Não é de hoje que o terror se estabeleceu como um dos gêneros mais possibilitadores para metáforas sociais. Muito disso é decorrente da sua capacidade inventiva, que vez ou outra se atrela com alegorias sobre o mundo em que vivemos. Essa mistura já era reconhecível nos anos 60, em A Noite dos Mortos Vivos, e inspirou inúmeros cineastas que, nas últimas décadas, se propuseram a trazer para o gênero problemáticas acerca de assuntos polêmicos. Assim como Corra! aborda o racismo e Corrente do Mal esconde em seu subtexto os perigos das DSTs, O Homem Invisível é norteado pelo conceito de relacionamento abusivo, se tornando o mais novo membro dessa safra social.
Dirigido e roteirizado por Leigh Whannell, o longa é um remake do clássico dos anos 30 de mesmo nome, inspirado no livro de H.G. Wells. Na história original, acompanhamos um cientista que, por culpa de uma poção, se torna invisível, e começa a atormentar sua noiva e outras pessoas. A nova versão opta por transferir o foco para sua contraparte feminina, a arquiteta Cecilia Kass, vivida por Elizabeth Moss. Vítima de um relacionamento tóxico com Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen), a protagonista foge do seu abusador, que comete suicídio pouco depois. É quando começa a achar que sua vida vai melhorar, que Cecilia passa a ser atormentada por Adrian, que de alguma maneira se tornou invisível.
Tanto a sinopse quanto os trailers já indicavam a presença de Elizabeth Moss como grande chamariz do filme, o que se concretiza de diversas maneiras. A atuação da atriz é delicada, contida quando necessária e expressiva em outros momentos, e dotada de enorme controle corporal. Graças a Moss, imergimos nos traumas da personagem, que além das cicatrizes emocionais, agora está sendo fisicamente perseguida. Aliado à interpretação, está novamente o recurso da ficção como metáfora, pois assim como as vítimas reais desse tipo de relacionamento tem problemas graves de autoestima e confiança, os outros personagens do longa duvidam da sanidade da personagem, deixando-a isolada tanto literalmente como simbolicamente.

Mas se a atuação da protagonista é exemplar, o mesmo não pode ser dito da direção de Whannell, que em vários momentos, é equivocada. O cineasta parece nunca se decidir quanto ao estilo do filme. Por vezes, propõe uma abordagem sóbria e fria, calma, que ajudam a construir a sensação de solidão em torno da protagonista. Em outras ocasiões, prefere uma estilística excessivamente melodramática, com uma trilha sonora exagerada e imagens que priorizam o sofrimento de Cecilia (como um plano de quase 30 segundos de Moss deitada no chão chorando, com uma música teatral de plano de fundo). Ambos são estilos viáveis e com seus méritos próprios. Todavia, quando mesclados, tiram a unidade do filme, que transita de maneira incômoda entre o melodrama e introspecção.
O roteiro também é irregular quanto às decisões narrativas que toma. O longa começa muito bem, apresentando aos poucos a personagem principal e as nuances do seu relacionamento com Adrian, até eclodir em uma excelente sequência de conflito entre eles. A qualidade é aparente até pouco após a metade da película, quando uma reviravolta bem construída dá um potencial fôlego para os últimos 50 minutos da história.
Contudo, é uma pena quando, após dois atos instigantes bem construídos, o último terço do filme se apoia em recursos que empobrecem a trama, apenas com a finalidade de surpreender ainda mais o espectador. Entre os incômodos, está a adição de diversos personagens, em uma história que tinha até então se sustentado muito bem com suas duas figuras primordiais. Outro erro destacável é a conveniência com a qual o roteiro trata o vilão, emburrecendo todos ao seu redor, para alongar o drama da protagonista. Por fim, a perda da abordagem intimista, lado forte da obra, em detrimento do drama exagerado, sua parte mais fraca.

Todos esses defeitos são culpa de Whannell, que parece não ter tido certeza de que tom dar ao seu filme. Existe uma máxima no audiovisual de que, quando não se há confiança na história contada, uma medida fácil e prática é resolver tudo com uma trilha emocionante e closes exagerados. Infelizmente, essa parece ter sido escolha do diretor que, certamente por falta de experiência (esse é seu segundo longa), não soube unificar a proposta da película.
De um projeto com enorme potencial para a uma obra mediana, muito por conta da direção insegura, O Homem Invisível ainda tem bons momentos, mérito de Elizabeth Moss, que carrega o filme nas costas, e das boas metáforas exploradas na relação de Cecilia com Griffin e com o mundo à sua volta. Sua grande conquista enquanto produto talvez seja cimentar a ideia de como esse gênero tradicionalmente subestimado pode ser palco de boas discussões, que mesmo prejudicadas por aspectos técnicos, ainda são muito pertinentes.




















