O que é ser especial? O que nos faz seres interessantes?
Special, a nova série da Netflix debate e ensina de forma simples e dinâmica as camadas do ser humano e como nos encaixamos no meio em que vivemos, ninguém nunca é apenas uma coisa, são várias características que juntas formam um só.
Ryan O’Connell escreve uma carta de amor a si mesmo e a sua mãe, uma representação de vida que vai além de sua existência e atinge uma comunidade como um todo.
Ryan tem paralisia cerebral e batalha com um dilema mais íntimo de sua condição, segundo ele, o fato de sua paralisia não ser tão grave e não ser tão evidente traz mais problemas do que se fosse pior, essa discussão, abordada logo no começo da série, é muito bacana pois conseguimos ver como Ryan se vê em relação aos outros, enquanto algumas pessoas poderiam dizer “ah, você deveria agradecer por não ser tão grave”, conseguimos entender de forma mais profunda o que isso realmente significa para o protagonista.
Outro aspecto tratado na série é sobre a comunidade gay para aqueles que estão fora do padrão, o que é uma realidade para qualquer minoria que se encaixe dentro da comunidade, o que muitas vezes é considerado como vitimização, na verdade é apenas uma perspectiva diferente de um mesmo acontecimento.
Análise de perspectiva é algo que perpetua todos os personagens, temos a visão de Ryan, Karen e Kim. Como estes diferentes personagens que têm suas diferentes batalhas lidam com as mesmas, temos uma visão cômica disso também através do trabalho de Kim e Ryan, onde a situação de expor quem você é trazer cada vez mais desafios.
Kim é uma pessoa que é segura de si, ou pelo menos quer que acreditem que é, entretanto todo esse esforço para ser extra é apenas a forma dela compensar não ter as mesmas vivências que outras garotas magras e brancas, sendo uma questão muito debatida por muitas mulheres de cor, talvez pelo formato da série, isso não tenha sido tão aprofundado quanto poderia ser, mas ainda assim nos ofereceu uma ótima perspectiva sobre a personagem.
O criador, roteirista e protagonista da série, Ryan O’Connell disse em suas redes sociais sobre a importância e alegria de poder contar esta história, ainda mais numa plataforma como a Netflix, e que a história na verdade é sobre ele e sua mãe e como ela é corajosa, o que de fato fica evidenciado na série, o episódio com foco em Karen foi o que mais me chamou atenção, o paralelo entre a maneira como ela trata seu filho e como é tratada pela mãe mostra que são sempre as coisas se repetindo, se ela reclama de não passar tempo com Ryan, sua mãe reclama de não passar tempo com a filha.
A enfermeira também se apaixona e isso é abordado de forma muito bacana, como ela deveria se permitir viver e ter algo para si, além de lidar com este conflito de ser mais que apenas uma mãe preocupada, Karen e Ryan são dependentes um do outro e ver esta mudança na vida dos dois é muito difícil de lidar, tanto para a mãe, quanto para o filho.
Existem tantos pontos altos na história de Ryan que refleti muito em quais e como citar cada um deles. Começando por seu dois grandes armários: ter paralisia cerebral e ser gay, onde, para Ryan, o primeiro afeta o segundo, sendo algo social realmente, pois quando você apresenta qualquer diferença daquele tratados como “normais” acaba sendo marginalizado automaticamente e tratado como última opção.

A série também traz uma conversa sobre a imagem na internet e fora dela, quando Ryan era desejado por fotos no Grindr, mas pessoalmente a história foi diferente, já que temos apenas o lado que querem nos mostrar em qualquer rede social, em como querem ser atrativos àqueles que os interessam e isso não é diferente para Ryan.
O episódio onde Olivia marca um encontro para Ryan com seu primo que é surdo e mostra como o protagonista se odeia tanto a ponto de achar que é superior a alguém pelo fato de ter uma condição considerada menos grave e ter alguém tão egocêntrico como Olivia, que utiliza qualquer trauma como oportunidade para receber visualizações foi ao mesmo tempo cômico e trágico, pois se alguém tão sem noção consegue ver isso em você, como você não consegue?
Quando nosso protagonista perde a virgindade também temos uma cena muito fofa, Shay, o garoto de programa, foi extremamente fofo com Ryan e fiquei feliz pela forma como aconteceu, quando eles ficam apenas deitados conversando também foi algo que deixou aquilo mais especial para Ryan.
Toda a história com Carey foi o que menos me chamou atenção, acho que a únicas partes legais eram ver as calças lindas de Carey e como Ryan ficava ao se apaixonar e como o próprio diz “se sentir confortável”, todo o lance de Carey ter um namorado não fez sentido pra mim até por conta do último episódio.
O final foi algo construído desde seu primeiro episódio, temos duas narrativas acontecendo, Karen abdicou sua vida, mesmo que Ryan não tenha pedido para que ela fizesse isso, ela fez pois é sua mãe e o ama, mas ao ter algo só para si e involuntariamente jogar isso fora por conta do filho percebeu que talvez estivesse na hora de viver mais por si e isso nos trouxe aquela forte última cena. A série me lembrou muito outra série do catálogo Netflix, que para quem gostou de Special vai adorar, Please Like Me.
Mas agora, o que nos faz de fato especiais? A série debate sobre sermos tachados como apenas uma coisa e deixar aquilo nos definir, mas na verdade todas essas pequenas coisas que nos definem tão pouco ao serem combinadas acabam revelando de fato quem somos e o que nos faz únicos até, o que pode ser considerado clichê, mas a verdade é que assim como Ryan que está tentando se descobrir, enfrentamos este dilema todos os dias com as pessoas que convivemos.
> GAME OF THRONES: REENCONTROS E REVELAÇÕES (Comentários do episódio 8×01)!
Special é de fato uma série especial (sem trocadilho), não apenas por trazer uma nova abordagem para a história de um personagem LGBTQ+, mas também por mostrar diferentes perspectivas de uma mesma história e diferentes personagens. Com um roteiro certeiro e episódios mais ainda, um fator muito positivo para a série é a duração dos episódios ser curta, pois conseguimos viajar pela narrativa de forma contínua sem que isso canse, mas ao mesmo tempo ser curta não a faz menos completa. Ryan O’Connell conta sua história de forma sincera, divertida e muito eficiente, agora é torcer por uma segunda temporada.





















