Garth Ennis e suas leituras da homossexualidade, um autor depravado? E a heterossexualidade, um olhar tradicional?
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A literatura, a televisão e o cinema, comumente retratam o homossexual como aquele que vai chocar, criar barraco, o amigo da melhor amiga ou o instável emocionalmente (“ele era homossexual e assassino”). Situando isso quando Preacher foi lançado em 95, os Estados Unidos já estavam bem fortes na sua luta a favor de uma Política da Diversidade Sexual. Entretanto, continuamos lendo e ouvindo que já não bastasse mostrar que a religião era um problema, esta HQ fica fazendo “apologia ao sexo entre dois homens, a prática BDSM, e desviando a conduta das mulheres”. E como era de se esperar, Preacher será por um bom tempo sinônimo de blasfêmia e depravação.
A AMC tem em suas mãos um problema hecatombico (digo novamente), que apesar da coragem, não consigo imaginar nem ela ou outro canal aberto ou fechado americano preparado para representar na telinha Preacher como deveria ser ou próximo do que é, já que esta HQ, tem uma forte conotação sexual nas suas páginas. Preacher na TV é como chupar bala com embalagem (sem apologia à leitura sexual que se tem disso). Não terá o mesmo sabor, mas é um começo para novas produções com temáticas semelhantes que poderão surgir. Mas cabe indagar, até quando sangue (gore) e mortes de todo o tipo poderão acontecer aos montes em produções do seu canal e outros? E “Deus” e o sexo serão sempre tratados como tabu? Até entendo que numa forte cosmologia cristã americana, enfrentar Deus em rede nacional seja um perigo para qualquer canal de TV estadunidense, porém, sobre o sexo, já avançamos o suficiente para tratar deste assunto com mais força visual. A impressão que eu fico quando vejo um canal TV fechado sexualizando os seus personagens, é uma espécie de perigo, privado, de desejo oculto, que entre quatro paredes, alguém poderia ter qualquer coisa, mas abertamente (os demais canais), não, um afronto para uma moral puritana americana (que não é tão diferente em outros países).
O que admiro no Ennis (entre outros aspectos de sua personalidade), é que ele é um dos poucos (quase o único) autores da nona arte que mais exploram o homossexualismo. A sua realidade homossexual – e não falo isso num sentido valorativo de certo ou errado – não é daquelas que habita as bordas de uma colorida parada gay de São Paulo. Não tem glamour. É ponte-aérea São Francisco/Berlim. E serei mais específico, é Gengoroh Tagame. Não sou hipócrita, sei que o trabalho de Garth Ennis choca e causa repulsa, contudo, mesmo o corpo apesar de todos os avanços para uma liberdade de gênero, continua sendo tratado como apêndice, e uma leitura significativa de Preacher (ou outro trabalho deste autor) pode ser um meio eficaz para ajudar na compreensão de uma das maiorias problemáticas do homem contemporâneo, o seu corpo.
É digno salientar, que a liberdade sexual e do corpo ainda é visto como um produto da contracultura, algo para ser explorado às escuras, fora do olhar das pessoas. Sexo é “sujo”, o “corpo” é nojento, porém, o desejo a espiadinha, sempre acontece. Em Preacher temos um personagem que só pelos dois nomes juntos, é de espantar até o puritano mais liberal, estamos falando de Jesus de Sade, o amante de criancinhas e animais, ou a tudo que pudesse aflorar o seu desejo da carne. A alusão feita a Jesus Cristo e ao Marquês de Sade é feita por traços, falas, costumes e festas onde todo mundo poderia ser de todo mundo. Não é só a AMC que não teria coragem de mostrar algo do tipo ou parecido na televisão, acredito que a maioria das emissoras de TV no planeta.
Odin Quincannon é um personagem que vai aparecer na primeira temporada de Preacher, além de toda uma apologia ao nazismo em torno dele (outro tema abordado por Garth Ennis em suas obras), ele é membro da Ku Klux Klan. Sua história é bem tardia na HQ, que trazendo este personagem para um arco de história que não pretende chocar tanto o telespectador, realmente me surpreende a AMC adiantando isso. Entre ele e outros vilões, sexo e profanação religiosa, é algo recorrente na sua história. E me pergunto se a AMC terá coragem de retratar em cena seus desejos sexuais com manequim feito com pedaços de carne?
Preacher tem uma pegada BDSM (bondage – disciplina, dominação – submissão, sadismo – masoquismo), e tentar definir esta prática é uma tarefa complexa. Vista com maus olhos, falar dela exige uma reflexão histórica profunda (que não é tarefa desta postagem). Hoje se fala em BDSM’s (modos de praticar), amadurecido, algo que não é mais de gueto. E recorrente nas obras deste autor aqui explorado.
A pergunta que não cala, é como a AMC vai trabalhar a sexualidade encontrada em Preacher? Sobre Deus e a religião ela não vai explorar tanto, isso já é fato (o fã radical tem que aceitar isso), e o sexo? Que é bem mais cara da HBO, mas convenhamos, Preacher sem a crítica feroz a religião não é Preacher, sem sexo, não é Garth Ennis. Se Preacher na AMC vai ser um retrato do seu original, que pelo menos seja bem pintado, o resto pode ser perdoável.

O que foi exposto acima, é interessante de ser comentado, porquê é comum nos deparamos com pessoas dizendo que este autor estereotipa a sexualidade tanto homossexual quanto heterossexual. Eu já vejo o contrário. Realmente, quem lê uma obra ou outra, pode sim o caracterizar como alguém que retrata o homossexualismo de forma esteriotipada, que na verdade, quem mais estaria próximo disso, seria um tipo (não o homossexualismo) homossexual atrelado demasiadamente a cultura de massa americana, que Infelizmente, é reproduzido de forma exagerada por nossas amadas séries, cinema, música (novelas no Brasil e festivais gays), e ressignificados numa determinada tipografia homossexual para o mundo, como se esta fosse a principal vertente de quem sente prazer numa relação com um indivíduo do mesmo sexo. E até diria que falta um pouco mais de Cynthia Slater e Stonewall na Parada Gay de São Paulo, que é vendida por alguns como “A” festa da diversidade do planeta, muito colorida isso é vero, mas e a consciência (corporal e sexual) no decorrer disso? É como o Natal, no dia é muita comida, bebida, abraços, altas recordações, mas acabou o dia de sua celebração, é como se uma boa parte voltasse para seu mundinho, e o ideal ficado ali.
Eu particularmente, gostaria que a AMC tivesse muita coragem para abordar a sexualidade de Preacher na sua série. Esta obra abre uma discussão urgentemente interessante, “o que pode um corpo”, umas das ideias centrais do filósofo Espinoza (entre outros), ou melhor esclarecendo: O QUE FAZER COM O NOSSO CORPO? E novamente eu digo, não é um olhar valorativo (cada um ainda tem o direito de viver como bem queira), mas percebo, que o homossexualismo glamouroso por fazer parte da mesma matriz identitária heterossexual, a da Sexualidade Focal, que tanto “heterossexuais ou homossexuais” estariam “presos” numa dimensão “sexual do pênis, vagina, ânus e boca” para todo um sempre, são meios de impedimento para uma potencialização da dimensão sexual do homem (também mulheres), por isso a Estética Tagame de Preacher, é necessária e passível de melhor análise sem o seu choque inicial, pois entendo o corpo humano como um todo sexualmente potencial, e não uma visão sexual centrada na ideia que existe um “ponto G ou que a próstata é um órgão de prazer”, ou para ser bem exato, que a sexualidade é uma questão de puro encaixe, uma sexualidade focal como dito anteriormente, mas que deveríamos caminhar, para uma Sexualidade Direcional, onde nosso corpo seria uma avenida de desejos, vontades e satisfações sexuais. Nosso corpo é uma superfície de projeção.
Voltando a falar de Preacher, esta HQ e sua escrita polêmica, traz ideias populares que o homem devido a uma vida de cobranças, de posturas, de uma imagem a zelar, esconderia um homossexual que no fim do dia só desejaria sentir prazer com outro homem. E também, que um homem que experimentasse o sexo anal uma vez, teria a sua sexualidade abalada ao nível de querer fazer de novo. Ou que os anjos quando na Terra, se despiriam de sua angelitude e passariam a viver da carne, isso acontece com Fiore e Deblanc.
Com um dos principais antagonistas de Jesse Custer, Herr Starr, este é o que mais leva a sério os limites do seu corpo a uma experiência que na mente dele, estaria próximo de um estado de nirvana (acontece coisas com ele, que não seria condizente com as normas do bom decoro social comentar aqui). Como a AMC retrataria este personagem é um mistério.
Preacher é carregado de um imaginário popular BDSM. A cultura desse erotismo começa a ganhar magnitude visual com Sweet Gwendoline, história de uma jovem donzela loira em perigo que continuamente é amarrada e resgatada por U-69, uma mulher poderosa e forte que trabalha como Agente Secreto (a história pode ser lida aqui se alguém tiver curiosidade). Da pena de John Willie na década de 40, as tirinhas são um marco para a força sexual de um lesbianismo que estava por vir dentro do BDSM. Também não podemos deixar de citar a História de Ó (1954), escrito por Anne Desclocs, sob pseudônimo de Pauline Réage. Do decorrer disso, temos o Samois, o primeiro grupo BDSM de viés lésbico fundado por Gayle Rubin e Pat Califia. Também na década de 70, foi criado o The Eulenspiegel Society (TES) em Nova Yorker, que dava apoio moral, psicológico e jurídico a homens, mulheres, homos e héteros praticantes do BDSM (se sua memória estiver boa, em CSI temos a Lady Heather; em The Good Wife, temos Colin Sweeney e Kalinda com seu ar/trajes de couro dominadora). Não podemos deixar de citar, e também do mesmo período, The Society of Janus (Cynthia Slater e Larry Olsen), outro movimento forte entre a comunidade lésbica, gay e hétero, e sua luta para uma melhor compreensão do que é um corpo ou sobre o que pode ele. Ennis teve boas fontes de inspiração.
E não podendo esquecer, escrever sobre Preacher e não mencionar Miss-Oatlash, é um sacrilégio para esta HQ. Advogada talentosa, apologista do nazismo. Parceira de Odin Quincannon e suas bizarras tramoias. É uma talentosa dominatrix – BDSM que fica tarada com Jesse Custer. Seu desejo é estuprá-lo. Uma dominatrix e um reverendo? A AMC vai se fazer é de sonsa (risos). Nem vai querer em suas mãos a quantidade excessiva de referência sexual que esta obra aborda.

Antes de terminar esta postagem, quero agradecer quem comentou, espiou, ficou chocado, leu, e até por não ter lido por ser tratar de Preacher. Faz parte do processo da vida. Nos vemos em uma outra oportunidade comentando sobre esta magnifica HQ ou sobre Garth Ennis. Também antes do fim, cito o biólogo François Jacob:
É através de uma interação constante entre o biológico e o cultural, durante o desenvolvimento da criança, que estruturas nervosas que sub-contraem as operações mentais podem amadurecer e se organizar. Nestas condições, atribuir uma fração da organização final a herança e o resto ao meio não tem sentido. Não mais que perguntar se o amor de Romeu e Julieta é genético ou cultural. Tal qual todo organismo vivo, o ser humano é geneticamente programado e programado para aprender. Toda uma gama de possibilidades é oferecido pela natureza no momento do nascimento. Isto que é atualizado é construído pouco a pouco, durante a vida, pela interação com o meio.
O corpo e a sexualidade são um misto de ir e vir constante entre o que pode ser entendido por genético com o seu desenvolvimento histórico, comportamentos adquiridos. Logo, não vejo como forçado poder dizer que de Preacher, podemos fazer uma leitura significativa quanto ao que foi exposto nesta parte três e sua sexualidade “compreendida como pervertida e imoral”. Valeu pela atenção pessoal. E um grande abraço a todos.






















