Muitos de vocês devem se lembrar do episódio da 11ª temporada chamado “It Takes You Away”, escrito por Ed Hime e que ficou marcado na história do show como “aquele com o sapo falante”. Na minha review sobre aquele foram pontuadas duas coisas que resumiam o roteiro escrito por  Hime: ousadia e excessos. A ousadia de se arriscar por caminhos não tão usuais e buscar a criação de uma história que possuísse uma assinatura muito particular, mas que acabou não sendo tão bem desenvolvida, pois contava com um excesso de conceitos que não se encaixaram da melhor maneira possível e isso comprometeu o desenvolvimento do episódio.

Mas por qual motivo estamos relembrando daquele episódio em especial para falar sobre “Orphan 55”? Além de compartilharem o mesmo autor, “Orphan 55” sofre dos mesmos problemas que o seu antecessor criativo: uma ideia levemente ousada que acaba pecando por trazer coisas demais e que, na maioria das vezes, não contribuem para o bom desenvolvimento da sua história. Hime volta a adotar um tom de crítica social (tal qual a temporada anterior) para falar sobre o impacto que as mudanças climáticas e guerras causam no nosso planeta e isso acaba sendo um assunto muito pertinente, ainda mais em um momento no qual esses dois tópicos dominam as discussões recentes.

Acontece que uma sequência de decisões questionáveis impede que esse assunto seja trabalhado e concluído de uma forma mais efetiva. O desenrolar da história é ligeiramente confuso e isso acontece devido ao grande número de coadjuvantes introduzidos. Temos um casal de idosos apaixonados, pai e filho, um interesse amoroso para o Ryan, uma figurante rejeitada de “Cats” e dois quase-soldados. A maioria desses personagens está ali apenas para ser vitimada, sem nunca ter um desenvolvimento satisfatório e quando existe um esboço de caracterização e/ou motivação ela acaba indo por um caminho discutível. Como defender, por exemplo, as atitudes de Bella (Gia Ré), que causa a morte de inúmeras pessoas só para chamar a atenção da mãe que a abandonou quando ela ainda era pequena? Ou a Doutora permitindo que uma criança e uma idosa saiam da segurança temporária do resort para se aventurar em um território hostil e repleto de criaturas assassinas? Ou os personagens que insistem em manter o silêncio e guardar segredos mesmo em uma situação extremamente crítica?

Essas escolhas só servem para alongar o tempo de tela desses personagens na tentativa de fazer com que nos importemos com eles, mas é muito difícil criar qualquer tipo de vínculo quando nenhum deles consegue transpassar alguma profundidade. E no meio de tudo isso a revelação à la Planeta dos Macacos (1968) acaba surgindo de forma apressada e sem a carga emocional que foi, possivelmente, planejada. Talvez houvesse a intenção de criar um paralelo e fazer com que os companions experimentassem um momento de reflexão e pesar ao ver o próprio planeta destruído, tal qual a Doutora no episódio anterior, mas aqui o resultado é vazio e artificial.

Ao retornar ao tópico principal e falar sobre as consequências das escolhas humanas para o futuro do planeta cabe a Doutora entregar um monólogo que, infelizmente, soa deslocado e extremamente didático. Existem maneiras melhores e mais sutis de se transmitir uma ideia. O modo como a mensagem foi apresentada a deixou extremamente mal colocada contribuindo para aumentar a sensação de estranheza que se fez presente desde o começo do episódio.

Esse poderia ser um episódio marcante e altamente reflexivo, mas acabou sofrendo com inúmeros problemas que acabaram por criar uma história extremamente genérica e mal construída. Infelizmente um episódio desse nível faz com que as expectativas em torno da temporada fiquem abaladas, ainda mais depois de um início tão promissor. Uma pena. 

Em tempo:

– A possibilidade de um casal formado por Ryan e Yaz parece cada vez próxima de se tornar realidade.

– Isso aqui deveria parecer romântico?

REVISÃO GERAL
Nota:
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doctor-who-12x03-orphan-55Anunciado como um episódio assustador, “Orphan 55” não consegue entregar um roteiro coeso, apesar das suas boas intenções. Nem mesmo a urgência e a importância da sua mensagem central são capazes de elevar a qualidade dessa história.