foi hilário, mas ela deve prosseguir com a guerra e mesmo não sendo a hora certa para isso, Violet simplesmente não pode evitar.

Cora assumindo mais uma função da condessa viúva é mais simbólico do que tudo, a representação dela na discussão das reformas no sistema do hospital e o papel dela com o título e a propriedade nunca pareceram tão fortes justamente por Violet ainda desejar exercer esse papel. Esse paralelo entre a presidência do conselho hospitalar e o título dos Grantham é de inevitável comparação, finalmente – depois de trinta anos – Cora está assumindo seu lugar real. Entretanto nada seria fácil com Violet, a sensação de perder seu lugar e a influência é mais nociva do que perder o cargo para outra pessoa que não Cora. A cena que ela fez ao confrontar Cora na frente de todos só não foi melhor do que ela sendo casual ao se deparar com os estranhos na casa, Violet sempre mantem a classe e se mostra confortável mesmo não estando.

O novo inquilino da abadia parece ter conquistado espaço entre os moradores antigos. Mr. Mason vivendo em Downton Abbey fez bem a Daisy, mas complicou um pouco as coisas para ela. O pai de William foi extremamente bondoso e gentil com Daisy e essa relação familiar é muito boa para ambos, mas ela tem sido egoísta como sempre. A maneira como ela sentiu ciúmes do Mr. Mason e Mrs. Patmore foi um tanto engraçada, acho que o casal daria bem certo, é compreensível o medo que a Daisy tem pela Mrs. Patmore machucar Mason, mas isso não lhe dá o direito de interferir ou ser grosseira com os dois; a grosseria com a Mrs. Patmore é inaceitável, antes de mais nada Daisy deveria refletir em como tratar as pessoas.

Daisy se entusiasmar pela educação e querer ser melhor foi um dos plots mais inteligentes na série, é sempre fascinante acompanhar o progresso de alguém, o interesse dela em aprender mais e enxergar o mundo como um todo é inestimável. O gancho para o Molesley foi de certa forma esperado, mas não deixou de ser empolgante. Finalmente mais um sonho alcançado por alguém do staff e mesmo que não seja completamente o que ele ansiava, Molesley receber essa oferta foi tocante. Só que nem todos têm boas ações recompensadas, Thomas que o diga.

A maioria do staff sempre pensa o pior sobre o Thomas, assumir coisas inadequadas sobre ele é um hábito há muito tempo; a culpa foi dele, mas o tempo passou e as tentativas falhas dele corrigir isso apenas pioraram tudo. Mrs. Patmore observar Andy e Thomas e entender errado foi óbvio, mas ela delatar ao Carson sem antes compreender a verdade foi injusto com ele. Mr. Carson agiu muito mal com Thomas, ele chegou a ser rude até e esse tipo de comportamento faz o Thomas pensar que não adianta as coisas boas que ele faça, não adianta mudar. Chegou ao ponto em que Thomas precisa recomeçar, a mudança de ambiente vai lhe fazer mais bem do que mal e é bem provável que ele consiga progredir e ser uma pessoa feliz longe de Downton. Até Thomas merece o final feliz.

Who is this flexible and reasonable person? I don’t recognize my own dear sister Mary. Could this be love?”

– Tom

As novas inovações e o capitalismo sendo criando chegaram a Downton por meio do Tom, esse episódio mostrou o futuro e a realidade de propriedades como esse condado. O gancho que trouxeram com isso foi muito bem feito e a modernização não é restrita ao hospital e mesmo com o conde e a família não estando prontos para eventos como esse frequentemente, foi muito divertido e sensato escolherem abordar o tema no ano da despedida da série. Nesse episódio bem-humorado e inteligente, é fácil entender que Downton Abbey criou um ambiente sensacional e se tornou um grande clássico da televisão.

Upstairs 1: o orgulho do Robert pelas filhas é adorável. Ele falando sobre a Edith foi muito lindo.

Downstairs 1: relembrar o William mesmo que apenas pela fotografia foi uma ideia excelente. Todos os que se foram sendo mencionados nessa reta final é muito gratificante.

Downstairs 2: Carson solidário com o conde e não tomando nenhuma booze é hilário. É muito ele isso.

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