Caso a sua memória afetiva, de preferência, a da infância, tenha a figura de um anjo angelical, com cabelos dourados e ondulados, sem esquecer, obviamente, da auréola em sua cabeça e do arco e flecha, caracterizando “o cupido”, pode esquecer. Isso porque a nova aposta original Netflix brasileira – Ninguém Tá Olhando – muda, até mesmo, o termo “anjo” para “angelus”, tendo essa criatura, que aqui não é divina, ou seja, sem traços religiosos, completamente diferente.
O Série Maníacos não perdeu tempo e logo tratou de fazer uma maratona, afinal, são apenas oito episódios, de cerca de 25 minutos, cada, nessa primeira temporada, deixando a gente com aquela sensação de assistir um filme dividido em partes. Vamos analisar esse novo seriado?! Venham comigo:
Tendo a criação e a direção de Daniel Rezende (Turma da Mônica – Laços), a história mostra os seres humanos sendo protegidos pelos angelus, anjos com cabelos e gravatas vermelhas, usando calças pretas e blusas brancas, com pequenas asas nas costas. Eles, diariamente, recebem ordens do indivíduo que irão proteger, devendo acompanhá-lo em todos os seus afazeres do cotidiano, na tentativa de salvá-lo de acidentes, seja de um desvio de algum objeto em queda, seja de não colocar a casa em fogo por ter esquecido a boca do fogão ligada. Tudo isso ocorre em Distritos, distribuídos por todo o mundo, do Brasil à China, com o objetivo de incluir o maior número possível de pessoas no sistema. Por falar nesse sistema, ele é um tanto atrasado tecnologicamente falando, não é mesmo?! Para não falar, arcaico. Um simples hamster controla todos as bolinhas com os nomes, tanto dos angelus quanto dos humanos que serão revelados no painel. Bem, antes de chegarmos ao Chefe, não podemos nos esquecer da entrada de um novo angelus, que muda, completamente, o rumo do serviço prestado no 5511º Distrito, que tem as cinco estrelas de qualidade e há 300 anos não recebia um novo membro no corpo de trabalho.

O nome dele é Ulisses, o Uli, interpretado pelo ator Victor Lamoglia (Filhos da Pátria), um jovem rapaz que não se contenta em seguir as regras pré-estabelecidas, tomando, sempre, as próprias decisões, sem ao menos, antes, pensar nas possíveis consequências de seus atos. Apesar de ter lido o “Breve Manual da Humanidade”, contendo 4322 páginas, em uma excelente compreensão e retenção de informações, ele não se contenta em respeitar o inspetor Fred (Augusto Madeira de O Mecanismo), muito menos ouvir os pedidos de Wanda (Telma Souza de O Outro Lado do Paraíso). Uli não segue as quatro regras fundamentais e consegue quebrá-las sem muito esforço na primeira metade dos episódios. São elas:
1) Cumprir a Ordem do Dia (D);
2) Não aparecer para os humanos;
3) Não proteger os humanos fora da OD e;
4) Jamais entrar na sala do Chefe.
Caso algum angelus descumprisse alguma dessas regras, ele logo seria banido e punido pelo Chefe. Contudo, a graça da série é não apresentar a bendita da punição, pois Ulisses consegue quebrar todas as quatro regras e, claro, a gente fica torcendo para que nada de ruim aconteça para com ele, né?! As suas cenas são gostosinhas de serem assistidas, sendo um personagem pra lá de cativante e divertido. Logo no início dos seus trabalhos, Uli faz amizade com a mal-humorada Greta (Júlia Rabello de Shippados) e com o recatado Chun (Danilo de Moura de Apaixonados: O Filme), que, juntos, formam um trio super carismático, envolvendo-os em diversas aventuras, ao procurarem os prazeres mundanos da Terra, como o sexo e o uso de drogas.
A parte mais interessante desse universo dos “novos anjos” é o humor em cima da burocracia. Por quais motivos eles têm que fazer um relatório diário de seus afazeres, sendo que ninguém irá ler? Outro questionamento: pra quê usar gravata sendo que os humanos não podem vê-los, hein?! Perguntas como essas e frases engraçadas, com diversas referências, desde as redes sociais até o filme Cidade dos Anjos (1998) – a maior punição para eles é assisti-lo por toda a eternidade – funcionaram muito bem, obrigado, de nada.

Já na Terra, conhecemos Miriam (Kéfera Buchmann de Espelho da Vida), personagem feminista e carismática, que se envolve, amorosamente, com Uli, seu protetor. A química entre os dois é envolvente, pois eles conseguiram ir do humor ao drama de forma excepcional. Isso fez com que a torcida para com eles fosse aflorada a cada instante, principalmente, na parte em que o angelus e humana se separam. Quem também se destaca em cena é o personagem no sense Sandro (Leandro Ramos de Choque de Cultura Show), médico veterinário, que dá muita graça, na tentativa de descobrir uma cura para que as penas das asas, tanto de Greta quanto de Chun parem de cair, fazendo com que eles não sintam mais que irão morrer. Ele não consegue a cura, mas quem diria que era só continuar protegendo os humanos?! É a coisa mais óbvia e estava na cara deles o tempo todo. Ainda bem que Uli descobre e salva os seus amigos.
Outro ponto de destaque da trama são os questionamentos em relação aos fatores que envolvem os anjos, como a questão dos signos, no quesito astrologia, as crenças sobre o comportamento desses pequenos seres e se existe, de fato, um ser superior que controla todo o sistema das nossas vidas, no caso, um Deus. Será mesmo que o Chefe é, apenas, um hamster que só fica correndo para dar “corda” ao maquinário das bolinhas ou existem alguém? A série faz com que o público questione não só isso, como, também, a questão da fé que depositamos em nossas crenças, muitas das vezes, consideradas “verdades absolutas”. Pelo grande gancho deixado no último episódio, o famoso cliffhanger, com certeza, teremos uma possível resposta na segunda temporada. Aliás, nós, telespectadores, queremos a renovação para ontem, viu, senhora Netflix?!
Em fim, com um humor ácido, acoplado a um roteiro ágil e com personagens envolventes, Ninguém Tá Olhando se torna uma boa pedida de maratona, sendo, completamente diferente de The Good Place, série também disponível no catálogo da “gigante do streaming” e que aborda a temática do céu. Vale a pena a indicação para amigos, parentes e vizinhos!

O roteiro da série é assinado por Mariana Trench Bastos (Pico da Neblina), Mariana Zatz (Apneia), Leandro Ramos (Choque de Cultura), David Tennenbaum (Chicago P.D.), Cauê Laratta (Pico da Neblina), Felipe Sant’Angelo (Irmandade) e Rodrigo Bernardo ((Des)Encontros). Além de ser o showrunner do seriado, Daniel Rezende divide a direção ao lado de Fernando Fraiha (Psi) e Marcus Baldini (Bruna Sufistinha). Os produtores e irmãos Caio Gullane e Fabiano Gullane, ambos de Carcereiros, colaboram com a Netflix pela primeira vez.
RELATÓRIO ANGELICAL:
p.s.01: Seja você fã ou não de da dupla Sandy e Junior, com certeza, cantou a música “Imortal” quando tocado em cena, né?! Pode confessar!;
p.s.02: Quando a palestrante citou Rebelde, eu dei um grito. Já quero ver os angelus cantando e dançando as músicas da novela mexicana, por favor! Vai ser hilário, nostálgico e um presente, de certa forma, aos eternos fãs de RBD;
p.s.03: O ator Victor Lamoglia é a cara do youtuber Felipe Neto, não é mesmo?! Obviamente, se fosse irmãos não pareceriam tanto;
p.s.04: Por qual motivo/razão/circunstância eles, os angelus juntam canetas dos humanos. Algum leitor se habilita, por gentileza, em me explicar? Confesso que não peguei a piada;
p.s.05: O fato de elenco ter vindo da internet fez com que o diálogo dos personagens fluísse de uma forma rápida e não arrastada. Ponto positivo e favorável para que os episódios passassem voando;

p.s.06: Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs), o criador, não buscou referências em outras séries para escrever, como The Good Place e Miracle Workers. Ele, em uma entrevista ao site Correio Braziliense, contou curiosidades sobre a produção. “A ideia surgiu exatamente da desconstrução de padrões estabelecidos. De uma pessoa que segue a vida inteira padrões e regras, sem nunca questioná-las. Pegamos essa figura mitológica e mística, que já teve outras releituras, para criar os angelus”, contou. Ademais, ele reflete sobre a questão dos questionamentos de nós, seres humanos, que está bem aflorada nesta primeira temporada. “A série é exatamente sobre isso, essa brincadeira que, no fundo, é sobre se questionar de que fazer o bem é algo muito mais complexo. Há várias discussões. É uma série para rir das estupidezes humanas, mas também para se questionar sobre o quão complexo nós somos”, avaliou. Na publicação, Júlia Rabello e Victor Lamoglia respondem duas perguntas, também. Não deixem de conferir!
p.s.07: A série é mais uma dentre os vários investimentos que a Netflix deseja lançar no país “tupiniquim”, tendo já na conta 3%, Samantha!, O Mecanismo, Sintonia, Coisa Mais Linda e O Escolhido.
p.s.08: Ninguém Tá Olhando… Seria exatamente o quê esse não olhar? Os angelus? Ou seria o Chefe? Quais são as suas teorias? Não deixem de comentar, logo abaixo, o que vocês acharam dessa nova série brasileira da Netflix!;
p.s.09: Ah… Não posso me esquecer de divulgar o vídeo do meu chefe Michel Arouca do nosso canal no YouTube. Nele, Michel conta um pouco sobre a série e entrevista três membros do elenco: Júlia Rabello, Victor Lamoglia e Kéfera Buchmann. Está imperdível! Assista e não deixe de divulgar, dar o seu like e ativar o sininho, ok?! Mande para o coleguinha, também;





















