Continuando diretamente os eventos do episódio anterior, nós somos levados ao limite do universo conhecido para presenciar uma trama psicológica que combina de maneira eficiente os melhores elementos de um bom episódio de Doctor Who. Dos três especiais anunciados, “Wild Blue Yonder” foi aquele com a menor divulgação possível, resultando em uma quantidade escassa de informações sobre as coisas que poderíamos esperar. Isso acabou levantando teorias sobre atores retornando, reviravoltas no cânone da série, etc. Mas poucos dias antes da exibição foi revelado que esse segredo era só uma maneira de garantir uma melhor apreciação do episódio, já que quanto menos se soubesse, melhor seria a experiência.
Esse é o tipo de episódio onde podemos ver os atores entregando o seu melhor desempenho. Contando apenas com a participação de Tennant e Tate por noventa por cento do tempo, o roteiro possibilita que ambos transitem entre os mais variados registros, passando do drama para a comédia, do natural para o grotesco. É delicioso ver como Donna, tão conhecida por seu humor ácido, ganha novas camadas dramáticas nas mãos de uma intérprete tão versátil como Catherine Tate.
E Tennant continua brilhando como sempre, arrematando cada pequena cena com a sua presença de cena monstruosa. A forma como ele constrói essa nova versão do Doctor, que lembra muito a 10ª encarnação, é fabulosa. A diferenciação ocorre nos pequenos gestos, nas expressões mais minimalistas. Esse novo Doctor é mais empático e generoso, como bem visto na cena em que ele conforta a amiga assustada. Essa é uma demonstração de afeto que dificilmente seria exibida pelo altivo e jovial 10º Doctor, mas que se torna genuína quando lembramos que agora ele possui muito mais bagagem, sofreu muito mais perdas, passou por inúmeros traumas. E isso fica explícito quando ele fala sobres as consequências do Flux e a descoberta sobre a Criança Atemporal. Nesse curto espaço de tempo Davies conseguiu escrever um texto que transmite muito mais impacto, peso, dor e tristeza do que qualquer tentativa que o seu antecessor teve ao tratar sobre esses assuntos durante as temporadas protagonizadas por Jodie Whittaker.

A atmosfera de suspense é outro ponto que funciona muito bem. O mistério que cerca as criaturas que vai da sua origem até a sua real forma ajuda a elevar o senso de perigo e incertezas que permeia as suas aparições. É uma sensação que mistura o medo e o humor (por conta da bizarrice envolvendo as deformações das criaturas) e resulta em uma estranheza muito própria da era Davies, conhecida por seus monstros com cabeças de animais e vilões sendo derrotados por pistolinhas de água. Acredito que a única coisa que me fez torcer o nariz foi a cena inicial que conta com a participação de Isaac Newton. Ela parece totalmente deslocada de todo o resto e só parece existir para justificar a piada recorrente envolvendo o conceito de gravidade. Talvez essa pequena alteração na história tenha reverberações futuras dentro da série, mas por enquanto é só um recurso cômico sem muita relevância.
Na próxima semana chegaremos à conclusão dessa trilogia especial e o último capítulo trará um dos vilões mais famosos da fase Clássica totalmente repaginado, além de separar em definitivo a dupla fantástica formada por Doctor e Donna Noble. Eu não posso falar por vocês, mas é tão bom voltar a ficar ansioso por um episódio de Doctor Who. Que isso seja um bom sinal.















