Devemos ser gratos por qualquer mudança que a vida possa nos trazer, porque chegará um dia onde não haverá mais mudanças”

Eu estava lá quando Mary Alice, após um dia comum, pegou seu revólver, mirou em direção a sua cabeça, e puxou o gatilho. Era a largada para a jornada mais desesperadora que eu encontraria enquanto telespectador. A inversão escorria pela tela, feito o sangue da dona de casa, que por um instante eu pensei estar sendo lambido pela curiosa e grande culpada Martha Huber.

Meu encontro com Mary Alice se dava justamente no momento de sua morte. Eu já a conheci morta. Mas foi a partir de seu falecimento que passei a entende-la quando ainda viva. Com sua doce voz, ela me apresentou a cada uma de suas quatro amigas, também donas de casa, me introduzindo naquele misterioso universo que já não era mais seu. Um anjo. O suicídio era abrandado pelo fato dela não estar queimando no inferno, mas apenas contando uma história calmamente, me convidando a compreende-la, já que tudo a respeito de sua morte soava incompreensível.

Eu estava diante de um espírito, mas também diante de quatro mulheres de carne. Susan Mayer, Lynette Scavo, Bree Van de Kamp e Gabrielle Solis. Cada uma com sua peculiaridade. Mas confesso que me apaixonei por Susan, e fui fiel a ela até o fim. Seu jeito atrapalhado me conquistou e mesmo depois de tantos erros, tudo o que conseguia sentir por ela era aquele primeiro amor, que era materializado em seu péssimo macarrão, no incêndio na casa de Edie, e em seu corpo nu, coberto apenas pelas folhas de seu jardim.

Mas nem por isso deixei de amar Lynette. Ela era a dona de casa mais dona de casa de todas. E isso inicialmente me fez questionar o que havia de especial naquela mulher. Com o tempo passei a entender e enxergar a força que existia na loira que enfrentou a louca do supermercado, e depois lutou contra um câncer, até que resolveu tocar uma pizzaria ao lado do marido.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que conheci Bree Van de Kamp. Organizada, sistemática, determinada. Fraca por dentro, alcoólatra, azarada. Eu conseguia sentir a dor de Bree ao ver que o universo não era regido por suas regras, por mais que ela tentasse. Ninguém em sua família era digno do amor que ela tinha para dar. Nem seu marido, nem seus filhos. Mas nada que não pudesse ser disfarçado com uma bela refeição no final do dia.

Gabrielle Solis, tão jovem… tanto para aprender. Talvez por isso tenha sido tão difícil ver sua transformação, mas ao mesmo tempo tão fácil de enxerga-la. Passou a ser uma incrível mulher diante dos meus olhos, deixando para trás seu egocentrismo, mas jamais sua vaidade, que sempre me provocava gargalhadas. Num morde e assopra sem fim, ela me conquistou junto a sua história de amor com Carlos.

Me desesperei com o apagão, e com o furacão. Com o tiro no supermercado eu estava sofrendo, numa contraditória crise de riso. Teve incêndio, explosão, e até mesmo queda de avião em pleno natal. Senti cada morte, até mesmo a do faz-tudo da rua. A cada mistério, eu me atentava as pistas. Cada novo personagem me trazia incerteza e desconfiança. Enquanto isso eu estava rindo e chorando, ou talvez chorando e rindo. A verdade é que eu me sentia parte daquela história, amigo daquelas mulheres, partilhava do mesmo desespero.

Por oito anos Mary Alice me permitiu acompanha-las. E respeitando a narrativa que ela havia me convidado a ouvir, notou que já não existiam motivos para prolonga-la. Sei que no fundo ela sabia da minha tristeza, pois sou péssimo quando se trata da “hora do adeus”, e que sentiu o desespero do meu coração ao descobrir que aquela seria a última rodada de poker que jogaria ao lado delas. Creio que contar aquele “conto de fadas” recheado de humor negro era uma maneira de Mary Alice seguir em frente, e por isso nunca me esquecerei das suas últimas palavras: Até mesmo a vida mais desesperada, pode ser maravilhosa.

Faz mais de dois anos que elas se foram, e apesar da saudade só me resta dizer: Obrigado Desperate Housewives. Wisteria Lane será minha eterna ilha.

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