Acabou. Eu poderia dizer que esse final foi um banho de água fria nas minhas expectativas, mas eu já não esperava algo muito diferente do que aconteceu aqui desde a semana passada, quando o encaminhamento de todas as histórias e questões que a temporada nos trouxe convergiu única e exclusivamente para uma resolução apressada nesse episódio final. Era extremamente improvável que com apenas uma hora disponível, Chibnall fosse capaz de amarrar todas as pontas soltas e justificar a presença de tanta gente que foi empurrada até aqui por conveniência de roteiro e que não faria a menor falta.
E esse é o maior problema que existe, não somente nesse episódio, mas no Fluxo como um todo. A partir do momento que você percebe que inúmeros núcleos são subaproveitados ou até mesmo ignorados e que eles pouco agregam ao conteúdo final, surge o questionamento sobre qual o motivo que nos levou a acompanhar essas histórias em um primeiro momento. Notem como toda a saga de reencontro entre Bel e Vinder resulta em uma cena que dura dez segundos, não possui o apelo emocional que deveria e não justifica a presença de nenhum deles ali. Afinal, qual foi a grande contribuição que eles tiveram nessa batalha? Pilotaram algumas naves para derrotar os Sontarans? Podemos considerar a vingança de Vinder contra o Grande Serpente como parte do pacote, um fechamento de ciclo, mas isso é suficiente para que ele tivesse a sua história alinhada com tudo o que estava acontecendo aqui? O Grande Serpente, aliás, foi mais um personagem que surgiu no meio do conflito com o propósito de dominar a Terra, como se já não bastasse a presença do exército dos cabeça de batatas, e que foi descartado da forma mais simples possível.
A UNIT foi outra coisa que foi incluída as pressas, tomou uma quantidade significativa de tempo no episódio anterior e que nem mesmo chegou a ser mencionada aqui. E era melhor que a Kate Stewart continuasse escondida e tentando retomar o controle da sua equipe ao invés de se juntar ao grupo e ficar trancada nos túneis só ouvindo os outros personagens conversando! Mas se existe alguém que possui a presença mais injustificável nesse episódio, esse alguém é Diane, a guia de museu e interesse amoroso do Dan. Muitos podem argumentar que ela foi importante, pois a ideia para parar a segunda onda do Fluxo partiu dela, mas vamos pensar na trajetória dela até aqui. Alguém poderia me dizer o motivo que fez com que Azure e Swarm a mantivessem como prisioneira e não qualquer outra pessoa da Terra? Ela possuía uma ligação com Dan e ele estava junto da Doutora, mas quando ela foi usada pelos vilões para obter alguma vantagem ou coisa do tipo? E por qual razão ela foi a única pessoa que continuou viva e presa dentro do Passageiro já que outros milhares foram usados como sacrifício, sendo que em nenhum momento os vilões indicaram que ela era especial? São perguntas como essas que expõem a fragilidade da construção de narrativa para essa personagem. A própria solução sobre usar o Passageiro para parar o Fluxo poderia partir da Doutora, quando ela fosse resgatar o Vinder de lá. São soluções convenientes demais e nem toda a suspensão de descrença do mundo é capaz de fazer isso ter algum sentido.

Outra coisa que teve uma justificativa duvidosa foi a motivação dos vilões. Na review anterior eu já havia pontuado que Azure e Swarm tinham ideais muito vagos e que durante a temporada só vimos uma repetição das suas ações (teletransporte, vaporizar pessoas, falar frases dúbias) episódio após episódio. E aqui as coisas não foram muito diferentes. Eles querem destruir tudo, mas parece que eles chegaram um pouco atrasados já que o Fluxo já fez 80% do trabalho. Eles foram vendidos como personagens que já possuíam uma história com a Doutora, mas com exceção do flashback do terceiro episódio, não há nenhuma indicação, desenvolvimento ou contexto para essa relação. Eles existem porque o showrunner quis e é isso. E todo o conflito entre o espaço e o tempo continua vago e inconsistente, já que o próprio Tempo, que aqui foi sinalizado como sendo uma entidade física, preferiu matar os seus aliados e não a pessoa, que ao que tudo indica, foi a responsável por mantê-lo preso no planeta do mesmo nome.
Seguindo a linha de coisas que começam e não dão em nada, nós também temos toda a trama da busca da Doutora pelas suas memórias. Lembrem-se que no primeiro episódio nós somos jogados no meio de evento que já está em curso: a Doutora rastreou e confrontou o Karvanista (que recebeu uma camada trágica como personagem), pois ele era membro da Divisão e poderia fornecer as respostas que ela precisava. A jornada da Doutora, antes dos eventos do Fluxo, era a de se entender como pessoa após as revelações traumáticas do último ano. Durante a temporada sinais foram dados, flashbacks foram mostrados, a crise de identidade bagunçou a relação com os companions e quando a Doutora finalmente consegue o Arco Camaleão que possui todas as respostas, ela simplesmente o lança no abismo! Não faz sentido que a personagem abra mão de algo que ela esteve buscando por tanto tempo desse jeito. A impressão que fica é que Chibnall ficou com medo de explorar melhor essa ideia, após receber inúmeras críticas por ter alterado o lore da série com a introdução da Timeless Child.
O evento Fluxo se encerra sem amarrar todas as pontas necessárias e sem indicar quais eram as intenções que Chibnall tinha em mente quando começou essa aniquilação de espécies e destruição do universo, que continua completamente despedaçado, já que não houve nenhuma sinalização de que ele foi reconstruído e nem mesmo a Doutora parecia muito preocupada com isso. Considerando que ainda temos os especiais pela frente, pode ser que ele conclua algo em algum deles, dispondo de um tempo maior e sem contar uma narrativa tão inchada e turbulenta. Ou é isso ou ele resolveu ligar o f***-se e a destruição de tudo o que conhecemos faz parte dos seus planos. E nesse caso só nos resta lamentar e esperar por dias melhores.





















