Em dado momento da ação final do último episódio de The Outsider, Holly Gibney pergunta para a criatura que vem procurando há meses algo que todos nós estamos querendo saber: Porque crianças? A criatura responde com uma obviedade kingniana: Por que elas são mais docinhas. E é isso, devemos nos dar por satisfeitos. Claro que depois de 10 episódios de expectativas, não era exatamente um diálogo pouco informativo que esperávamos como encerramento de uma trama tão bem construída. Mas, de súbito, vem o dado mais importante de todos, e que, de certa forma, redime o encerramento de The Outsider: estamos falando de Stephen King e se final não tiver um gosto duvidoso, é como se nem fosse ele.

Adaptar obras do autor não é uma tarefa nada fácil. Geralmente o erro mais comum que pode ser cometido entre aqueles que se dispõem a tal tarefa é a expansão desvairada de um universo que já é saturado de informações. O melhor, no caso de King, é sempre editá-lo. Recentemente, por exemplo, a adaptação de IT deixou de fora vários exageros que em nada contribuíam para o desenvolvimento da trama. Já Doutor Sono foi em outra direção: manteve quase tudo, mas tentou conduzir a história com uma unidade visual que nos impedisse de estranhar certos elementos fantásticos.

The Outsider é um livro bastante sóbrio, o que, em se tratando de King é sempre uma surpresa. No primeiro parágrafo desse texto estou lá caçoando do final, é claro. Mas, aprendemos enquanto leitores do homem, que o final é um pedaço da experiência que não invalida o processo. É aquela história das jornadas… Porém, mesmo caçoando um pouco do que vimos nos últimos momentos da temporada, não posso deixar de reconhecer que para os padrões do autor, o final da série também foi muito bem controlado pelos envolvidos. O final do livro, com doses cavalares de um horror que não necessariamente se imprime no restante da narrativa, poderia ter ido inteiro para o episódio e o estrago teria sido bem maior.

Dito isso, fazia todo sentido que as mãos que pegaram a tarefa tivessem sido de Richard Price. Ele também escreve livros, mas veio parar em The Outsider porque já tinha, lá em 2016, escrito uma minissérie chamada The Night Of. A experiência não foi exatamente totalmente positiva para mim, mas o que vale é a evidência de que seu nome foi pensado porque em ambas as séries estamos falando de um homem que foi acusado de um crime que ele jura que não cometeu, mesmo que todas as evidências apontem para o sujeito. A diferença maior é que em The Outsider não demora nada para que saibamos o mistério que está por trás de tudo.

Cuidado com a Cuca que a Cuca te pega 

O pobre Terry Maitland (vivido por Jason Bateman, que também dirigiu os dois primeiros episódios) era só um homem vivendo seu sonho americano, acompanhado da mulher Glory (não entenderemos jamais porque mudaram o nome dela, que no livro se chama Marcy) e de suas duas filhas. Um dia ele é preso no meio de toda a cidade, no meio de um jogo, pelo assassinato de um menino. Há digitais, testemunhas, DNA; o detetive Ralph Anderson o mandaria para o corredor da morte dali mesmo, mas Terry parece muito seguro e logo descobrimos que ele tem uma prova de que jamais poderia ter matado o menino: ele estava em outra cidade e há um vídeo que prova isso. Então, como duas pessoas poderiam estar ao mesmo tempo, no mesmo lugar?

A dinâmica de investigações começa, com Holly Gibney (vivida pela indicada ao Oscar Cynthia Erivo) saindo lá das páginas da trilogia de Bill Hodges para ilustrar a nova paixão de King por histórias policiais. No livro, Holly só aparece já perto do final, mas como o material original é muito sucinto, Richard Price precisou tomar certas liberdades entre os episódios 6 e 9, que não atrapalham o resultado final. Holly exerce o papel de crédula e vai conduzindo aquele monte de americanos de meia idade, tacanhos, por um caminho de compreensão acerca de mais do que seus olhos cansados podem ver.

E o que eles não podem ver é o Cuco. A lenda portuguesa se espalhou pela América Latina e chegou até mesmo aqui no Brasil, onde virou a Cuca, uma criatura em forma de jacaré que devorava crianças desobedientes. Até hoje pais imprudentes ameaçam recém-nascidos com uma canção de ninar que anuncia a chegada da coisa. No México, o Cuco é mais parecido com o que King descreve no livro, uma criatura que sequestra e come crianças e que surge com uma abóbora ou uma cabaça cheias de luz no lugar da cabeça. Passando isso pelo filtro de King, essa cabeça surreal virou uma capacidade de metamorfose e o Cuco adquiriu a capacidade de se transformar em qualquer pessoa.

Esse é um argumento que poderia resultar em muita bagunça, mas os envolvidos na adaptação, mesmo precisando esticar a história no meio da temporada, não sujaram a dramaturgia com desdobramentos que privilegiassem o sobrenatural. Exploraram Holly e Jack Hoskins, os elementos mais passíveis disso realmente. Aquela paleta visual fria e um pouco arrastada (típica de The Night Of) ainda está lá e o elenco se esmera. Infelizmente, Ben Mendelsohn, que vive Ralph não segura o carisma do personagem no livro e o caso mais grave é o de Jennie, sua esposa, que acabou indo parar com Mare Winningham e sumiu. Cynthia captou bem as peculiaridades de Holly, mas jamais entenderei por Julianne Nicholson, que faz a mulher de Terry, continua sendo escalada para coisas.  Não existe em Hollywood  ninguém menos carismático que ela (ou talvez esse seja apenas eu não conseguindo superar o que ela fez com Ally McBeal).

Ben Mendelsohn e Cynthia Erivo em The Outsider

Enfim, se uma segunda temporada vem aí, ainda há tempo de nos dar mais detalhes sobre o Cuco, sobretudo porque a série não fica mais presa ao original. O livro foi totalmente explorado. Acredito que o caminho da paranoia seja o melhor. Se há uma ideia assustadora em torno de The Outsider é a de que monstros podem estar entre nós, como nossos duplos, andando por aí atrás de inocências devoráveis, prontos para digerir nossas dores como se fossem pílulas.

Atenção: para os curiosos, vou comentar aqui embaixo as diferenças entre o final do livro e o final da série. Se não quiser saber, fuja para as colinas. 

Entre os episódios 6 e 9 muita coisa acontece e que não está no livro. Não existe o irmão de Claude e muito menos Claude tentando capturar outra criança. Claude, de fato, só ganha atenção no final da história e ele nunca chega a ir junto com o grupo para a caverna. Holly também só aparece perto do final e não existe nada daquela storyline de sua captura. Basicamente, quando ela retorna da investigação e conta tudo aos outros, já pulamos para a ida até Claude e dali para a caverna. É tudo bem sucinto. 

O último episódio da série é bastante fiel ao final do livro, com exceção de poucos detalhes. No livro, Holly não tem um namorado, portanto, a morte de Andy foi um bônus. Howie e Pelley morrem ao mesmo tempo, com tiros disparados por Jack; e não um depois do outro. Jack, inclusive é picado pela cobra muitas vezes. Ela se enrosca na perna dele, na verdade e vai picando até em cima. Depois que ele é morto e Holly e Ralph entram na caverna, o diálogo com a cópia de Claude é quase o mesmo. Porém, ele não é morto a tiros. É Holly quem na verdade aproveita-se de um descuido dele e o atinge na cabeça com uma cassetete feito de meias. Ao ser atingida, a cabeça de Claude afunda como se fosse oca e várias minhocas começam a sair pelos buracos. Ele se liquefaz e as minhocas vão morrendo. Algumas grudam no cassetete e é por causa disso que depois Ralph e Holly ficam paranoicos, achando que talvez uma possa ter “entrado neles”. A série substituiu isso pela marca na nuca, que também existe no livro.

Bom, é isso gente. Se houver segundo ano, nos vemos aqui.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-the-outsider-hbo-acerta-em-cheio-ao-adaptar-um-dos-livros-mais-equilibrados-da-obra-de-stephen-kingOs criadores de The Night Of acertam em cheio ao adaptarem um dos livros mais equilibrados da obra de Stephen King.