Para iniciar essa review preciso admitir que a primeira temporada de The Sinner foi uma grande surpresa para mim. Lembro que eu procurava algo para assistir na Netflix enquanto arrumava a casa, assisti o trailer da série e resolvi deixar o primeiro episódio passando. Era para ser só uma distração, mas não deu nem dez minutos, larguei a arrumação e fiquei no sofá. Assisti a temporada inteira em uma única tarde. Simplesmente amei, fiquei debatendo teorias comigo mesmo entre episódios, me surpreendi com as revelações e ao terminar a temporada, aquela tristeza bateu. Era uma minissérie, tinha início e fim planejados, eu não veria mais aqueles personagens e não acompanharia as investigações, mas foi só eu pesquisar por mais conteúdo sobre a produção que descobri a confirmação para uma continuação. Por um momento bateu aquela felicidade, depois o sentimento de preocupação e por fim a dúvida: como vão continuar uma história que recebeu um final fechado?

Na atual situação da indústria televisiva, minisséries não estão mais presas em temporadas únicas com final fechado, pelo contrário, dependendo da aprovação do público a “minissérie ou série limitada” pode ganhar sim uma continuação. A exemplo disso temos Big Little Lies, baseado no livro de Liane Moriarty, vendida como série limitada, que após uma excelente primeira temporada teve confirmação da segunda, dando continuação aos eventos da primeira. The Sinner nasceu como minissérie no canal USA, mas surfou na onda da série da HBO e ganhou o sinal verde para a sua continuação, com rumores de que seguiria como uma antologia, uma alternativa para dar seguimento ao título da produção, porém, com novas histórias, personagens e atores, mas não foi exatamente assim que aconteceu. A verdade é que The Sinner se transformou em uma série de drama acompanhando o detetive Harry Ambrose, personagem de Bill Pullman, em seus casos de investigação policial, mas fazendo questão de introduzir uma história completamente nova e referenciando o caso anteriormente trabalhado, tudo isso com uma excelente qualidade narrativa.

The Sinner
The Sinner

Antes de entrar na nova trama, vou responder uma pergunta que vi repetidas vezes no twitter: “Posso assistir a segunda temporada sem ter acompanhado a primeira?” SIM, com toda certeza, sim. Não existe nenhum problema em pular a primeira temporada, apesar de eu recomendar muito que assistam (é a minha preferida até agora), mesmo com as pequenas referências ao caso do ano um, nada interfere que passe direto para essa nova temporada.

O novo ano traz um novo caso, um duplo homicídio por envenenamento cometido por Julian, uma criança de onze anos de idade, interpretado por Elisha Henig. O detetive Harry Ambrose é chamado à sua cidade natal, Keller, pela detetive em treinamento Heather Novack (Natalie Paul), para auxiliar no caso e juntos solucionarem o mistério envolvendo  também uma comunidade religiosa secreta que está mais presente na cidade do que realmente parece. Bill Pullman toma a frente como personagem principal, e se na primeira temporada fomos apresentados ao passado cruel e sombrio de Cora Tannetti, agora somos levados para os traumas da infância do detetive Ambrose e como voltar para Keller o afeta emocionalmente. Pullman melhora o que já era bom na sua atuação no ano anterior e entrega mais ainda, se aprofundando nas complexidades do que é pedido, nos acomodando na conturbada relação de Harry com sua mãe e ao incêndio em sua casa. É essa memória do passado que o faz criar uma conexão com o Julian, seguindo sua intuição e acreditando que existe mais na história do que simplesmente uma criança resolver matar duas pessoas sem motivo aparente. Elisa Henig faz um trabalho impecável ao mostrar diferentes lados de Julian, desde o mais pacífico, passando pelo questionador, suscetível até o descontrolado, tudo de forma orgânica e fluida. E se no ano um tivemos a surpreendente Jessica Biel, agora podemos assistir, em mais um papel brilhante, a incrível Carrie Coon, como Vera Walker, mãe de Julian. Coon, que já mostrou seu enorme potencial em The Leftovers e Fargo, impõe toda uma aura misteriosa ao redor de sua personagem, é ela, junto com Pullman, que guia a trama para o desenrolar das pistas sobre o assassinato. No papel de mãe, Carrie Coon entrega todo o protecionismo maternal exagerado que se pode imaginar, assim como líder da comunidade religiosa, mantendo o ar misterioso e suspeito sobre o que ocorre lá.

The Sinner
The Sinner

Se no elenco The Sinner não deixa a desejar nem por um segundo sequer, sua trama central acaba por ficar um pouco abaixo das expectativas esperadas. Como o nível da primeira temporada é lá em cima, era de se esperar que a segunda mantivesse ou subisse o nível. De certa forma até manteve, sem dúvida alguma, porém, alguns elementos apresentados se perdem ao longo dos oito episódios, como os mistérios sobre a comunidade religiosa. Existem muitas dúvidas sobre o funcionamento da comunidade, algumas coisas são bem trabalhadas, como a base filosófica, origem, motivações, mas outros pequenos detalhes jogados que prendem a atenção de quem assiste com a vontade de conectar todos os pontos acabam se perdendo durante o desenvolvimento do plano geral. Isso não tira o mérito de que a temporada soube manter a qualidade narrativa, mas incomoda um pouco. Os núcleos de suporte acabam, em um determinado momento, se conectando com o caso principal, daí aparece aquele clima de cidade pequena onde todos sabem o que acontece com todos e tudo está ligado com tudo, é uma grande conspiração.

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The Sinner mantém o clima sombrio, tenso e misterioso em que se estabeleceu inicialmente, brincando com psicológico de quem assiste e desafiando a acreditar nas pistas jogadas para completar um quadro maior que só terá seu real desfecho no último episódio. As reviravoltas são espantosas, de colocar a mão na boca e não acreditar naquilo, algo que poucas séries conseguem fazer atualmente. Os oito episódios merecem ser assistidos com calma e dedicação, pois as respostas para o mistério principal estão todas ali para quem tiver a paciência de ligar os menores pontos. Apesar de não ter superado minhas expectativas, a segunda temporada possui uma excelente história capaz de prender qualquer um no sofá, é uma obra de arte, com defeitos, porém, incrível.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-sinner-tenso-2-segunda-temporadaThe Sinner mantém o clima sombrio, tenso e misterioso em que se estabeleceu inicialmente, brincando com psicológico de quem assiste e desafiando a acreditar nas pistas jogadas para completar um quadro maior que só terá seu real desfecho no último episódio.