Série documental das Paquitas é tudo aquilo que o público queria que o de Xuxa fosse: um primor de construção narrativa.

O investimento do Globoplay em séries documentais tem sido um de seus pontos fortes há bastante tempo. Enquanto na dramaturgia a coleção de fracassos vai aumentando, sucessos documentais como Vale o Escrito e O Caso Evandro estabelecem as boas escolhas da plataforma na hora de contar grandes marcos na história do nosso país; seja revisitando a cultura pop ou seja dramatizando crimes reais.

No caso da série documental sobre a vida de Xuxa, o tiro saiu pela culatra. Foi um dos casos raros na plataforma em que tudo estava errado; do jeito que o doc foi divulgado até a organização dos tópicos. Pedro Bial e sua equipe produziram um documentário sem organização, sem um verdadeiro mergulho na carreira da apresentadora; o que frustrou uma geração inteira que sonhava em ver algo sendo produzido para destrinchar Xuxa como ninguém nunca havia feito antes.

Teria sido maravilhoso se o trabalho tivesse caído nas mãos de Ana Paula Guimarães, Ivo Filho e Tatiana Maranhão – os três responsáveis por Pra Sempre Paquitas. Talvez por estarem dirigindo e produzindo algo que elas conheciam como ninguém, Tatiana e Ana Paula tiveram pleno domínio da narrativa que queriam contar; e sabiam, também, exatamente, os pontos que jamais poderiam ser ignorados nessa trajetória. Sendo assim, detalhes divertidos para os fãs como quem escolher para aparecer na capa e contra-capa dos discos, estavam ali para nosso deleite. Nada foi esquecido. Nada foi ignorado.

A estrutura é a mesma de tudo que está sendo feito nesse gênero: uma sequência emblemática começa o episódio; vem a abertura; e por fim, a narrativa é desenhada em torno de algum subtema. Enquanto o doc de Xuxa perdeu a oportunidade de se organizar a partir de cada programa ou cada disco, no doc das Paquitas a edição final de Daniel Maia decidiu – felizmente – guiar os depoimentos a partir das formações do grupo. Tudo que era dito nos blocos daquela formação dizia respeito àquela formação, o que fez com que os episódios fossem extremamente fluídos.

Essa fluidez também aparecia na apresentação da pesquisa de imagens. É seguro dizer que ao menos 90% do que é mencionado nas entrevistas tem algum tipo de registro visual. Ainda que Marlene Mattos e algumas poucas meninas não tenham topado dar depoimentos, essas ausências são compensadas com uma substancial quantidade de recortes que – em sua maioria – corroboram o que está sendo dito sobre aquelas pessoas.

Outro ponto importantíssimo do documentário é a coragem que ele tem de não fugir para as tangentes da autocelebração vazia. Com meia hora do primeiro episódio, Luciana Vendramini e suas declarações falsas sobre ter sido paquita já estão sendo jogadas na fogueira. O roteiro de Paulo Mario Martins não se acovarda em abordar os episódios de bullying entre elas; em abordar a constante negligência de Xuxa; em trazer de volta traumas como o da “mini paquita”; em falar sobre racismo; e surpreende ao abordar até mesmo a maior polêmica e o maior tabu entre elas: o livro que resultou na demissão em massa de 1995.

Para Marlene Mattos as coisas ficam ainda mais difíceis. No doc de Xuxa, Pedro Bial falhou miseravelmente na mediação daquela conversa entre a apresentadora e Marlene. A ex-diretora foi editada de uma maneira que a favoreceu; tornando-a símbolo de um deboche calculado, que refletia uma Xuxa passiva e desnorteada. Anos depois, a sequência marcou a evidência de que Marlene topou porque sabia que Xuxa não ia conseguir quebrá-la.

Dessa vez, ela se recusou; e é claro que ia se recusar. A maior vilã dessa trama não conseguiria sair ilesa novamente diante de um grupo que estava decidido a jogar na mesa todos os abusos que sofreu nas mãos da diretora. Marlene foi triturada; e as evidências apresentadas no doc a deixariam totalmente sem saída. Há trechos de imagem, fitas K7, antigos memorandos assinados… Não ficam pontas soltas sobre o comportamento execrável e até mesmo psicologicamente criminoso da diretora.

Assim como no também ótimo documentário sobre o Balão Mágico (produzido por Tatiana Issa), o trauma é um tópico comum e exatamente por isso, não é possível ver tudo com extremo otimismo o tempo todo. Xuxa sai machucada dessa exposição; e não podia, agora, reagir com mais do que uma expressão consternada e muitos pedidos de desculpas. Para algumas meninas o estrago foi maior que para outras; mas é evidente que a série documental é um expurgo para todas elas.

O último episódio quebra um pouco o ritmo por conta do pouco conteúdo dramático da geração final de paquitas (entre 2000 e 2002); mas a bela edição que encerra o doc nos seus últimos 10 minutos, recupera o nosso envolvimento emocional. Para a geração que viveu o fenômeno Xuxa e Paquitas (onde eu me encaixo), esse foi um mergulho em memórias preciosas, que a despeito da dor que se espremia na euforia do Xou, estão presentes como um terço de lúdico que segura de pé a nossa constituição cansada.

Não estávamos lá, mas entre a Xuxa, entre as Paquitas e entre nós, existe uma emoção em comum: a de quem sabe que a vida não deve ser definida pelo que dói, mas sim pelo que é bom; pelo que é mesmo tão bom.

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