Começa o julgamento do século em Demolidor.

Era esperado que em determinado momento a série de Matthew Murdock, o advogado mais famoso da Marvel, fosse mergulhar de cabeça no esquema jurídico e na dinâmica de juízes e promotores. Mesmo ainda distantes de uma abordagem como a de Law and Order, ou The Good Wife, o roteiro fez bem ao conversar com o telespectador de uma forma pouco utilizada pela série. Novamente, o que entra em questão é o aprofundamento da importância dos coadjuvantes enquanto o relacionamento de Matt e Elektra toma novos e perigosos rumos.

O próprio começo da montagem com a escolha do júri dividida entre apoiar a abominar Frank Castle é uma decisão muito justa da série e que expõe de maneira perfeita o sentimento de quem acompanha o personagem, quer seja exclusivamente através da série, ou em um relacionamento mais antigo com os quadrinhos. São dois valores em choque. Quem apoia e quem repudia. Tudo na verdade soa como um espelho da nossa atual sociedade. Uns clamam por justiça, independente dos métodos, enquanto outros confiam no sistema legal já calejado. É a questão da segurança, da manifestação, da opinião a respeito do que é certo e errado, e do que a população já está cansada de aguentar. E o roteiro flui perfeitamente dentro da esfera sociológica, de uma maneira profunda e ao mesmo tempo de fácil compreensão.

Todo mundo tem uma opinião sobre o Frank Castle

Este é o momento em que atingimos a marca de meia temporada exibida. De uma maneira competente Demolidor mostrou que manteve sua força sem maiores problemas. Através da constante mudança do foco entre coadjuvante e protagonista, além de dois antagonistas para a temporada, o ritmo permaneceu ágil e bem longe do cansativo. Logo, a escolha de colocar o julgamento como divisor de águas para o segundo ano da série foi uma decisão acertada. É interessante ver mais do julgamento do Castle e do poder legislativo da série sobre um herói que é um advogado. Esse aspecto fez falta na primeira temporada, mas está sendo utilizado com maestria nesse ano. Sempre que escrevo críticas para séries adaptadas das histórias em quadrinhos eu cobro um pouco mais da vida privada. Neste ponto Demolidor é o pacote completo.

Quando menciono a crescente relevância dos coadjuvantes na série eu não estou analisando levianamente. A produção está constantemente dedicando tempo e espaço para que Karen e Foggy tenham um tratamento com maior peso. Em alguns períodos casa bem, mas em outros soa um pouco surreal demais. Ter a assistente passando um grande conhecimento de leis e vê-la ajudando dois advogados formados e competentes é sim meio estranho. É um comportamento facilmente explicado pela dedicação da senhorita Page, mas demonstra que fora deste espectro os roteiristas não sabem muito bem como lidar com a personagem. Ela cresceu muito rápido em sentidos ainda incompreensíveis. O roteiro precisou transformá-la em alguém legalmente capaz para inserir a trama do Justiceiro dentro do desenvolvimento de Karen como personagem, mas às vezes soa muito forçado. De qualquer modo é interessante ver como ela e Castle interagem. Karen é muito forte e compreende o que o Frank está sentindo, algo que é essencial para compreender a sua própria construção dentro da série. Page não é uma mulher frágil e através de seus discursos fica fácil entender que ela tem algo a mais para oferecer, além de uma compreensão muito grande do que é o abismo, de um jeito que apenas quem já esteve lá, ou muito próximo, poderia saber.

Já o discurso de abertura feito pelo Foggy novamente mostra o quanto ele se destaca quando não está ao lado do Matt. Apesar de começar um pouco nervoso o advogado conseguiu partir para uma ofensiva maior quando percebeu que ninguém viria para resgatá-lo. Enquanto Matt trabalha como herói da Cozinha do Inferno ele perde o posto de protetor do amigo e o permite crescer bem mais. Nelson é capaz, mas só consegue perceber quando Matt está ausente. Esse tipo de abordagem é revela um caminho perigoso para a amizade dos dois. Foggy precisa encontrar uma maneira de agir sem o parceiro e ele até está conseguindo, mas chegará o momento em que ele terá que aprender a ser quem ele é quando o amigo estiver do seu lado. Com a revelação de que mais uma vez Matt estava mantendo segredos do Foggy o caminho para uma cisão já começou. No final do dia os desafios do julgamento pesam mais sobre a amizade do que em cima da própria imagem de Frank Castle.

Também continua a investigação do Demolidor com a Elektra, revelando mais uma vez como o estilo do herói muda quando ele está ao lado daquela tóxica mulher. Antes mesmo de utilizar sua habilidade para entender seu oponente, antes de qualquer conversa, Matt já foi enfiando a bordoada no bandido, um comportamento muito volátil e impulsionado pela presença da ninja assassina. O Demolidor não precisa agir como detetive, mas ele o faz, porque compreende a sua função dentro do panorama de heróis e vilões. O problema é quando ele aceita que moralmente ele não precisa se encaixar em nenhum destes rótulos. Lentamente a Elektra também está fugindo do controle imposto pelo protetor da Cozinha do Inferno.

A sensualidade, os diálogos, o próprio uniforme preto e sem proteções, bem próximo ao que o Demolidor usou na primeira temporada, é um forte indicador de que além de estarmos observando a temporada de origem da Elektra, também estamos observando um trabalho muito grande de aproximação entre Matt e ambos os “vilões” da temporada. Ideologicamente o vigilante ainda segue seu próprio manual, mas já se separa também de algumas noções pré-estabelecidas. Em ambos os casos existe um complemento imposto por cada antagonista ao mocinho. No caso da Elektra é a libertação que o Justiceiro não conseguiu conferir. Ela é sexy, provocativa e liberta um lado do Matt que ele não controla. Contudo a personagem também é humana e o roteiro trabalha essa nuance ao expor sua preocupação com a sua instabilidade e o que ela fez com o “amado” no passado. Elektra se sente sozinha, mas não digna de ajuda e entende que o Matthew também está melhor sem ela. A conexão entre os dois revela a forma com que ele sente a presença dela no apartamento como uma tentação. É uma mulher que mesmo dormindo o seduz. E não tem como fugir de um tipo de aproximação como essa. Vai além do físico. A tentação do Diabo tem nome e luta muito bem para atingir seu objetivo.

Conversa entre Karen e Matt e como ele é um sinal de esperança para Karen. A posição de um advogado católico como o Matt diz não representa realmente o que ele entender e quer, é apenas uma forma de proteger sua identidade secreta, mas ao mesmo tempo ele não assume nada. Quem decide quem vive e morre, para o Demolidor, é uma divindade, não um herói. Vingança não é justiça. E Karen diz: Certo ou errado, você não pode negar que funciona. Ela não tem medo de dizer o que sente. Mas o Matt se sente decepcionado, como uma criança ferida que não aceita alguém com uma opinião diferente. Esse é o padrão dele como homem e como vigilante e é interessante ver o roteiro demonstrar com tanta força sua posição filosófica, mesmo ao ser confrontado por Karen. Ele fica visualmente desconfortável com a temática de um homem retirando vidas e sendo absolvido. Mas o fato de pedir que ela saia tem conexão com a Elektra do que com sua visão moral.

Sendo assim, como meio de temporada este sétimo episódio funciona muito bem. É sim um pouco mais lento por precisar dividir o julgamento com cenas de ação e revelações misteriosas de buracos eternos, mas também garante uma dinâmica válida para a série. Da revelação da identidade da Elektra para o Foggy, para a rede de mentiras do Matt e o que a Elektra está fazendo, deixando-o louco e cada vez mais temperamental, a frase dita pelo Castle nunca pareceu tão correta: “Você está a um dia ruim de se tornar como eu”. É para agradar fãs e não fãs do material, mas imagino que deve decepcionar um pouco quem conheceu a série e a amou apenas pelas cenas cruas de luta.

Easter eggs e outras informações

– É muito bom ver o Matt sentindo o batimento cardíaco das testemunhas para saber se estão mentindo ou não. Algo que torna essa temporada de Demolidor em um verdadeiro primor e se aproxima muito do aspecto “balanceado” que é a vida de Matt Murdock nos quadrinhos.

– Todo o lance de estresse pós-traumático entre ex-militares é um assunto recorrente em rodas de discussão a respeito das mazelas da guerra nos Estados Unidos.

– Ray Schoonover pode ser uma homenagem ao artista Brent Schoonover. Brent já trabalhou em Howling Commandos, Punisher e Homem Formiga.

Poderia o vagão cheio de areia ser uma referência ao Homem Areia? Ele pertence ao Homem-Aranha e já foi utilizado em Spider-Man 3, mas com o novo acordo entre Marvel e Sony, tudo é possível.

– Elektra já treinou com o Tentáculo na nona arte, como a personagem confirmou durante o episódio.

– O número 1986 4447 pode ser uma previsão do que está por vir. No ano de 1986 surgiu a saga ‘Born Again’ do Demolidor. Escrita por Frank Miller a história conta a queda de Matt Murdock em uma espiral de loucura e destruição através das mãos do Rei do Crime. Foi durante Born Again que Karen Page vende a identidade secreta do Demolidor para um traficante, enquanto buscava uma dose de heroína. Já o número #44 – #47 faz referência a saga que começou com ‘I, Murderer!” e marca outro momento da nona arte em que a identidade do Demolidor é colocada em xeque.

– O discurso de abertura de Reyes faz uma breve conexão com o tema de Guerra Civil e o perigo dos vigilantes mascarados que não respondem ao governo, ou as leis.

– É feita também uma menção a ‘War Zone’, filme estrelado pelo Justiceiro e famoso arco dos quadrinhos escrito por Romita Jr.

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