O tanto de referências no título não é à toa. Uma série que pega a intensidade e o drama de Peaky Blinders, a violência e briga de gangues em Gangues de Nova York, a temática western de Hell on Wheels e ainda coloca lutas de kung-fu no meio disso tudo não está para brincadeira. E imaginar que tudo isso foi escrito há 35 anos por Bruce Lee…. Esse cara realmente era um vanguardista. E se tudo isso não bastasse, a série ainda tem a vibe de Banshee. Que não é à toa. Jonathan Tropper, produtor-executivo de Banshee, foi o cara que trouxe à luz Warrior, além de ser o showrunner da série. Warrior ainda é produzida pelo canal Cinemax que fez Strike Back e The Knick, então ótima ação e ótima produção de época estão garantidos.

Warrior pega dois gêneros do audiovisual (faroeste e arte-marcial), junta com fatos reais (Guerra Tong, algo inédito neste tipo de produção) e faz algo totalmente novo e inventivo; sem filosofia e “pequeno gafanhoto” de Kung-Fu do David Carradine e sem a fantasia de Era uma vez na China e na América. O escopo da série é bem simples: O ano é 1878 e Ah Sahm é um prodígio das artes-marciais que viaja da China para São Francisco a procura de uma pessoa. Chegando lá ele arranja problema com policiais irlandeses e já sai da doca recrutado por um… “Olheiro” chinês que o leva para uma das Tong de Chinatown. Tong em cantonês quer dizer associação ou clube. Claro que esse isso é só o início da trama, porque além de ele entrar onde ele não queria ele ainda tem que lutar contra o grupo rival da Tong que ele serve.

A série tem outros vários personagens interessantes, como o policial irlandês calejado que tem que patrulhar Chinatown, temos o parceiro ingênuo dele que na verdade se mostra mais do que os olhos veem, tem também o líder dos trabalhadores irlandeses, temos o núcleo político com o prefeito de São Francisco, sua esposa forçada a se casar com ele para ajudar o pai e o “relações públicas” do prefeito que tem seus próprios objetivos obscuros em mente. Temos também o núcleo dos chineses: a cortesã mais famosa de Chinatown, que acaba sendo um refúgio para Ah Sahm, o filho do Father Jun que acaba se tornando amigo de Ah Sahm, tem a líder e o tenente de uma Tong rival da qual Ah Sahm entrou e temos o “olheiro” que na verdade é amigo de todos até da polícia de São Francisco.

Warrior é vista através dos olhos de dois protagonistas que tem seus arcos mais bem trabalhados. O primeiro é Ah Sahm e o segundo é o policial Bill O’hara, o irlandês calejado que tem que patrulhar Chinatown. Mas o bom da série é que a história existe sem os dois protagonistas. Mesmo que eles não estivessem lá, todos problemas ainda existiriam, as duas Tongs mais poderosas de Chinatown ainda entrariam em guerra por causa de território e ópio, os policiais ainda teriam que lidar com a violência das brigas entre os chineses, os irlandeses teriam que lidar com o desemprego e os políticos…. Bem, continuariam fazendo as falcatruas deles que são as mesmas em qualquer parte do mundo. Young Jun, filho de Father Jun, por exemplo, ele é um chinês que nasceu em São Francisco e nunca foi para a China e mesmo assim ainda se sentiria pertencente a lugar nenhum. Chinatown vive. O sexto episódio mostra isso quando vemos a comemoração do ano novo chinês. É um espetáculo à parte de produção, edição e montagem.

Warriror

A produção da série nem se fala. Temos a Tong Hop Wei que usa terno preto com detalhes vermelhos, temos também os Long Zii que usam roupas mais tradicionais chinesas da cor da pedra de jade e com corte de cabelo de monge e temos os Fung Hai que usam uma vestimenta azul e tem parte do rosto tatuado com ideogramas e acham que são descendentes de Genghis Khan. Mas o destaque fica mesmo com as personagens de Olivia Cheng e Diane Doan. As roupas que elas usam são incríveis. Embora o figurino da personagem da Diane Doan seja condizente com a época e muito oriental, as roupas da Olivia Cheng são ousadas para a época. Decote em V, mostrando os ombros, as costas; peças transparentes, tudo mostrando o quão vanguardista ela é.

A fotografia da série é outro ponto muito bom. À noite quando as cenas são externas, o ambiente parece ser iluminado pela lua e quando internas, as salas, salões e quartos parecem ser realmente iluminados pelas lamparinas e lampiões que tem no local. É um ótimo trabalho de iluminação. E a cidade nem se fala. Ótimo trabalho de set. Embora a história se passe em São Francisco, Warrior foi filmada na Cidade do Cabo na África do Sul, então tudo teve que ser construído. Uma mini-cidade foi realmente erguida com becos, vielas, estradas. O trabalho também de adaptar uma história baseada em fatos foi muito bom. Toda a tensão entre os chineses, a própria Guerra Tong, a política da época, o desemprego dos irlandeses que perdiam o trabalho porque com o salário de um irlandês podia-se pagar três chineses, a condição que os chineses trabalhadores viviam. É tudo muito bem feito e adaptado.

Warriror

Agora vamos falar da parte do kung-fu. As cenas de luta são brutais, práticas e táticas. Se você é fã de Into the Badlands e for assistir Warrior pensando que as lutas são iguais, prepare-se. Não são. O gênero dos filmes de kung-fu são três. Wuxia, Wushu e Kung-Fu Jungle. O estilo Wuxia é um estilo mais fantasioso que nem vemos em O Tigre e o Dragão, e Herói com Jet Li. O estilo Wushu é um estilo de ação mais urbano que nem os filmes do próprio Bruce Lee ou como em O Grande Mestre com Donnie Yen. E o estilo Kung-Fu Jungle é o estilo de ação mais frenético; a coreografia é veloz, a câmera tem mais movimento e a cena tem mais edição que nem Comando Final e Kung-Fu Killer, ambos com Donnie Yen. Warrior com certeza não é wuxia que nem Into the Badlands. As lutas aqui são bem mais urbanas e bem mais verossímeis com socos, chutes, machadinhas e porretes; em Into the Badlands as lutas eram mais com espadas do que qualquer outra coisa. Em Warrior as lutas são mais torção e alavanca; o cara te ataca, você deixa o golpe passar e depois lhe aplica uma chave ou tira a arma do bandido e usa contra ele. E as cenas só melhoram com o passar dos episódios. No quinto episódio, uma ode aos filmes de faroeste do John Ford, Sergio Leone e Clint Eastwood, temos uma briga em um bar com direito a tiroteio. No nono episódio temos uma competição mano-a-mano que não é pra ninguém botar defeito e no décimo episódio temos uma luta de um contra quinze que é o ponto alto da temporada. Detalhe para os personagens Ah Sahm e Yi Long que fazem todos os trejeitos que Bruce Lee fazia em seus filmes.

Warrior é uma série que merece ser vista. Ela faz jus ao legado de Bruce Lee e foi acompanhada de perto por sua filha Shannon Lee que descobriu os roteiros do pai pouco mais de três décadas depois. O mais incrível é o quão avançado os roteiros estavam. Bruce Lee já começava a divulgar a série em programas de entrevista mesmo antes de começar a filmar. A primeira temporada nem acabou de ser exibida a segunda já estava começando produção. O último episódio foi exibido 7 de junho e dia 10 do mesmo mês já tínhamos cenas da segunda temporada. Esse é o nível de popularidade que a série alcançou.

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“Eu não sei que tipo maluco de boxe é esse, mas se todos eles conseguem lutar assim, estamos realmente na merda.”

– Sargento Big Bill O’Hara

REVISÃO GERAL
Nota:
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