
Tem alguma coisa errada, que está fazendo dar tudo certo.
Spoilers Abaixo:
Quando Damages estreou ela veio na carona da narrativa fragmentada que tanto tinha chamado a atenção no cinema desde O Sexto Sentido de Shyamallan. O longa Amnésia, de Christopher Nolan, tinha impressionado muito o público ao contar uma história toda de trás pra frente. Embora imbuída dessas referências, Damages era um novo mundo se apresentando no universo seriado, e logo virou sucesso de público e crítica.
Mesmo assim, no que diz respeito à sua estrutura, a série nunca foi muito ousada. Temporada a temporada, fomos vendo sempre a mesma dinâmica diante dos nossos olhos. Aquela trama entrecortada, que mostra primeiro parte de seu clímax, pra depois desenvolver os eventos que levam até ele. Foi sempre assim…
Isso, até chegarmos aqui.
Tem alguma coisa errada com Damages, porque já faz muito tempo que não vemos nenhuma referência ao que acontecerá no futuro dos eventos. Mas ao mesmo tempo, é alguma coisa errada que parece estar dando muito certo, visto que a série recuperou sua segurança e está apostando menos nas muletas e mais nas reviravoltas. O fato de não estarmos sendo lembrados o tempo todo do que vai acontecer no final da série, é um indicativo claro de que essa não é a prioridade do roteiro, e isso sempre foi o grande problema do programa, que parecia disposto a tudo apenas para justificar o suspense proposto com esses flashes.
Como nem tudo são flores, substituíram os flashes pelos sonhos. Odeio todos os de Patty, e os de Ellen não ficam atrás. Às vezes temo que os sonhos sejam uma tentativa de nos preparar para o real papel deles na trama: justificar a “morte de Ellen”.
Nesse episódio (dirigido pelo nosso saudoso Tate Donovan), continuamos o jogo de gato e rato entre Patty e Ellen. A cada semana, uma ganha alguma batalha e passa a outra pra trás, embora pareça sempre que Patty está com a vantagem.
O episódio também tem a função de filosofar a respeito das ambivalências dos nossos personagens, dando especial destaque a Channing. O moço, que sempre pareceu muito esquisito, surgiu com um plot suspeito sobre um filho bastardo. Damages sempre teve o hábito de falar sobre a humanidade de personagens secundários, ele não trairia a regra. Com a identificação do autismo de seu filho, também fica pseudo -explicado o comportamento dele perante os que lhe cercam. O distanciamento constante de Channing, pra mim, parece sempre muito mais maldoso do que sintomático. A prova disso é a cena final dele, quando sabe que está dando um bolo no filho, mas continua pensando com o pênis. Há sim alguma coisa de muito errado com o rapaz.
Com Patty, não há nada certo. O tal cliente de Kate, que também parece ser pai de Hewes, só sinaliza para o que estamos cansados de saber: Patty é um pilar de sentimentos superiores, todos digladiando pra ver quem despreza mais a raça humana.
Correndo por fora dessa análise psicológica toda, temos a trama central, quando a briga pelas informações cedidas pelo Samurai esquenta.
Ellen, claro, não se conforma com o calote que levou e consegue chegar até a namorada do X9. Pra isso, ela usa os truquinhos que aprendeu com sua mentora. Patty acaba tendo que ceder a informação que lhe custou meio milhão de dólares, mas como eu disse, sempre estando um passo à frente de Ellen.
Chegamos ao quinto episódio, quase metade da temporada, e até agora não podemos dizer categoricamente que está tudo muito bom. Porém, não podemos dizer que está tudo uma bagunça. Ainda acho que o senso de elegância dos roteiristas atrapalha o embate verdadeiro entre as duas advogadas, que acabam, a despeito de toda a tensão, tendo diálogos frios regados de vinho ou Bourbon. Damages precisa de uma dose de esquizofrenia comportamental… Precisa apelar pra violência física, para a agressão verbal… Patty e Ellen precisam justificar essa última temporada com mais do que manifestações contidas de rancor… Elas precisam brigar. Pra valer. Aos gritos, e sem bossa nova.
Moção Aprovada: A participação de Victor Garber, o nosso eterno construtor do Titanic.
Moção Negada: Já que a série está indo tão bem sem flashes do futuro, porque perder tempo com sonhos toscos que não parecem ter relevância nenhuma a não ser falar sobre os processos traumáticos que já sabemos que existem há séculos?





















