Não há horror sofisticado. Não há horror elegante. Assim como não há horror que seja o contrário dessas coisas. Horror é instinto, sentimento — e não faz sentido trabalhar com esses termos para sentimento. Assim como não há amor elegante ou deselegante, só amor de perdição e de salvação. O que se tem, e aqui coloco minha vírgula, são produções de televisão, cinema, literatura e outras áreas que o são, sofisticadas e elegantes. Não só com séries de horror, temos isso em todos os gêneros. No drama, temos Breaking Bad (AMC), The Good Wife (CBS) e The Crown (Netflix) como exemplos de uma elegância quase obsessiva, calculada em todos os seus detalhes. Nessas séries, o roteiro, a atuação e a direção são ensaiadas em conjunto de forma quase exibicionista, provando o valor e o alcance da televisão. O mesmo pode se dizer de Fleabag (BBC/Amazon), Veep (HBO) e Atlanta (FX) na comédia.
O que temos de sofisticado e elegante produzido dentro do horror? Penny Dreadful (Showtime) é sempre o primeiro nome que aparece. Mas não só o seriado norte-americano possui esse exercício de perfeccionismo exibido em seus episódios. Ash vs Evil Dead (Starz) fez três temporadas intocáveis, estudando a própria linguagem, enquanto Channel Zero (SyFy) fez quatro temporadas de se aplaudir em conteúdo reflexivo, metafórico. É até aceitável, então, a elipse da expressão para se falar desse horror de esforço, de respaldo; falar o tal “horror elegante” em vez de “uma produção de televisão elegante do gênero horror”. Aceito com muita desconfiança, mas aceito. Trago esses exemplos para falar, enfim, que a série desse post não tem absolutamente nada de elegante. E nada de sofisticada.

Em maio de 2019, ganhamos mais uma temporada de Slasher. Novamente com oito episódios, essa nova saga da antologia se chama “Solstice”, e os eventos se desenvolvem durante um dia — nós acompanhamos as horas progredindo conforme a trama avança. Mesmo nessa narrativa linear, temos flashbacks que ajudam a compreender a jornada de cada personagem e por que seu destino é o que assistimos. De enredo consideravelmente simples, assim como os outros anos, Slasher tem em sua terceira temporada seu melhor ano. A maquiagem continua ótima, as personagens continuam odiáveis, mas o horror como proposta se mostra uma inteligente manipulação da perspectiva do telespectador de servir de exemplo a outras séries.
Na história, completa-se um ano do assassinato de Kit (Robert Cormier), um jovem muito desejado — e problemático na mesma medida. Envolvido com muitas pessoas, ele tinha uma postura livre de regras e de qualquer apego. Não é surpreendente que seja a primeira vítima da história. Surpreendentemente, isso sim, é alguém se importar o bastante com sua morte e começar a ir atrás de qualquer pessoa que tenha tido a chance de ajudá-lo e não o fez. Isso porque, vale acrescentar, Kit foi perseguido dentro do próprio prédio, teve portas fechadas na sua cara e acabou liquidado pelo assassino na fuga.

Se em histórias de horror já trabalhamos com estereótipos, a terceira temporada parece querer escancarar isso. Ela traz quase que um “tipo” de personagem de cada minoria ou grupo para compor sua lista de moradores e possíveis vítimas. É quase como se estivesse seguindo uma receita para se adequar ao que a televisão, independente do gênero, tem tentado fazer nos últimos anos. Temos personagens negros, muçulmanos, latinos, influenciadores digitais, nazistas, hipsters, entre outros papéis que são complexos, mas que entram nas séries, e não só no horror, sem profundidade alguma. Com um elenco diverso, o que não muda é o talento dos roteiristas dessa série de fazer personagens detestáveis.
Pego esse gancho para falar onde eu encontro a inteligência em Solstice. Todo o cenário preparado para fazer um comentário social, falar sobre bem e mal, comportamento humano, existencial e social, relacionamentos problemáticos e deixar o telespectador refletindo (além de nauseado com as cenas de morte), o que Slasher faz é o contrário. Traz personagens odiáveis, coloca-nos em contato com elas para quase desejarmos que elas pulem para a lista de vítimas do grande justiceiro. No momento da morte, no entanto, a série passa a humanizar as personagens e criar, dentro do sofrimento dela, uma empatia conosco, as testemunhas. São irritantes, percebemos, mas não mereciam seus destinos. O roteiro nos oferece uma violência que pedimos para ver, afinal, é uma série de horror, mas nem sempre estamos preparados para presenciar.

Outro grande acerto é justamente não tentar se tornar um exercício de reflexão sobre moral. O exercício aqui é subverter nossas expectativas quanto às personagens e aos arquétipos que elas trazem consigo. Pensamos que, por conta do perfil, algumas são as mocinhas e outras são os vilões, mas as reviravoltas absurdas debocham desse nosso senso de conhecimento de mundo. Quando percebemos quem sai como o grande herói da história, é quase de se gargalhar da inversão curiosa que a trama fez.
Não só de personagens desprezíveis vive Slasher. Temos talvez a melhor protagonista das três temporadas. Temos um casal (Joe e Violet) que tem uma relação tão complexa que é difícil elaborar a respeito; quase angustiante. Angel (Salvatore Antonio) faz uma personagem dúbia, que tem um ressentimento e uma agressividade nem sempre escondidas dos vizinhos. Joe e Angel formam um casal por quem torcemos; um filme dramático perdido dentro da narrativa. Saúdo aqui a ousadia em colocar essas personagens em papéis de destaque e trazer essas questões para discutir com o fã de horror e telespectador da Netflix. Se alguém que é fã de uma cultura tão discriminada quanto a do horror tem problemas com isso, está se afiliando à tribo errada.

Minha maior reclamação para o primeiro ano da série foi que esta pega todos os mecanismos do slasher, esse subgênero do horror, e não contribui em nada. Stranger Things faz o mesmo, então não é como se fosse um defeito da categoria. Isso foi resolvido agora, e a maior contribuição é mostrar uma possibilidade de encontrar o humor em meio ao sangue — um humor que talvez nem todos identifiquem.
Os últimos episódios são um festival de sangue e delírio, fazendo a alegria dos que vibram com gore. Têm mortes legais (sempre algo engraçado de escrever), reviravoltas interessantes (mesmo que não muito verossímeis) e um final de deixar uma boa interrogação na nossa cabeça quanto àquele que se torna o herói no fim das contas. Fala sobre culpa de um modo mais eficaz do que a temporada anterior e aborda nossa relação com a internet, mas, não se enganem, não há um comentário social aqui. Pode parecer, parecer muito, parecer por tempo demais, mas cuidado, Slasher vai puxar o seu tapete no último momento e rir de sua facilidade em se deixar derrubar.
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PS:
(1)
Tem texto para a primeira temporada aqui no site. Para a segunda não tem porque eu detestei, e no Mês do Horror do ano passado eu estava focado em escrever só sobre séries que eu recomendaria.
(2)
Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.















