Diversos episódios podem definir The Crown, sua proposta e sua estratégia para alcançá-la. Em Assassins, nono episódio, quando nos aproximamos da despedida à primeira temporada, entra para o grupo e é ainda mais direto do que os outros. Não assistimos apenas ao desenvolvimento de uma história, mas duas, que parecem distantes e de relação mínima, mas que, no fim das contas, dialogam não só com a pretensão do enredo principal, mas entre si. O episódio ainda, assim como outros, se apoia na personalidade e carisma de suas personagens, além do talento do elenco. Alguns atores têm o auge de sua performance nessa uma hora do seguimento. A sensação maior ao chegar ao fim de Assassins é que The Crown pode não ser uma série de fácil digestão e que tenha o grande público como alvo, como outras da Netflix, mas é uma das melhores da história de seu catálogo, o que justifica a aclamação mundial e o notável alto investimento de sua produção.
“Eu acho que em geral as pessoas têm pouco entendimento sobre quem são. É preciso cegar-se sobre si mesmo para que se sobreviva à vida.”
— Graham Sutherland, The Crown.
A linguagem cinematográfica adotada por The Crown não é a única coisa que deixa a série com aparência de filme: o roteiro apoia essa imagem quando cada episódio parece conter um tema e fica bem próximo de ganhar independência do restante. No último, por exemplo, visualizamos de forma mais clara o relacionamento das duas irmãs que protagonizam a história e suas diferenças. Isso serviu não só para definir como cada uma se comporta em relação a outra, mas para também definir o perfil individual delas. Conhecemos melhor Elizabeth e Margaret, e isso fez muito bem à série. Nesse nono, entretanto, não há vestígios disso e a a história se volta a outras questões. Não é possível reclamar dessa estrutura, devo assumir, quando tudo é executado com tanta competência.
Assassins toma liberdade para falar sobre questões polêmicas e sensíveis, principalmente quando voltadas às pessoas retratadas. Ao contrário dos conflitos presentes em outros episódios, esses estão presente na realidade de muitos telespectadores e isso influencia na forma como o público se relaciona com a série. Aqui não falamos diretamente sobre traição e aposentadoria, como pode parecer, mas sobre as dificuldades de se relacionar com uma pessoa e de envelhecer.

Porchey (interpretado pelo ator Joseph Kloska) é inserido na série de forma desajeitada. Quando isolamos este episódio do restante, isso não tem muita importância, mas quando o analisamos no contexto da temporada, fica estranho perceber a sua ausência quando ele ganha certa importância na história e quando tanto se investiu em outras personagens pequenas e cenas que fizeram pouca contribuição à narrativa. Sua presença é importante, contudo, para que percebamos o alcance da Rainha na vida de outras pessoas e seus relacionamentos, assim como a devoção prestada por todos que têm qualquer contato com ela. Fiquei na expectativa por um encontro entre esta e sua esposa, mas isso não ocorreu — não que tenha feito tanta falta.
Elizabeth sente o peso de seu cargo aos poucos. A sensação é de que ela, enquanto descobre as responsabilidades e como se portar em determinados momentos, vai percebendo até que ponto é afetada por seus deveres. Talvez imaginasse que sua função mudaria consideravelmente a dinâmica de seu casamento, mas não com tanto impacto. É provável que também não imaginasse o comportamento de Philip. Este, sentindo-se sem função, abriga-se em acusações vazias e em uma postura agressiva, quase como se contasse com a falta de atitudes da esposa diante de sua grosseria por saber que ela não pode responder como ele merece — da última vez que se alterou, sabemos o que ocorreu.

Winston Churchill, por sua vez, precisa encarar verdades que ignorou por certo tempo, mas que começam a ficar mais visíveis para si, e não só para todos a sua volta. Toda a trama envolvendo o quadro, por mais que tenha se tornado óbvia desde o começo, foi interessante. Imaginávamos que em algum momento ele teria que se despedir de sua função, então relacionar essa despedida com sua história trouxe beleza e profundidade ao momento. Conhecemos um pouco mais sobre ele e cada nova informação não soava desfocada, mas coesa ao restante.

Ficou claro que o retrato seria bem diferente do que o Primeiro Ministro esperava aos vinte minutos. Antecipei até a desculpa usada pelo pintor. Mesmo assim, no fim das contas, o saldo foi positivo. Os diálogos entre o ministro e Graham Sutherland (interpretado pelo ator Stephen Dillane) foram poderosos e deram profundidade às metáforas presentes entre as cenas. Mesmo aceitando a verdade oculta na pintura, Churchill decide por queimá-la, mostrando-se, no fim das contas, fiel a sua própria personalidade. Nem todos estão preparados para encarar como o mundo os enxerga — talvez ninguém esteja. Saber sobre sua perda também ganhou bastante valor, uma vez que podemos relacionar seu lado paterno aos serviços prestados à monarquia.
Como cobertura, temos Margaret e seus comentários maldosos — não só a personagem, mas a atriz Vanessa Kirby tem o dom de ofuscar os outros atores em cena. Personagens como ela funcionam mesmo quando aparecem pouco, e aqui esse foi o caso. Anthony Eden (interpretado pelo ator Jeremy Northam) foi introduzido de modo definitivo na trama principal. Aguardo pelo que o roteiro reserva para ele, pois suas aparições nos deram momentos interessantes — a discussão com Winston nesse episódio foi um deles.

Além de bem atuado e com uma fotografia inspirada, The Crown também é bem escrita e não se permite apoiar-se somente em seu visual. Conforme avança para seu desfecho, a série se distancia dos momentos novelescos que quase comprometeram o seu começo. Há momentos que quase fazem parte do grupo, mas que não podem ser classificados assim: é só a série brincando com o drama da forma como brinca com realidade e ficção.
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Ps: Na primeira reunião de Elizabeth com o Winston, ele disse que não se sentava e que isso era uma perda de tempo. Ela se sentou mesmo assim. Nas reuniões seguintes, ele, cada vez mais cansado, sentou-se. Nessa última, ambos estão sentados e tomando chá, o que demonstra não só a passagem do tempo, mas a intimidade criada entre ambos.






















