O ser humano é uma espécie curiosa. Somos capazes de coisas belas (como criar séries) e de coisas não tão belas. Uma dessas atitudes que nos rebaixa como espécie, que se auto considera duplamente sábia (sapiens sapiens) por sinal, é a violência. A maioria de nós é contra o seu uso. Preferimos a paz, é claro. No entanto, costumamos, de tempos em tempos, de circunstâncias em circunstâncias, tolerá-la e, porque não, apoiá-la.

Dexter, “a mão esquerda de Deus” (alcunha derivada dos livros que deram origem a série de TV), é um desses casos em que a violência, a monstruosidade de um ser, é mais do que aceitável: torna-se objeto de desejo daqueles que deviam repudiá-la. Essa é a história de um monstro que se converteu em herói.

Eu comecei a assistir a série, se não estou enganado a cerca de um ano e meio. Lembro claramente que a 4ª temporada ainda não havia se iniciado quando eu concluí minha maratona. E ao fim desta última temporada, me peguei na seguinte situação: eu adoro este serial killer. Pior: eu o defendo e digo isso com completa convicção. Pior ainda: conheço muitas outras pessoas que são mais loucas pelo personagem do que eu. Portanto, cabe perguntar: isso é normal?

Ousarei afirmar, para espanto de alguns e conforto de outros, que sim. É normal sentirmos afeição (às vezes muito mais do que isso) por um psicopata como Dexter. E aqui surge o pulo do gato. As características do personagem não são apenas bastantes peculiares (ele é um serial killer que caça outros criminosos), como o ator que o interpreta lhe conferiu uma humanidade tão particular e simpática que é praticamente impossível irmos contra sua natureza assassina e seus atos.

Dexter é um psicopata. Psicopatas são indivíduos cuja capacidade mental é extremamente debilitada na região do cérebro responsável pelo processamento das emoções. Assim, eles são incapazes de sentir como nós. Eles não são dotados daquilo que nos define como uma espécie tão diferente das demais: sentimentos profundos. Para se ter uma idéia de como seria ser um psicopata, basta se imaginar num mundo onde todas as pessoas que te cercam fossem como gado. Você pode até morar perto dele, alimentá-lo (e se alimentar dele), pode até gostar de uma vaca ou um boi em particular mais do que os demais, mas no fim do dia, eles ainda serão apenas uma vaca ou um boi, e por isso podem ser descartados quando for necessário. Eu dizia, contudo, que Dexter é diferente. Diferente porque seu impulso assassino é direcionado aos seus semelhantes. Não dá para deixar de ser um psicopata. Isso é impossível (ao menos com a tecnologia médica que temos). Então será mesmo um mal um psicopata (que nasceu dessa forma) matar criminosos que escapam da Justiça, ao mesmo tempo em que satisfaz não só o senso de justiça da comunidade como seus próprios desejos?

Nós brasileiros compreendemos muito bem como é conviver em um ambiente de insegurança e de sensação de impunidade. Jornais, noticiários da TV e sites de notícia, todo dia informam mais e mais crimes; mais e mais violência. Ao mesmo tempo, nos deparamos com um sistema judiciário cuja morosidade é tão detestável que começamos a acreditar que o crime compensa. E em muitos casos, termina por compensar mesmo. Então, quando somos apresentados a um sujeito, detentor de uma personalidade no mínimo anormal, que é capaz de fazer justiça com as próprias mãos, como não admirá-lo? Como não defendê-lo? Como não torcer pelo seu bem e sucesso, mesmo que isso resulte, de vez em quando, na morte de um inocente?

Costumo dizer àqueles com quem discuto tais temas, que Dexter é um clássico exemplo de indivíduo que habita na “região cinza” da ética. Região cinza é um termo que se refere aquela circunstância em que um ato, que seja naturalmente repudiável, torna-se aceitável. Um exemplo excelente é o caso hipotético da bomba no avião. Se um terrorista ameaça explodir o avião em que se encontra no momento, dentro de meia-hora, é aceitável que os passageiros o torturem afim de localizar e desativar a bomba? Essa questão moral é por si só uma tortura para muitos, mas creio que não estaria falando nenhum absurdo se eu afirmar aqui que a maioria consideraria aceitável tal atitude. O ponto é: concordamos que existem atos que são o mal por natureza. E também existem situações em que o mal é tolerável, se não, o único meio viável para se fazer o “bem”.

Você, leitor, deve está se remexendo na cadeira onde se encontra agora e pensando: “Não acredito que o bem possa surgir do mal, assim como vice-versa”. Bem, eu concordo com você. E não, eu não estou me contradizendo com o parágrafo anterior. Em regra, é isso mesmo: o mal gera o mal; o bem gera o bem. Acontece que o mundo em que vivemos não é “preto no branco”, para ficar num termo clichê, e por isso mesmo existem exceções. E assim como o caso do avião, Dexter é uma dessas exceções. Ele é um justiceiro, mesmo que seu real interesse seja egoísta (matar por prazer). Ele é aquele que, por via oblíqua, nos defende e protege. Dexter é o nosso monstro. Nosso último guardião.

Quando vimos, para quem assistiu a última temporada, Dexter afirmar que “é estranho como ele se sente mal por magoar Rita, mas não por matar pessoas”, pudemos vislumbrar nitidamente a contradição moral deste personagem. De um monstro que se sentia entediado de ter que fingir o tempo inteiro suas emoções, para um justiceiro amigável e sincero, no limite do possível, o personagem evoluiu. Cresceu. Tornou-se mais humano. Não me aprofundarei nesse aspecto em particular, porque não é o momento adequado para tanto.

A questão que importa é que adoramos não só um serial killer. De forma alguma. Adoramos um homem que luta todo dia contra aquilo é e, mesmo não conseguindo, direciona aquilo que o torna tão assustador para aqueles que também aterrorizam. E não somos nós assim também em certo aspecto? Dotados da capacidade de fazer tanto o bem quanto o mal; deparando-nos com situações em que nossos impulsos controlam nossos corpos e nos fazem agir sem medir as conseqüências. Quantas vezes não nos pegamos no meio de uma conversa destilando em nossa mente ódio pela pessoa com quem se fala ou tomados por puro tédio? Quero deixar claro, que não estou aqui tentando humanizar os psicopatas ou bestializar o restante da humanidade. Meu interesse é mostrar que existem pontos de convergência, de similaridade, entre nós, psicopatas e pessoas normais (se é que tal definição existe).

Dexter é especial, mesmo se levando em conta ser ele um mero personagem da ficção, porque consegue transparecer aquilo que costumamos denominar de humanidade de onde menos se esperava: de um psicopata. E convenhamos: quem nunca pensou e até mesmo planejou matar alguém alguma vez na vida? Felizmente, não fazemos. Infelizmente, alguns fazem por escolha. Outros fazem porque não conseguem conter-se. Então um psicopata/justiceiro que faça aquilo que a Justiça institucional não faz é não só aceitável, é desejável; é necessário; e adorá-lo, convenhamos, não passa de consequência. E que consequência mais prazerosa, não acham?

Meu Twitter: Adriel_SS

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