Nossa única certeza.
Eventualmente, todos nós morreremos. Ano após ano as pessoas que conhecemos em nossa curta estadia nesse planeta Terra irão partir. Uma por uma. Amigos, parentes, celebridades que cultuamos e até animais de estimação. Algumas mortes serão esperadas, outras virão sem aviso algum e nos deixarão desolados. Em algum ponto de linha do tempo chegará nossa vez. Depois disso os que sobrarem também serão ceifados lentamente, pois a morte não tem pressa, e chegará o dia em que todos os nossos amigos, parentes, celebridades que cultuamos e animais de estimação estarão mortos. Não restará uma única pessoa viva nesse planeta capaz de se lembrar de nossa existência.
“Mas isso irá demorar muito tempo!”, podem dizer alguns. Sim, irá. Eu tenho apenas 19 anos, mas nesse momento quase me confundi e escrevi que tinha 18. Meu aniversário foi a poucos dias atrás, e agora encaro a frase que escrevi, essa que contém uma idade que nunca foi minha, e percebo que finalmente ela se aplica a mim. Daqui a um ano não se aplicará mais. Será que vai demorar muito tempo mesmo? Quando minha avó materna, a única que ainda tenho, partirá desse mundo? Acho que não precisarei esperar muito. Provavelmente meu pai com quem nunca tive contato em minha vida será o próximo. Então virá minha mãe, minhas tias, meus primos, meus amigos e finalmente eu. Mas, obviamente, estou apenas supondo a ordem dos eventos. Em sua eterna crueldade o universo nos nega até mesmo essa informação.
Estou controlando as lágrimas ao escrever esse texto. Tudo o que disse acima é verdadeiro, comprovadamente verdadeiro. Todos sabemos disso e ainda sim evitamos encarar essas simples verdades universais pois é muito doloroso. O ser humano tenta racionalizar esses fatos, depois faz com eles exatamente o contrário e cria explicações sobrenaturais. Algumas delas são divinas, outras supostamente apoiadas na ciência. Não faz muita diferença. Já estive nesses dois lados da moeda e posso dizer que não importa o quão fiel e diligente você seja seguindo sua religião o momento de dúvida sempre virá. Como não viria? Em essência, não sabemos, não temos a mínima ideia. O maior mistério da humanidade só é descoberto por aqueles que não estão mais entre nós. Alguns fiéis professam a certeza de que tudo ocorrerá de acordo com o que eles crêem, mas não duvide, o medo e a incerteza a todos alcançam.
Já outras pessoas abraçam essa ambiguidade e tentam produzir algo com isso. Eles aceitam todas essas dúvidas e convivem permanentemente com elas para criar arte. É um tipo de arte difícil, tenebrosa e depressiva. É uma arte que lida com a passagem do tempo, algo pouco palpável e dificilmente aplicável em qualquer meio de comunicação. É uma arte que nos perseguirá pelo resto de nossas vidas até que chegue a nossa vez de descobrir qual é o grande mistério. É uma arte poderosa mas acima de tudo corajosa. Uma hora escrevendo esse texto e já me sinto aflito, mergulhado em um buraco que por algum motivo eu mesmo criei. Por que estou falando sobre isso? Dói tanto…
Durante 12 anos o diretor Richard Linklater gravou um milagre cinematográfico chamado Boyhood, um filme tão fiel em sua retratação de nossa curta estadia nessa Terra que gerou muitas opiniões contrárias à genialidade que todos os críticos atribuíram à obra. Não possui um clímax, um final dramático, uma catarse momentânea capaz de elevar nossos espíritos. Acompanhamos durante 3 horas uma coleção de momentos ordinários na vida de uma família ordinária e ficamos insatisfeitos com o resultado. É só isso?
Sim, infelizmente é. Boyhood é insatisfatório (para alguns, pois para mim é o melhor filme já produzido na história desse planeta) pois a vida é insatisfatória. Os momentos passam em velocidade cada vez maior, o calendário adiciona mais um ano em sua eterna conta em direção ao futuro e daqui a pouco estamos em 2016, 2017, 2025, 2040, 2134… Em nenhum momento a coisa parece ter algum sentido. Não há uma divisão de atos. Um clímax final que nos deixa ansiosos e pregados à poltrona do cinema. Um monólogo revelador e emocionante. A reação negativa que o filme recebeu só prova sua genialidade: em resumo, tudo aqui nessa Terra é insatisfatório e vazio de significado. Por que o filme dedicado a retratar essa experiência da forma mais realista possível também não seria?
Boyhood foi a primeira obra que lidou com a passagem do tempo, a vida e a morte com a qual eu tive contato. Entretanto, esse filme é essencialmente sobre a vida. A segunda obra fala sobre a morte. Durante cinco anos de sua vida Alan Ball junto de uma equipe iluminada abraçou o assunto, acariciou-o e tomou-o para si. Cinco anos imersos em morte. Surge Six Feet Under.
Após assistir ao series finale mais emocionante e cruel com o qual tive contato em minha vida de sériemaníaco todos esses pensamentos depressivos e ainda mais cruéis que canalisei através dos parágrafos acima se ofuscam diante da perplexidade: Ball encarou o assunto de frente durante cinco anos e nós espectadores mal temos estômago para seis minutos de luto, morte e passagem do tempo. Ainda não consigo me lembrar de um momento específico daquela sequência hipnotizante sem engasgar em lágrimas. Enquanto Boyhood usou o crescimento real de uma criança para ilustrar a marcha inescapável do tempo Six Feet Under aplicou diferentes níveis de maquiagem em seus atores e simulou a mesma marcha por meio das icônicas notas de falecimento. Entretanto, em nenhum momento a experiência é menos real. O destino dos Fisher é o destino de todos nós, e posso dizer isso com absoluta certeza.
Como então racionalizar essa tristeza tão profunda relacionada à morte que sempre acompanhará a vida? Durante o decorrer da série vimos inúmeros momentos nos quais os personagens lidaram com a morte: superstição, negação, fé, álcool, drogas, suicídio, raiva… Olhem ao seu redor e vocês verão pessoas lidando com a morte. Abençoadas são as crianças que não possuem o entendimento desse conceito, e talvez seja por isso que Maya Fisher sempre apareça na série sorrindo, alegremente inconsciente de sua própria mortalidade.
Felizmente Six Feet Under não nos deixa apenas com tristeza e solidão. A morte existe para tornar a vida importante e Claire, Nate, David, Ruth e Brenda também viveram durante todos os anos da série. No penúltimo episódio da série Nate nos convoca a ignorar o que ele chama de estática: um zumbido indefinido, uma interferência permanente que simplesmente nos impede de viver. Nossos rostos se acumularão de rugas, ficaremos fracos, cansados, burros, cegos e surdos. Não seremos capazes de cuidar de nós mesmos. Sepultaremos muitas pessoas e também seremos sepultados. Seremos esquecidos e o mundo continuará a girar sem a nossa presença. Talvez descobriremos algum dia a razão de tudo isso.
Não é dessa estática que Nate está falando, entretanto. Vivemos em constante inconsciência da nossa vida. Os momentos passam e não podemos fotografá-los como Claire tentou fazer antes de partir em sua jornada para o futuro. Reclamamos, esperneamos, choramos e nos decepcionamos com os acontecimentos de nossa existência. É por isso que a presença de Nathaniel Fisher é tão importante: ele é o contraste necessário para empurrar os personagens para frente, a morte que torna a vida tão importante. O que é um pouco de dor diante das infinitas possibilidades que a vida nos apresenta? Porque nos prendemos a pedaços insignificantes de nossa jornada se podemos mudá-los, eliminá-los ou afastá-los? Estamos VIVOS. Mas talvez não seja tão simples assim…
E se for?






















