Terceira temporada encerra aquela que já é uma das melhores séries de ficção científica da história do mundo seriado.
Cristovão Bastos e Aldir Blanc, dois respeitados compositores brasileiros, compuseram uma melancólica canção chamada Resposta ao Tempo que entre muitos belos versos, em determinado momento, diz o seguinte:
“Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
Argumento
Mas fico sem jeito calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei
Por alguma razão – ou por todas as razões – uma olhada em perspectiva para o enredo de Dark, trouxe à tona essa canção e a maneira inteligente como a letra transforma o tempo numa entidade concreta, que bate à porta dos indivíduos para debochar deles, porque, segundo esse trecho, ele sabe passar e eu não sei. Então, olhamos para trás, lá nos primeiros episódios da série; e de repente tudo acaba sendo sobre não ser capaz de passar, de deixar ir, de aceitar que o que foi pode não voltar e que reverter o fim é uma arrogância que nunca será permitida a nós, meros mortais. Somos reféns do tempo e não há nada que possamos fazer a respeito. É impossível viver o tempo perdido?
Tudo que aconteceu em Dark aconteceu por uma razão muito simples: os personagens não conseguiam aceitar o que passou, não conseguiam aceitar uma perda. Todos somos capazes de nos identificar com isso. Mas, imagine que houvesse uma fagulha, uma ínfima chance de conseguir dar a volta no conceito de finitude. Será mesmo que não faríamos a mesma coisa? Dark é toda sobre o tempo contra-atacando, sobre o tempo reiterando que se tudo não acontecer naturalmente, os efeitos podem ser catastróficos. Um único movimento de revide e ele – o tempo – responde de maneira implacável.
Lá no começo, no dia do suicídio de Michael, ainda não sabíamos, mas o que ele fazia era um sacrifício em nome de uma realidade bastante objetiva: ele não queria privar Jonas da própria existência. Ele não conseguia aceitar a possibilidade de que talvez se o filho não existisse, a vida poderia correr normalmente para um número muito maior de pessoas. E quando sua versão menino desaparece na caverna, Ulrich também não consegue aceitar a perda, assim como Katharina indo atrás dele, assim como Hannah fazendo a mesma coisa e assim como absolutamente todos os personagens. O roteiro de Dark conta com uma motivação humana e irrefutável: somos capazes de tudo para aumentar nosso tempo – olha ele aí – ao lado daqueles que amamos.
Essa junção de emoção, ciência e divindade é uma fazedora de mitos. É, também, uma característica presente nos três grandes títulos de ficção científica que revolucionaram a televisão em suas épocas: The X-Files, Lost e Fringe. Lost e Fringe, principalmente, passearam por esses tópicos com ainda mais inteligência e fizeram de seus finais uma reunião de conclusões sensíveis e coerentes sobre as consequências da manipulação desses códigos. Desafiar o tempo é um pecado que tem castigo. Mas, é também um pecado passível de redenção. Ficamos muito tempo acompanhando o calvário dos personagens e nessa última temporada fomos apresentados ao que poderia ser a solução para o desvio da rota. O que ninguém esperava era que essa solução fosse representar tantos sacrifícios.
Apples and Snakes
Outra coisa em comum que Dark tem com suas primas pioneiras é que sua narrativa era totalmente fragmentada. Dark era isso com esteroides. O espectador precisava ter uma extrema atenção para dar conta de todas as linhas temporais e – principalmente – todas as muitas versões dos mesmos personagens. Contudo, o grande diferencial da série era sua capacidade de fazer essa confusão parecer organizada e, sobretudo, elegante. Pode parecer estranho usar a palavra “organizada” para adjetivar Dark, mas o maior ponto fraco desse último ano é que ao contrário dos outros dois, ele não parece tão bem arrumado como antes. Ainda chegamos exatamente onde precisávamos, só que não com a mesma fluidez.
Minha teoria é de que uma temporada inteira era necessária para apresentar Eva e o Segundo Mundo. É claro que com isso perderíamos a simbologia do 3 no número de temporadas, muito embora a HBO, por exemplo, tenha a mania de dividir temporadas em duas e apresentá-las com hiatos de quase um ano de diferença. Talvez o terceiro ciclo pudesse ter duas partes e a primeira delas inteiramente focada no universo em que Martha era o catalisador de todos os eventos que deformaram o tempo. De certa forma, a necessidade de apresentar Eva ao mesmo tempo em que resolvia lacunas ligadas a Adam, deixou as coisas um pouco bagunçadas, sem a organicidade de antes. Entretanto, ainda com a mesma provocação intelectual de sempre, o que é, para nós, um deleite.
A ideia de brincar com Adão e Eva foi esperta, embora me aborreça um pouquinho a forma como Eva foi criminalizada quase ao status de serpente a partir do momento em que fica claro que é ela quem quer manter o looping do tempo funcionando. Seus motivos são justos (ela quer que o filho exista e viva) e olhando em retrospectiva, é muito inteligente que Adam tenha sido definitivamente descrito como um homem que almeja um mundo em que o tempo não afete a experiência da vida, já que ele, mais que qualquer outro, conhece as mutilações de toda espécie que o enfrentamento temporal pode causar. Se o tempo é algo que pode ser manipulado, será mesmo que ele não pode ser extinto? De fato, na mitologia, o paraíso é um lugar livre da ação da finitude. Adão e Eva só passaram a envelhecer depois que traíram o acordo com Deus de não morder a maçã. O “paraíso” é uma alegoria para uma existência livre e infinita. O vilão em Dark sempre foi ele, o tempo.
A and B equals C
Até que cheguemos ao ponto em que o roteiro vai esclarecendo qual é o grande segredo da série, os criadores Jantse Friese e Baran Bo Odar (que também dirigiu todos os episódios) precisaram resolver pontas soltas, como a origem de Charlote, a razão pela qual Jonas ficou deformado, entre outras. Eram aspectos menores do desenvolvimento do enredo, mas que não deveriam ter rivalizado com tantas outras trilhas. Havia a narrativa das décadas principais (2019-1986-1953), as narrativas situadas um ano depois de cada ano da triquetra, a narrativa dos anos 1800, a narrativa dos anos 20, a narrativa do mundo de Martha, a narrativa de Adam, de Eva e até uma impressionante nova bifurcação que tornava possível ter mais de um resultado dentro de um mesmo universo, desde que acontecesse durante o segundo que precedia o estouro do apocalipse. Era muita coisa para cobrir e com muitas variáveis, o que ficou claro no penúltimo episódio, quando o roteiro ficou indo e voltando loucamente em pequenos pedaços soltos de cada um desses enredos. Foi proposital, é claro. Manipular o tempo pode e deve resultar em algum tipo de caos. Mas, também causou ruídos.

Acima disso tudo estava a força motora central: Adam quer vencer o tempo, Eva quer manter as aberrações que o tempo desafiado produziu e somente uma pessoa está verdadeiramente determinada a corrigir o curso das coisas: Claudia. Apesar dessa pequena bagunça criativa, é com EXTREMO orgulho que vamos vendo o enredo principal seguir para uma direção que é profusamente coerente e que dá aos momentos finais a força dramática e emocional que eles precisam ter. No fim das contas, Jonas e Martha (Adão e Eva) é que precisam lutar para reverter um processo temporal que fará os sacrifícios necessários e os guiará até o fim. Foi preciso ver a dor e o sofrimento serem repetidos incessantemente, em ambos os mundos, para que um dia (após se livrarem da manipulação de suas versões mais velhas) eles tivessem coragem de “deixar ir”.
Talvez aqui seja o momento de ter a ousadia de resumir o que foi Dark. Vamos lá:
O relojoeiro H.G. Tannhauss sempre se interessou pelos estudos do tempo, por razões óbvias. Mas, sua vida seguia um curso totalmente natural. Até o dia em que seu filho, sua nora e sua neta sofrem um acidente e morrem. É a primeira perda, que resultará em todas as outras. Ele, então, começa a estudar a viagem no tempo e cria um dispositivo que é ligado pela primeira vez em Junho de 1986. Esse é o “acidente” da usina, tido como causador da abertura entre as linhas temporais. Porém, o que aconteceu foi muito além disso. O acidente provocou uma ruptura que gerou dois universos distintos.
Se esses universos tivessem existido sem o recurso da viagem no tempo, talvez nunca precisasse ter havido uma luta para reverter as coisas. O problema é que estamos falando da “matéria escura”, a “partícula de Deus”, onde são apoiadas todas as teorias quânticas sobre a criação do universo. A explosão promovida pelo relojeiro não só causou a criação dos mundos, mas abriu o buraco de minhoca permanente que possibilitou aos residentes desses dois mundos irem de um tempo para o outro. Foi isso que gerou a bagunça e o sofrimento. Os personagens passaram anos e anos repetindo os loopings milhares de vezes porque estavam presos à ideia de corrigir suas próprias perdas.
Durante esse tempo, Adam achou que a única saída para todos os envolvidos era tentar alcançar um novo mundo, como se uma teoria de reinvenção do universo estivesse em vigência. Já Eva, que teve um filho com Jonas, só queria manter o looping para que o herdeiro continuasse existindo. Um queria desfazer o nó e o outro mantê-lo atado. Nesse processo eles enganaram muita gente. Mas, foi quando Claudia percebeu que Eva nunca teve a intenção de evitar os loopings que a história mudou. Mais uma vez, a tentativa de evitar uma perda era o que movia tudo. Claudia percebeu que nenhum dos resultados prometidos por Eva davam certo, justamente porque a Martha idosa não queria que dessem. Então, agiu sozinha e descobriu sobre a criação dos dois mundos.
Light
Foi no último episódio, enfim, que Dark encontrou toda a sua excelência. Para nós, que acompanhamos, teorizamos, discutimos, nada pode ser mais recompensador que ter um final pensado em todos os seus pontos de coerência. Não só tivemos a grande revelação de que os loopings estavam sendo causados por mais uma perda e que dois universos tinham sido criados por causa dela, como percebemos, com isso, que a solução era muito simples e que não havia nenhum outro caminho possível. Para tudo acabar alguns sacrifícios precisariam ser feitos. Mas, esses sacrifícios, pensando numa lógica mais fria, não fariam ninguém sofrer, não provocariam nenhuma dor, simplesmente porque aquelas pessoas não existiriam mais.
Nós, na nossa busca pela significação de tudo, recusamos terminantemente a ideia da não-existência. Essa busca é cruel. The Leftovers, do Damon Lindelof, ilustrou todas as facetas dessa sangria existencial; e ela é injusta, dissimulada. Não existir é uma ausência de tudo, inclusive dos machucados potenciais que são provenientes disso. De certa forma, os personagens de Dark que lutavam para que outros existissem estavam pensando apenas na própria dor, em evitá-la, em interrompê-la, porque se houvesse uma forma de enganar o fim, qualquer um de nós daria tudo para exercitar essa mentira.

E vejam como essa série é genial… Ela nos mostra, por três anos, que tentar reverter a ação das circunstâncias pode trazer consequências graves. Porém, no último momento, é exatamente isso que Jonas e Martha fazem, eles alteram o curso do destino. O filho do relojoeiro deveria ter morrido naquela noite, mas Jonas e Martha mudaram isso. O paradoxo se esfregou na nossa cara com deboche, com escárnio, porque depois de passar três temporadas assumindo que mexer com o tempo pode gerar o mais sangrento caos, a série corrige o próprio relato relativizando seu posicionamento. As coisas podem ser mudadas. Será que o tempo só aceita mudanças que sejam totalmente altruístas?
De forma delicada, as existências de todos os criados nos dois universos paralelos foram se apagando. Ulrich não passaria a vida toda numa época diferente da sua, Katharina não morreria pelas mãos da própria mãe (e acho que essa sequência foi a mais dura para mim), Hannah são seria morta pelo filho, Regina não morreria de câncer e nenhum fruto nasceria desses caminhos de absoluta dor e pesar. Contudo, como se numa última piscadela para a audiência, nos últimos momentos, uma gravidíssima Hannah, numa mesa cheia de alegria e luz – e logo depois de uma sinistra queda de energia – ameaça provocar o tempo uma última vez, com o nome de seu filho sendo a última frase dita pela série. Jonas insistia em existir.
Não poderia ter sido melhor. Uma história bem planejada, teorias bem colocadas, três anos calculados para intrigar e não cansar, uma infinidade de referências espertas e uma base por onde a dramaturgia poderia deslizar com plena segurança. Dark vai ficar entre nós – vai existir – como um exemplo grandioso de inteligência a serviço da fantasia. É maravilhoso saber que nós é que poderemos recomeçar o looping, vendo e revendo, buscando, analisando, reencontrando. Dark é uma obra de arte e as grandes obras de arte são as únicas que realmente vencem o tempo.





















