Não se pode analisar uma série sem considerar sua proposta. Dito isso, Virgin River é uma série simples e com uma proposta simples, de entretenimento levezinho para quem quer assistir algo para se distrair sem pensar muito. Esse tipo de produção tem seu valor, mas também, depende muito da ligação do público com o roteiro e do carisma das personagens. E é aí que Virgin River se perde.

A série tenta seguir uma fórmula: cidade pequena e charmosa, com uma comunidade unida e seus costumes peculiares; aliados a personagens excêntricos e carismáticos. Essa fórmula já foi responsável por séries de muito sucesso, como Gilmore Girls (2000-2007).

A grande diferença é que Virgin River não sabe se utilizar dessa fórmula. Hart of Dixie, série que foi ao ar pela CW entre 2011 – 2015 e estrelada por Rachel Bilson (a eterna Summer de The O.C), tinha uma premissa muito parecida: uma médica sai da cidade grande e vai para uma cidade do interior para aprender a ser mais humana com seus pacientes. O que deu certo na série da CW, está tendo problemas para funcionar na série da Netflix (mesmo que Tim Matheson, o Doc, esteja praticamente reprisando o papel de Dr. Burke).

Apesar de não ter atingido tanto sucesso, Hart of Dixie cumpriu sua missão de ser uma série leve para entreter de maneira muito bem feita: a cidadezinha tinha seu próprio charme e fazia o telespectador se sentir em casa, contando múltiplos eventos típicos, enquanto víamos Zoe Hart lutar para se encaixar e se apaixonar pela comunidade recheada de personagens carismáticos. É aí que estava a força de Hart of Dixie. E é aí que está a fraqueza de Virgin River.

Ao tentar criar personagens excêntricos, acaba tornando-os apenas insuportáveis. como Hope (interpretada por Annette O’Toole, a eterna Martha Kent de Smallville). E, apesar da locação ser extremamente linda, falta o senso de comunidade entre os personagens, o que distancia os telespectadores do ambiente da cidade.

Ao mesmo tempo que tenta utilizar dessa fórmula, a série também tenta trazer temas e discussões mais atuais para a sua pauta, como a violência contra a mulher, no plot de Paige (Lexa Doig) e Preacher (Colin Lawrence). Com certeza, era o plot que mais prometia para essa temporada, mas que foi muito mal desenvolvido.

Logo no primeiro episódio da temporada, após o reaparecimento do marido abusivo, Paige o mata sem querer. A personagem quer se entregar à polícia mas Preacher a convence a fugir com o filho e não aparece mais na temporada. Ao invés de um plot de luta, no qual os personagens e a cidade poderiam se unir para limpar o nome de Paige e protege-la da violência doméstica, vimos um plot twist desnecessário e mal feito, apenas com o intuito de chocar o público.

A segunda temporada de Virgin River peca, principalmente, por causa de seu roteiro. A temporada consiste em 10 episódios, sendo que andamos em círculos por pelo menos sete deles, com apenas os três últimos realmente desenvolvendo algo a mais para a trama.

E o pior não é nem esse andar em círculos, mas sim, que os círculos feitos pelo roteiro eram, para dizer o mínimo, ruins. Os plots não desenvolviam nenhum personagem, nem mesmo os protagonistas – Mel, interpretada por Alexandra Breckenridge e Jack, interpretado por Martin Henderson.

O plot de Charmaine (Lauren Hammersley) como a grávida amargurada, só tornou a personagem insuportável. O comportamento dela era digno de algo que poderíamos ver em séries teens, ao se colocar em pé de guerra com Mel – mas que não caiu nem um pouco bem para uma mulher já adulta – e ainda ao não abrir espaço para diálogo com Jack, o pai de seus filhos, querendo tirar os direitos do pai só porque ele não quer estar em um relacionamento com ela.

Ainda, vamos falar de do caso específico de Jack. Nós já sabíamos, desde a temporada passada, que ele tem Transtorno Pós Traumático devido a guerra e que se recusa a se tratar. Nessa temporada, isso retorna sem nenhuma resolução e nenhum avanço, com Jack estacionado no mesmo lugar e de brinde, ainda ganhamos Jack travando uma guerra de um homem só contra a gangue da cidade vizinha. Tudo isso tornou o personagem, antes charmoso e simpático, em alguém amargurado e que ninguém aguenta mais – só Mel.

Falando em Mel, vemos a personagem principal ficar à deriva de plots de outras personagens, e pior, à deriva de Jack. Sua relação com o falecido marido não é mais muito mostrada e temos pouco desenvolvimento pessoal da personagem, ainda que no final da temporada ela se considere pronta para ingressar em um relacionamento com Jack.

Já em relação aos personagens secundários, tivemos a adição de Lizzie (Sarah Dugdale), sobrinha de Connie (Nicola Cavendish) que, realmente, não adicionou muita coisa. Com Hope, a série tenta transformá-la em uma personagem excêntrica mas querida por todos, mas o roteiro falha com ela e assim, só se torna uma personagem chata.

Em suma, essa temporada deixou seus personagens à deriva de outros, com plots meia boca e mal desenvolvidos, tornando os próprios personagens sem desenvolvimento. Virgin River falha em criar uma comunidade unida e excêntrica, como vimos anteriormente em Gilmore Girls e Hart of Dixie.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-virgin-river-da-netflix-continua-leve-e-gostosa-na-sua-2a-temporada-mas-se-perde-no-roteiroA segunda temporada de Virgin River peca, principalmente, por causa de seu roteiro. A temporada consiste em 10 episódios, sendo que andamos em círculos por pelo menos sete deles, com apenas os três últimos realmente desenvolvendo algo a mais para a trama.