“É… Com o tempo, eu aprendi que não existe receita mágica para salvar o dependente químico. Mas, depois de ver a morte de perto, eu senti que, se eu ficasse limpa, um dia, os outros dias viriam mais suaves. E eu tô me preparando pras porradas do mundo, porque elas sempre vêm, muitas vezes, de onde a gente menos espera.” – MEIRELES, Amanda.
Em uma trama avassaladora, acompanhamos a vida de Amanda (Letícia Colin de Floribella), médica bem-sucedida, que tinha tudo, mas não tinha nada. Ao mesmo tempo em que ela possuía dinheiro, emprego, marido e família, ela era uma moça solitária, depressiva, usuária de drogas, tanto lícitas, quanto ilícitas. No que diz respeito ao segundo grupo de entorpecentes, eu tive uma quebra de expectativa, pois pensei que Onde Está Meu Coração – nova série original Globoplay – iria mostrar, sem qualquer glamourização, os motivos pelos quais a protagonista se encontrou nessa triste realidade da Dependência Química.
Entretanto, o roteiro de George Moura e de Sérgio Goldenberg – dupla idealizadora de O Rebu (2014) e de Onde Nascem os Fortes (2018) – focou na tentativa de cessamento do ciclo vicioso da intensa abstinência, representada pela recuperação. Mostrar isso em um seriado é de extrema relevância, porque a sociedade brasileira tem muitos tabus em relação aos doentes químicos, com destaque no pré-julgamento de que o crack, por exemplo, só atinge as classes com menor poder aquisitivo. Muito pelo contrário: o vício é abundante e ele independe da sua conta bancária. E, nesse viés de desconstrução, a principal característica mostrada foi a de que a dependência química é uma doença, não só de drogas, mas, também, de álcool, necessitando, assim, ser enfrentada por todos.
E o todos na vida de Amanda envolveu alguns personagens, desde os seus pais – o também médico, David Meireles (Fábio Assunção de Totalmente Demais) e a executiva Sofia Vergueiro (Mariana Lima de Assédio) – até o seu marido, o arquiteto Miguel (Daniel de Oliveira de Aos Teus Olhos). Diante deles, além do choque da situação, ela mostrou o principal sintoma dessa jornada: a negação, sentimento que envolve tantas outras sensações, como a angústia, a ansiedade, o desespero e, claro, o sufocamento. Eu não sei vocês, leitores, mas eu me senti completamente inserido nessa personagem complexa, vivida pela bela atriz Letícia Colin. Seja pela caracterização, seja pela interpretação física primorosa: ela conseguiu transparecer sofrimento em meio às várias recaídas ao longo dos 10 episódios da primeira temporada. Amanda conseguiu não aparentar ser uma coitada, muito menos vilã, e sim vítima de uma doença perturbadora.

No que concerne sobre esse inserimento do telespectador na história, foi graças ao excelente trabalho da diretora Luísa Lima (Nada Será Como Antes) – com supervisão artística de José Luiz Villamarim (O Canto da Sereia) -, que conseguiu captar planos dramáticos. Houve a focalização nos rostos dos personagens e nas paisagens, em uma exemplar fotografia, com a captura da luz Solar, em muitas das cenas. Sem contar, com a sonoridade, caso do piar dos pássaros na cidade de Santos, no litoral do estado de São Paulo, e do barulho do trânsito da capital paulista, juntamente à trilha instrumental. Quem aí não sentiu emoção e sensibilidade para com Amanda, principalmente em querer abraçá-la, na tentativa de ajudá-la a sair desse caminho tão tenebroso? Pelo menos, os seus familiares, repletos de culpa – exceto a sua irmã, Júlia (Manu Morelli de Malhação) – estavam dispostos a realizarem qualquer tipo de ajuda, pois eles não queriam que a jovem doutora se definhasse, cada vez mais, nas drogas. Contudo, o principal malefício veio por parte da mãe: ela não confiou nos trabalhos da clínica de reabilitação da Dra. Célia (Grace Passô de Temporada), retirando, dessa forma, a filha do local, com a justificativa de que o cuidado seria domiciliar. Apesar de isso não ter dado certo, quem sou eu para julgar uma mãe desesperada, aflita, ao ver a própria filha sofrendo? O tratamento é lento e gradual, características que a família precisava entender para que não ocorresse a reincidência das várias recaídas.
E, por não resistir em não consumir o crack, Amanda foi à procura de drogas por São Paulo (SP). Ela, a cidade, é repleta de viadutos e de becos pichados, lugares que representaram como uma capital pode ser opressora, com pessoas em situação de rua, muitas delas viciadas em alucinógenos e “esquecidas” pela sociedade. Nas curiosidades das minhas Primeiras Impressões sobre a série, eu afirmei que a produção rodou cenas na conhecida Cracolândia, região em que se concentram muitos usuários de drogas na maior cidade da América Latina. Segundo informações do portal Notícias da TV, do UOL, em 2019, por exemplo, Letícia chegou a ser confundida como uma verdadeira usuária de crack, durante as gravações. Isso se dá em virtude da já elogiada caracterização e da entrega dos trejeitos que ela mostrou na história, é claro. Além disso, nesse contexto de adentrar a trama nos quesitos negativos dessa triste constatação do século XXI, há a questão da dívida na compra compulsória de estimulantes ilícitos.
Já ouvi relatos de famílias que perderam bens materiais, pois os seus membros, viciados em cocaína, por exemplo, venderam para comprar o produto. E quando não cessa a dívida, é evidente que o vendedor vai atrás do dinheiro em débito e, quem quase falece por conta disso, foi Miguel ao levar uma facada do traficante Beto (Rodrigo García de Psi). Uma pena o personagem não ter tido um sofrimento mais significativo, afinal de contas, ele, além de ter mostrado o caminho dos entorpecentes para a filha de Sofia, a abandonou logo no início do tratamento para ficar com outra mulher, a intragável e oferecida Vivian Rizo (Camila Márdila de Treze Dias Longe do Sol).
“Só por hoje, eu busco serenidade para acertar o que eu não posso mudar, coragem pra mudar o que posso e sabedoria pra perceber a diferença. Eu vivo o agora e não tento resolver todos os problemas da minha vida de uma só vez.” – MEIRELES, Amanda.
Miguel, desde o princípio, mostrou ter um relacionamento abusivo com Amanda, sendo autoritário, egoísta e possessivo. Quão babaca foi ele terminar o casamento jogando a culpa nela? Se ele realmente amasse a sua cônjuge, Miguel teria visto a humanidade dela, caracterizada pela fragilidade e pela necessidade de amparo, de carinho. Ademais, tivemos a ambiciosa Vivian, que tinha tudo para ser uma vilã inesquecível, uma vez que ela se encontrava na iminência de acabar com um casal “feliz”, toda trabalhada no cabelo curto e na roupa de uma mulher ambiciosa. Porém, a jovem ricaça ficou caricata, sem emoção, principalmente na cena em que ela usou uma arma de brinquedo para ameaçar Miguel. Aposto que ela se baseou na personagem Regina, da até então minissérie Justiça (2016-atual) – que foi renovada para a sua segunda temporada – também interpretada por Camila Márdila, porque, no final da primeira temporada, ela terminou a sua história treinando tiros para se vingar da morte do seu marido, Vicente (Jesuíta Barbosa de Verão 90). Ainda bem que as cenas derradeiras mostraram Vivian, sozinha, sem amor, sem Miguel, sem “felicidade”, aparentemente, sendo mais uma dependente química. Vai lá, querida, pedir ajuda para o seu tio rico, Edson Rizo (Nelson Baskerville de Carcereiros), para sair dessa situação! Sendo ficção, que mal tem comemorar o fim triste de um personagem, né?!

Já David, em um certo momento, diferentemente de sua esposa, desistiu de sua filha. Quem diria que ele seria o primeiro a trair? O seu envolvimento com a sua colega de trabalho, a Dra. Marta Lima (Bárbara Colen de Bacurau), além de ter sido irrelevante – cadê o barraco entre amante e esposa, hein?! -, não mostrou química alguma entre os dois, diga-se de passagem. Sem contar o fato de que a história do passado do personagem, por intermédio de flashbacks, foi mal trabalhada. Vamos lá: por ser um dependente químico em tratamento para o resto da vida, já que a doença não tem cura, ele estava há 20 anos sóbrio, sem beber álcool, perdeu o filho pequeno, David Meireles Filho (Thiago Anderson) em um acidente doméstico, não explicado – dando a entender que foi um afogamento na piscina – e, por fim, ele não contou sobre o seu vício às filhas.
Diante disso tudo, até que ponto tais fatores o influenciaram a voltar a tomar uísque e vinho? Tais sofrimentos do passado deveriam ser melhor explicados e, infelizmente, não ficou evidente ao longo da temporada. É claro que tal falha não tirou o brilho da atuação de Fábio Assunção, afinal, a “arte imitou a vida”, uma vez que ele já lutou, e muito, contra o uso de drogas e, hoje, ele está ótimo, podendo ter usado a sua própria experiência para dar veracidade ao seriado. Uma pena o seu personagem ter morrido, devido a um atropelamento, achando que deixou o vício como herança à filha. Não, David! Você deixou muita luta e muita vontade de viver à Amanda, já que ela, bravamente retornou para casa, mesmo em meio às abstinências do caminho. Isso comprova que a internação compulsória, exibida no piloto, não é de grande valia, e sim tem que partir da vontade do paciente em se tratar, por meio de uma ajuda efetiva e amorosa.
“Eu sei que a minha decisão é egoísta, que vocês me ajudaram muito, mas eu mesma não consigo me ajudar, não consigo tocar a minha vida. E esses remédios me jogam num buraco sem fundo: eu me sinto incapaz de seguir em frente. Me perdoem! Vocês foram muito bons comigo, cuidaram de mim… Mas a única coisa que me passa pela cabeça, agora, é ir embora. Preciso de um alívio. Amo vocês!” – MEIRELES, Amanda.
Outra personagem difícil de ser decifrável foi Júlia, jovem mimada que tinha ciúmes por não ter a atenção do pai e da mãe. Vamos refletir: já que o núcleo de personagens é tão pequeno em Onde Está Meu Coração, justamente pelo fato de ser uma minissérie, não faz sentido alguns deles serem tão irrelevantes. Ela fez uma promessa para ver a sua família “feliz”, ao ter escolhido ter relações sexuais só após o casamento, mas não houve uma profunidade e uma dramaticidade em relação ao assunto apresentado. Até mesmo o seu namorado, Eugênio (Antônio Benício de Amor de Mãe), apareceu em algumas cenas e não teve continuidade a respeito sobre a primeira relação sexual na juventude. Júlia, aliás, se mostrou sempre muito distante, ao querer, por diversas vezes, ir embora pra casa e, no final, a história, em relação ao dinheiro e ao anel da avó das duas irmãs “ficou com Deus”. Ah, detalhe: pra piorar, os roteiristas, tiveram a “brilhante” ideia de a Júlia perder a virgindade com o marido da própria irmã. Sério? Qual foi o objetivo desse drama, logo no último episódio? Desnecessário colocar a informação e não trabalhá-la! Se fosse no primeiro episódio seria bem melhor e os conflitos entre Amanda e Júlia poderiam render, quem sabe, vários tapas na cara que todo brasileiro gosta de assistir, é fato!
Ainda bem que o tratamento, a recuperação e a redenção de Amanda foram superiores aos pontos negativos da série. Apesar de todas as recaídas – com ela, inclusive, sendo quase presa e ter apontado uma arma aos seus familiares – aliás, para onde foi o tiro, será? -, Amanda conseguiu ser melhor, tanto no que se refere ao uso de drogas, quanto à vontade de tirar a própria vida. Seu tratamento, na clínica de reabilitação – que englobou os encontros periódicos dos Narcóticos Anônimos (N.A.), o cuidado com plantas e as aulas de hidroginástica – foi essencial para a efetivação de uma possível cura. Contudo, o famoso “final feliz” que nós, telespectadores, adoramos foi um tanto corrido no último episódio, no “melhor” estilo novela de ser: ela recebe uma proposta de emprego no Acre para trabalhar com mães dependentes químicas, com o intuito de elas não se afastarem dos filhos, enquanto realizam o tratamento. Em meio a isso, aparece a sua bebê xará na porta de sua casa, que Amanda acaba adotando, pois a mãe viciada, Camila (Bella Camero de Boca a Boca), abandonou a criança e Miguel não termina com a protagonista. Ao menos, em um Congresso Internacional, o seu depoimento final, que poderia muito bem ter sido declamado às mulheres lá do Acre, foi forte e profundo:
“(…) É possível recuperar seres humanos. Hoje, no mundo, há cerca de 250 milhões de pessoas que são usuárias de drogas. É muita gente! E cada uma dessas pessoas têm valor. É notório que a condição das Políticas Públicas, no formato atual, está defasada e, o que a gente precisa, é pensar se o consumo de drogas deve ser tratado como crime. Do quê adianta prender um usuário de drogas? A gente faria a mesma coisa com o alcóolatra? Esse tipo de conduta só dificulta o tratamento e desvia o dinheiro que poderia ser utilizado na recuperação dessas pessoas. É preciso entender e tratar, e esse problema é de todos nós. (…)” – MEIRELLES, Amanda.
E, com o fim da temporada, agora, eu consigo responder ao questionamento que dá título ao seriado: Onde Está Meu Coração? Ele se encontra no Amor, porque é o sentimento capaz de salvar vidas. E nada melhor que o amor de uma mãe para concretizar tal ação, não é mesmo, Sofia? Parabéns pela brilhante atuação da Mariana Lima!

OBSERVAÇÕES DO CORAÇÃO:
p.s.01: Qual é a razão de a abertura ser exibida no final, se o sentido dela é “abrir” cada episódio? Eu já comentei isso nas minhas reviews de Sob Pressão e, até hoje, não encontro sentido nisso;
p.s.02: Por mais séries gravadas em locações. Eu amei o apartamento do Miguel: todo trabalhado no vidro, em uma atmosfera limpa e solar aos cômodos. Arquiteto que fala, né?!;
p.s.03: Por falar no dito cujo, alguém sabe me dizer, por favor, qual foi a relevância de o Miguel ter dito que não poderia ter filhos? Só porque apareceu uma bebê na porta da casa da Amanda?;
p.s.04: Gente, a Manu Morelli é a cara da atriz Alice Wegmann (Órfãos da Terra). Se fossem irmãs não pareceriam tanto, eu imagino;
p.s.05: Eu achei um tanto problemático todos os personagens fumarem com tanta naturalidade, principalmente mãe e filha. Se é para ocorrer a desintoxicação, deveria ser de todas as drogas, sejam as ilícitas, sejam as lícitas, como o cigarro branco, não? Difícil de defender;
p.s.06: A cena em que Amanda fez sexo oral, depois de ter entregue anéis e brincos, com o objetivo de conseguiur mais pedras para fumar crack, foi difícil de assistir. Coincidentemente ou não, o ator que interpretou o usuário foi o Pedro Wagner, que deu vida ao personagem estuprador Oswaldo, na série Justiça. Muito nojento, ambos os personagens;
p.s.07: A trilha sonora, disponível no Spotify, foi um personagem à parte, agregando diversos estilos musicais: Caetano Veloso, David Bowie, Depeche Mode, Kid Abelha, Lou Reed, Sinatra, Monsueto, Nick Cave, Nina Simone, Novos Baianos, Toquinho e tantos outros abrilhantaram cada minuto do seriado;

p.s.08: Assim como em Carcereiros (2017-2021), que trouxe falas de agentes penitenciários, e em Segunda Chamada (2019-atual), com testemunhos de professores da Educação de Jovens e Adultos (EJA), eu senti falta, no final de cada episódio de Onde Está Meu Coração, depoimentos de pessoas que foram, na vida real, dependentes químicos em tratamento;
p.s.09: Acredito que a falta de tais depoimentos seja em virtude de a Rede Globo não ter exibido ainda a série na TV Aberta. Um desserviço para com um tema tão importante;
p.s.10: Pensei que Amanda iria ter a mesma caracterização que a atriz Grazi Massafera (Bom Sucesso) teve em Verdades Secretas (2016-atual), em que a sua personagem, Larissa, ficou, literalmente, na sarjeta;
p.s.11: Letícia Colin, em um dos dias de gravação, teve um reencontro de pai e filha em dose dupla, acreditam? Ela estava rodando as cenas em que David visita a filha depois de um tempo de tratamento na clínica de reabilitação, enquanto José Hélio, pai verdadeiro de Letícia, foi visitá-la depois de meses sem se verem pessoalmente. O momento foi registrado pela atriz em seu perfil oficial no Instagram;
p.s.12: No último sábado, dia 16 de maio de 2021, Letícia participou do programa Altas Horas, do apresentador Serginho Groisman. Ela, é óbvio, comentou a experiência de ter sido a intérprete de Amanda. “É uma personagem que mudou minha vida. Fui pesquisar as clínicas de reabilitação. Conversei com pessoas que são dependentes químicas. E acho que a beleza dessa série é que a gente trata a dependência química como uma doença, um problema de saúde como qualquer outro. Há cura, há transformação, há possibilidade de sair dessa situação, e a série mostra isso pra gente”, contou a atriz, que participou de forma remota;
p.s.13: Já na última quinta-feira, dia 20 de maio de 2021, a atriz Mariana Lima participou do sofá virtual do programa Encontro, da apresentadora Fátima Bernardes. Ela, além de falar da série e da parceria com o ator Fábio Assunção, disse que a dependência química é abordada em seu lar, pois ela é mãe de duas adolescentes. “Estou emocionada, chorando aqui, é como seu eu estivesse lendo o roteiro da série. É uma doença devastadora, que atinge todas as classes sociais, que marginaliza e estigmatiza, que trata os dependentes químicos como criminosos. Por quê? Essa é uma discussão para se ter sempre”, pontuou a atriz, que vem recebendo mensagens de muitas mães, ressaltando a importância de uma rede de amor e afeto”, revelou Lima;
p.s.14: De acordo com o blog pessoal – De Olhos nos Detalhes – do jornalista Sérgio Santos – mais conhecido nas redes sociais como Zamenza – os autores de Onde Está Meu Coração estão programando uma nova produção, em que o título começará com a palavra “Onde”. Tal fato fará com que a dupla complete a trilogia de séries com a palavra: a primeira foi Onde Nascem Os Fortes, supersérie, exibida em 2018, e, agora, Onde Está Meu Coração, de 2021. Alguém tem algum palpite do novo “Onde…”?;






















