Desde a primeira temporada, o grande triunfo de Master Of None consiste na lapidação impecável dos personagens. Mesmo que houvesse um protagonista claro, no caso, o jovem adulto descendente de indianos, Dev Shah (Aziz Ansari), os sujeitos que flutuavam ao redor dele também mantinham características que os faziam genuínos e dignos de interesse. Todos os personagens que rodeavam Dev – pais, amigos, namoradas -, eram tridimensionais e, não apenas, figuras para estabelecer o universo do protagonista. O que falar, por exemplo, de Rachel (Noël Wells), namorada de Dev que passa a morar com ele ao longo dos episódios. A personalidade delicada e espevitada da garota é tão bem construída que seria possível imaginá-la como protagonista de um seriado próprio.

Aziz Ansari, que além de protagonista é o criador da série, percebeu essa condição e ofereceu mais espaço para os coadjuvantes na segunda temporada. Os dois primeiros episódios se passam na Itália e não em Nova Iorque, tão amada por Dev. Ali, ele conhece Francesca (Alessandra Mastronardi) que irá se tornar seu interesse amoroso e uma espécie de co-protagonista. Além de episódios em que há o protagonismo de outros personagens como Arnold (Eric Wareheim), ou episódios em que a intenção é percorrer Nova Iorque a fim de radiografar a fauna urbana, fazendo dos personagens recorrentes da série indivíduos tão comuns como quaisquer outros. No fim das contas, é como se houvesse diversos Master of None nas esquinas da grande metrópole americana.

O desejo de captar as entranhas de uma megalópole, a partir das pessoas que lá vivem, ganha contornos inéditos na terceira temporada de Master of None. Aziz Ansari colocou em prática uma ideia mais radical e retirou o protagonismo de Dev, colocando Denise (Lena Whaite) em seu lugar, uma personagem que rondava o protagonista nas temporadas anteriores e que teve parte de sua história apresentada em um episódio da segunda temporada. Desde o princípio, limitar a participação de Dev é uma modificação aguda. Isso é reforçado, por conta do final da segunda temporada e da resolução do relacionamento entre o rapaz e Francesca que não fica completamente esclarecido. Seria, ao menos, interessante desdobrar os acontecimentos anteriores que ficaram um tanto abertos e sem respostas claras para os espectadores.

Logo no primeiro episódio da terceira temporada, fica claro o destino de Dev e de Francesca. No entanto, tal esclarecimento sobre o casal se dá, a partir de uma conversa dele com Denise que, naquela altura, já tinha assumido o protagonismo do episódio (e da temporada). Escritora, negra e homossexual, a personagem ganha destaque na série criada por Aziz Ansari como protagonista em um contexto social em que atitudes como esta são cada vez mais demandadas por uma grande parcela do público, porém, poucas vezes concedidas de forma tão generosa. Isso se acentua ainda mais devido ao fato de a atriz Lena Whaite, escrever os episódios junto com Aziz Ansari.

De qualquer forma, a substituição de protagonismo faz muito sentido no contexto da série, pois, como já foi dito, Master Of None buscou ao longo de seus episódios, construir personagens ricos que desvendam o que é ser um jovem adulto no século XXI. Através dos cinco episódios que compõem a nova temporada, encontramos uma profundidade na rotina como nunca antes tinha acontecido. Denise, agora, é uma escritora de sucesso que vive em uma grande casa fora da cidade com a namorada Alicia (Naomi Ackie). A relação das duas é o núcleo duro que movimenta os episódios.

No entanto, personagens periféricos continuam importantes. É o caso de Reshmi (Aysha Kala) que vai em um jantar com amigos, porém, tem um momento de tensão com Dev, seu namorado. Após a discussão, ela vai ao banheiro e é consolada por Alicia ali mesmo. Durante a conversa, Reshmi fala de “recomeços”, assunto proeminente das temporadas anteriores e que marca todos os personagens.

Naquele pequeno instante, em um diálogo entrecortado pelo nervosismo, a moça indica a natureza da obra – a busca por novos caminhos quando os períodos da vida não parecem mais oferecer satisfação. Não que a intenção da moça seja fazer uma reflexão de tal magnitude naquele momento, contudo, ela expõe pensamentos que permeiam os seus dias. Mesmo que não seja uma ponderação constante, ela confessa ali, tensionada pelo desconforto da situação.

No fim das contas, o que sempre atravessou Master of None foi o desejo de ser feliz, mesmo que os personagens não saibam direito que rumo tomar para alcançar o sentimento de plenitude. Contudo, não é para tentar agarrar a felicidade que Rachel vai para o Japão e Dev para a Itália na primeira temporada? Ou não é pelo mesmo motivo que Dev idealiza a vida dele com Francesca em Nova Iorque na segunda temporada?

Certamente, o contexto de um relacionamento amoroso é muito importante para as tramas que envolvem o seriado e, nesta temporada, Denise e Alicia ambicionam uma gravidez. O vínculo do casal se estabeleceria com a formação de uma família e um passo adiante na vida adulta seria dado por elas. Entretanto, nada é tão simples como poderia, e o que seria o símbolo da união, também pode ser a desestruturação de um relacionamento.

Denise e Alicia vivem nesse contexto de brigas e carinhos, tensão e calmaria. Instantes que cada uma tem consigo, mas que partilham entre si, como é natural em uma vida conjugal. Dessa maneira, não haveria melhor título para os episódios desta temporada do que “Momentos” – cada episódio é acrescido de um subtítulo indicando partes de um a cinco. A escolha de Aziz Ansari é tão inteligente como óbvia. Afinal, tudo na vida são momentos, desde os mais intensos até os mais calmos.

Da mesma maneira, a opção estética de Ansari de abusar da câmera fixa, faz muito sentido nessa perspectiva. Ao longo dos cinco episódios, quase não há movimentos de câmera, tampouco cortes nas sequências. Como se a câmera ocupasse um espaço vazio e se tornasse parte da mobília da casa. Ela apenas registra os acontecidos – os momentos -, porém não se infiltra no espaço, não julga os personagens, não se aproxima ou se distancia no decorrer das situações. Apenas dá a ver a vida. Se em Master Of None a rotina dos personagens sempre foi importante para a estrutura dramática da série, essa proposta ganha uma dimensão ainda maior na terceira temporada.

A opção estética de fixar a câmera durante as cenas e de não manipular os planos, ganha maior dimensão ao fim da temporada. No término do último episódio, a imagem é atacada de forma agressiva e operada na sala de edição para se autodestruir. A relação com o final do filme Corrida Sem Fim (Monte Hellman, 1971), é imediata. Entretanto, há duas diferenças básicas. A primeira está ligada ao material físico. No filme de Hellman, é uma película que pega fogo, vagarosamente, como se fosse a única forma de acabar com a corrida de carros daqueles jovens dos Estados Unidos do início da década de 1970, encharcados pela contracultura que abundava no país àquela altura. Já em Master Of None, é a imagem digital que se corrompe e, dá a ver, a sua forma inicial: uma quantidade de pixels que não oferecem uma imagem, definida apenas um borrado clarão.

A segunda diferença é de finalidade. Em Corrida Sem Fim chega-se a uma situação limite em que não há forma de interromper as ações dos jovens que cortam os Estados Unidos de carro em uma competição sem sentido, que pode apenas levá-los à morte. Por outro lado, em Master Of None, a interferência na imagem funciona como um chacoalhão nos personagens que não parecem encontrar-se a si mesmos. Se no filme da década de 1970, aqueles jovens rompiam com qualquer dilema ético e, se não tinham uma experiência prazerosa, iam em busca dela, mesmo de forma atabalhoada. Na série da terceira década do século XXI, a inércia se torna o elemento central da vivência das pessoas. Assim, se em Corrida Sem Fim, a intenção é sempre criar um caminho, mesmo que tortuoso, em Master Of None já não há mais essa perspectiva.

Cabe destacar que o diálogo anterior à violência na imagem poderia ser pensado como algo doce, ou mesmo, encantador. Deitadas na cama, Denise e Alicia conversam. O que se inicia com banalidades, torna-se um assunto mais sério. Por fim, decidem não falar mais e encerram o diálogo:

Alicia: – “Tudo está maravilhoso”

Denise: – “É… tudo está maravilhoso”

As frases são proferidas de forma tão indiferente que é difícil imaginar que elas acreditem, de fato, no que dizem. Resta à própria série empenhar-se em fornecer um final diferente às duas, porém, nada nos faz crer que isso realmente acontecerá.

Aziz Ansari realiza uma temporada com maior pretensão de mergulhar em uma geração sem tantas perspectivas. Faz isso com tamanho empenho que, de certa maneira, suas imagens absorvem aqueles personagens. Resta, então, pensar em uma quarta temporada e em como esses jovens adultos irão se comportar com o passar dos anos.

REVISÃO GERAL
Nota:
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