Harry Potter” abriu todo um novo filão para o cinema hollywoodiano: a adaptação de obras para jovens adultos. Desde então diversas produtoras tentaram a sorte em levar franquias literárias que surgem aos cântaros para as telas de cinema. Os resultados não poderiam ser mais variados. De sucessos como “Jogos Vorazes” a desastres que não passaram do primeiro longa, como “Eragon”. A verdade é que numa adaptação entre mídias, escolhas devem ser feitas. Ritmos devem ser repensados, porque nem tudo que dá certo nas linhas escritas em prosa consegue se destacar no formato de roteiro. Eis que chegamos em Mentes Sombrias (The Darkest Minds, 2018), nova tentativa da Fox de tentar emplacar um universo literário nos cinemas.

Num futuro próximo, uma doença misteriosa mata quase 98% das crianças dos Estados Unidos. Os 2% que sobraram adquirem poderes especiais. Temidos pelo governo, essas crianças são mantidas em campos de confinamento divididas pelo grau de suas habilidades. Ruby (Amandla Stenberg) é uma delas. Só que a jovem de 16 anos está determinada em escapar dali. A fuga é só a primeira de uma série de etapas que a colocará em contato com seus poderes e com os traumas de seu passado.

Mentes Sombrias
Mentes Sombrias

A primeira coisa que vem a cabeça ao se ver o filme é “X-Men”. Os paralelos são óbvios. Desde a segregação dos poderes, os campos de concentração, a polarização e a tomada de lados, tudo ecoa os mutantes que também são propriedade do estúdio da raposa. Só que a trama baseada nos livros de Alexandra Bracken não consegue ter a mesma seriedade e o mesmo aprofundamento de seus conceitos. Isso pode ser em parte culpa de Jennifer Yuh Nelson, dirigindo aqui seu primeiro longa live-action (é dela a direção dos dois últimos exemplares de “Kung Fu Panda”). Nelson não consegue repetir aqui a fluidez e o ritmo que é tão rico em suas obras animadas. Tudo parece muito engessado ou sem propósito. Mas também pode ser culpa do roteiro de Chad Hodge, que adapta tudo com uma cara adolescente demais, roubando a seriedade de momentos chave, onde a urgência ou o perigo dão lugar ao flerte inconsequente e a triângulos amorosos insossos. O que fica mais óbvio na escolha de músicas pop como trilha sonora, dando uma cara de clipe de banda indie com uma historinha bonitinha como auxilio imagético.

O longa, no entanto, é feliz nas escolhas visuais. Os poderes (verde-inteligência/ azul-telecinese/ dourado-eletricidade/ vermelho-fogo e laranja/controle da mente) são bem explorados, em momentos que enchem os olhos do espectador e dos atores, já que através desses é que sabemos o nível de ameaça de cada um. A fotografia de Kramer Morgenthau consegue ser clean e apurada, puxando detalhes de campos de trigo, lagos e paisagens desoladas. Mas nem tudo são flores, nos grandes momentos, mesmo com toda qualidade, algumas das passagens parecem ser aquém do que o próprio filme apresentou, quebrando o efeito conquistado anteriormente.

Mentes Sombrias
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Como uma história introdutória, muitos dos personagens são tratados de maneira rasa, deixando espaço para que sejam melhor trabalhados em volumes subsequentes. A questão é que não se sabe se o filme conseguirá dar continuidade aos quatro livros seguintes. Isso faz com que atores de nome pareçam meras participações especiais, como Gwendoline Christie (irreconhecível com uma peruca castanha), Mandy Moore e Mark O’Brien. O quarteto principal tem química nas cenas conjuntas. Stenberg consegue corresponder aos estímulos de Harris Dickinson e cria uma boa dupla, mesmo que sempre baseado no clichê da atração imediata. A pequena Myia Cech tem o espinhoso papel de não soltar nenhuma fala, mas seu tempo de tela não a coloca em enrascadas nesse sentido e Skylan Brooks dá vida ao verborrágico e geek Chubs (ou Bolota na versão nacional). Completando o elenco jovem, o único outro nome de peso é Patrick Gibson, como Clancy Grey, o filho do presidente americano que tem um papel importante no decorrer da ação.

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Mentes Sombrias acaba não sabendo lidar com suas responsabilidades. Quando os momentos de peso dramático chegam (num interessante clímax), muito já foi perdido para as decisões joviais e as escolhas errôneas da adaptação. Possa ser que isso seja um reflexo da obra original, que assim como grande parte das concorrentes recentes, tem boas ideias, mas carecem em saber aprofundar seus conceitos e criações. É um filme direcionado a jovens, eu sei, mas não é porque o público alvo é pueril que o filme também deva ser da mesma maneira. Se baseando no visual, o filme se esquece de sua seriedade narrativa. De sombrio aqui só o título.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Fox Film do Brasil

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
critica-mentes-sombrias-sombrio-nomeMentes Sombrias acaba não sabendo lidar com suas responsabilidades. Quando os momentos de peso dramático chegam (num interessante clímax), muito já foi perdido para as decisões joviais e as escolhas errôneas da adaptação.