O grande inimigo desta temporada de Luke Cage, porém, não foi Mariah, Shades e tão pouco Bushmaster, mas o próprio legado, a representação do nome. Não é à toa que logo no primeiro episódio somos apresentados a droga ‘Luke Cage’, nome escolhido pelo cartel dominante do Harlem para desmotivar a presença de seu herói e transformar um nome bom em algo ruim. De repente Luke Cage está matando jovens negros e não apenas salvando-os. Por todo o ano a noção e conceito de legado foram explorados em cada um dos personagens. Transformar sua temporada em algo temático foi muito inteligente e conseguiu fazer de Luke Cage uma série com um novo ritmo, apesar do já habitual “passo lento” adotado pelas produções da Marvel Netflix.

Logo, ao trabalhar o legado de seus personagens, a série conseguiu explorar a dinâmica de cada um deles, em especial quando confrontados pela imagem do que fizeram, o que fazem e o que deixarão para o futuro. Mariah e sua tentativa de se afastar do nome Stokes, se aproximando da vereadora dignificada, longe do crime e legalizada, tenta criar seu legado se desprendendo do antigo. Contudo a série é bem dinâmica ao provar, episódio após episódio, que você não pode simplesmente abandonar a sua história, mesmo que o desejo fundamental seja o de criar uma nova e isso funciona pessoalmente para todos os personagens, mocinhos ou vilões.

É aí que entra a nova adição do elenco, Tilda, interpretada por Gabrielle Dennis. A filha de Mariah entra para traçar um novo paralelo entre a vereadora/chefe do crime (em recuperação), e seu passado. É graças a presença desta personagem que temos mais de Mariah, em uma interpretação maravilhosa de Alfre Woodard, expondo seus sentimentos de maneira crua ao confessar para a filha que ela, sua única descendente, era fruto de um estupro. A dor, a monstruosidade e a culpa inferida para uma mulher inocente, também serviram para a aprofundar a discussão a respeito do peso do nome. Para Mariah, o sobrenome Stokes é sinônimo de sofrimento, para Tilda, ele se transformou e assim como a mãe, ela termina a temporada se aproximando do nome de sua família adotiva, Johnson.

Mas a história de Mariah é bem mais agridoce, porque existem apenas duas saídas para alguém que está tentando remontar sua história, abandonando o passado. A personagem tanto poderia ter conseguido, criando seu futuro honroso com o ‘Família Primeiro’, bordão que ela ressignificou após anos de abuso e tormento, ou caindo de volta em antigos padrões, já que eles eram os únicos que ela conseguiria empregar frente a realidade do crime, manipulação e morte. A Mariah vereadora nunca precisou aprender a enxergar o submundo como ele é, mas a Mariah ‘May May’, neta da avó Mabel, sim. E no final o sangue é bem mais forte do que a água.

Contudo a história de Mariah terminou, morta pela própria filha, que agora também decidiu trazer para si o legado que ela pensou ter abandonado. E em se tratando de Alfre Woodard, tê-la indo embora é uma perda muito severa para a série, mas deverá ajudar a criar uma nova dinâmica para a próxima temporada. Felizmente Luke Cage fez o possível para retirar o máximo de uma atriz competente, que fez uso da interpretação do blacksploitation para criar uma excelente e memorável versão de ‘Black Mariah’, como nem mesmo os quadrinhos conseguiram em tantos anos.

E Luke Cage retirou muito de seus personagens nesta temporada, ao abusar da conversa a respeito da herança emocional de cada um. Misty, após os eventos de Defensores, precisou aprender a viver sem o seu braço, mas este não foi o problema da personagem, que roubou para si o protagonismo nesta segunda temporada, muitas vezes ofuscando o próprio herói da série, Luke. Para Mercedes ‘Misty’ Knight o maior risco a história construída por ela foi o próprio parceiro, Scarfe, revelado no ano anterior como um policial corrupto a serviço de Boca de Algodão. Encontramos então uma Misty abatida por sua recém descoberta “limitação”, mas bem mais amargurada por ter perdido aquilo que a definia. Novamente repito que o trabalho feito com Misty foi muito bem estruturado, colocando-o bem longe de apenas uma coadjuvante.

Claro que ao mencionar Misty eu não poderia deixar de lado a participação especial de Colleen Wing, com uma visita sucinta, mas bem forte. Inclusive este foi outro ponto forte da segunda temporada de Luke Cage, que fez o melhor uso do “universo compartilhado” das produções Marvel Netflix – em certos pontos com mais pompa que Defensores. Após o fim de Defenders, Jessica Jones criou uma história bem mais particular e centralizada em si mesmo. Ao passo que Luke Cage fez questão de se situar como parte de um mundo habitado por outros personagens. Tivemos conexão com Demolidor, com a participação do advogado Foggy Nelson, menções a repórter Karen Page e a presença de Danny Rand e Colleen. Esta façanha é exatamente o que esperamos de um conjunto de produções que habitam o mesmo “parquinho” e com certeza ajudou a criar uma temporada bem melhor que a anterior – até a luta do Danny (e sua personalidade) melhoraram consideravelmente, me deixando um pouco ansioso para a próxima temporada de Punho de Ferro.

O vilão da temporada também agradou, com uma versão bem superior a de Diamondback. É uma pena que nunca chegamos a ver Boca de Algodão operando dentro de uma temporada inteira, como vimos com Bushmaster, mas este permanece como o melhor vilão de Luke Cage, garantindo uma entrada triunfal no panteão de antagonistas da Marvel Netflix, atrás de Kilgrave e Rei do Crime, lógico, mas bem acima do que Demolidor fez em sua segunda temporada, Justiceiro na primeira, Jessica Jones na segunda e Punho de Ferro desde sua estreia. A cena de entrada de Bushmaster é simplesmente aterrorizante, graças a interpretação de Mustafa Shakir, que vendeu bem a ameaça do antagonista. Contudo, a complexidade de John McIver conseguiu avançar bem mais que o simples vilão ameaçador, transformando-o em uma figura simpatética e até redimível.

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Em sua segunda temporada Luke Cage fez muito por seus personagens, criando uma história coesa, bem estruturada e satisfatória. Para alguns o ritmo não será de agrado, mas já passou da hora de aceitar que é assim que as produções da casa giram e aparentemente continuarão até encontrarem seu fim (que parece cada vez mais longe). O importante é ressaltar que nesta temporada, talvez pela falta de força do protagonista, Mike Colter, até mesmo os personagens menores conseguiram um momento para brilhar. Theo Rossi e seu Hernan ‘Shades’ Alvarez teve seu passado revelado, assim como o relacionamento homoafetivo que desenvolveu com o parceiro, Comanche, na cadeia. O pai de Luke, interpretado pelo já falecido Reg E. Cathey, também aprofundou mais a presença do protagonista – novamente, parear atores tão bons e histórias secundárias tão bem exploradas foi o melhor movimento, já que Colter ainda não consegue, sozinho, segurar a série. E terminando com uma nota de augúrio, com Luke assumindo o papel de rei, afastado de Claire e no topo da colina, a terceira temporada de Marvel’s Luke Cage parece injustamente longe de estrear.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-luke-cage-volta-pra-2a-temporada-com-energias-renovadas-mas-sem-abandonar-o-ritmo-morosoEm sua segunda temporada Luke Cage fez muito por seus personagens, criando uma história coesa, bem estruturada e satisfatória. Para alguns o ritmo não será de agrado, mas já passou da hora de aceitar que é assim que as produções da casa giram e aparentemente continuarão até encontrarem seu fim (que parece cada vez mais longe).