Como já esperado, Dois Irmãos guardou seus momentos mais emocionantes para os últimos episódios, quando o propósito da série se esclarece diante de nós. A angústia, que até então só contornara a história, agora se envolve na vida, nos pensamentos e nas decisões das personagens. Todas elas passam a manifestar algum aspecto da mágoa que se abateu sobre a família, com doses mais generosas para uns do que para outros. Fechando sua última semana, a minissérie explora o lado mais animalesco e selvagem de suas criações, apoiada no texto duro e, pelo menos dessa vez, aproveitando-se da crueldade e obscuridade do material original.

Episódio 8
As sombras que a mágoa joga sobre as personagens começa a ficar mais evidente no episódio exibido na quarta-feira. Acompanhamos a visita de Yaqub a Manaus e suas provocações voltadas aos parentes quando cutucado. Quando finalmente assume a voz que sempre quis ter em casa, o engenheiro relembra a decisão que mudou sua vida, quando fora obrigado a se afastar da família e morar no Líbano. Ele foi por muito tempo essa pessoa crescendo fora, e isso não mudou muito quando regressou, uma vez que sua maior amizade na casa é uma pessoa que tem uma vida clandestina ali dentro e não é reconhecida como parte deles. A frase que ele deixa incompleta tem sua força nisso: em tudo o que ele gostaria de falar, mas não consegue se expressar; raiva demais ou dor demais.
Omar, enquanto isso, inicia sua estranha função de jardineiro da casa. Talvez em função de um estresse pós-traumático, o caçula se torna uma paródia do homem forte e rebelde que fora até então, restando apenas uma figura que se rasteja entre as plantas e é zombada pelas crianças da vizinhança. Nesse ponto, creio que a história queira retratar aquilo que ficou subentendido nele até então: o quão selvagem e movido por instintos ele é.
Visitamos São Paulo mais uma vez, e a minissérie narra os absurdos cometidos por Omar na capital. A narrativa da minissérie segue uma linha cronológica própria e se difere do romance, mas isso não a prejudica. O encadeamento dos fatos é bem feito, por mais que às vezes se perca muito tempo engrandecendo alguns fatos e deixando outros de fora, até porque os episódios estão mais curtos. Por mais longa que tenha sido a cena em que Omar invade o apartamento do irmão, foi bom voltar porque o comportamento do caçula, agora explicado, contribuiu bastante para esse ódio entre os irmãos.
Trinta minutos do episódio são gastos nisso, como se a produção estivesse forrando o terreno ou montando o cenário para o que virá a seguir. Depois de alguns diálogos e da cena da reforma da casa, quando Yaqub, mesmo insatisfeito com as atitudes do irmão, manda reformar a casa e a loja, entendemos que o episódio quer falar sobre perda de espaço e de identidade, algo que também acontece com a cidade em que eles vivem, agora mais movimentada e recebendo o avanço presente em outros estados. Segundo o narrador, Manaus está se mutilando para crescer, e é assim que sentimos no decorrer da trama: mesmo em seu crescimento financeiro, as personagens se perdem dentro de si e se agridem em seu convívio.
O oitavo episódio mostra o domínio que Zana e Halim sofrem pelos filhos e como vão encolhendo para que eles tomem novos espaços e vandalizem aquilo que construíram: enquanto Halim perde espaço para Rânia em sua loja, que se descaracteriza para que possa sobreviver ao mercado, Zana tem sua casa invadida por móveis mais condizentes com a época em que vivem, mas que ela não reconhece.

Episódio 9
A morte de Halim fora anunciada na condução da narrativa há certo tempo, ficando mais evidente no episódio anterior. Isso, entretanto, não tira o brilho e o impacto do momento mais emocionante da minissérie até aqui. Protagonizada por Antônio Fagundes, o melhor ator em cena, e bem explorada por Eliane Giardini, que brilha em cenas mais dramáticas, a cena anuncia a decadência da família a partir da morte de seu patriarca, que passou a noite de natal fora porque não conseguia sequer suportar a voz do próprio filho.
Além de bonita, a cena é surpreendente, porque, entre todas as coisas que Omar já fez, ninguém esperava que agredir o cadáver de seu pai seria uma delas. A sequência foi bem regida e abusou sabiamente dos acessos de raiva e crueldade do caçula. O acontecimento tem consequências imediatas e a longo prazo: Nael se posiciona contra Omar e o expulsa da casa; Zana finalmente diz ao filho que ele está estragando a própria vida e é o único a não mudar em uma cidade que aceitou a realidade da metamorfose.
Durante o episódio, fiquei com a impressão de que aconteceu tudo rápido demais, não alongaram nada, como fizeram em outros episódios. Não esperava que a morte de Halim acontecesse somente no nono episódio, afinal há muitos acontecimentos interessantes após isso, que talvez sejam suprimidos por essa razão infelizmente. Há também a possibilidade do último episódio ser mais longo, contudo.
Há tantas cenas fortes e significativas aqui que chega a ser injusto sublinhar somente algumas, mas Zana tingindo as roupas de preto se destacou bastante para mim; a cena do vento invadindo a casa também — se bem que a casa acabara de ser reformada para aquela deterioração mostrada. O que não achei muito evidente foi a bronca que ela dá no filho por ter desrespeitado o pai quando este não podia mais se defender. Ela acontece, mas fica abafada pelos gritos de Cauã Reymond, que poderiam não ser tão presentes.
Chegamos ao emocionante momento do perdão; momento em que Zana reconhece, depois de ensaiar as desculpas pela trama, o erro que foi ter enviado somente um filho para o Líbano. Assim como a mágoa da decisão corroeu Yaqub, que sequer responde ao pedido da mãe — outra evidência da falta de bondade presente nele, que nada mais é do que uma versão mais educada do irmão —, a culpa a consumiu durante todos esses anos, tornando-se mais forte após a morte do marido e prevendo o final da história. Halim morreu com os filhos ainda se odiando, e ela não quer esse destino para si. Um pouco tarde, talvez.

Só nos resta o último episódio; só nos resta a ruína. Se o nono episódio foi incômodo, é bom que estejamos preparados para o que virá a seguir, quando a minissérie encontrá a destruição total para suas protagonistas. A decadência os aguarda e cada um terá que responder às mágoas guardadas em si e que tanto refletem no olhar que voltam aos mais próximos.















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