Revelar uma parte de si para o mundo é um caminho cheio de altos e baixos, entender quem você é, ao mesmo tempo que passa por tantas mudanças e adaptações, questões familiares e as constantes emoções da adolescência é o que faz “Love, Victor” ser uma série tão fácil de se apaixonar e conseguir ser ainda melhor que o filme “Love, Simon”, que deu origem a este spin-off tão importante.

Se em “Love, Simon” conhecemos a trajetória de Simon Spier para sair do armário e o desenvolvimento do seu romance com Bram, na nova série do Hulu temos uma história bem diferente daquela que deu início ao Simonverse (nome dado pela autora de “Love, Simon”, Becky Albertalli). Com o roteiro feito por Isaac Aptaker e Elizabeth Berger, os mesmos roteiristas do filme, “Love Victor” traz a história de Victor Salazar (Michael Cimino), um jovem de quinze anos que acabou de se mudar com sua família do Texas para Atlanta.

O primeiro ponto que chama atenção na série é a forma como ela se conecta com o mundo de Simon, o legado deixado pelo mesmo em Creekwood faz com que nosso protagonista se sinta esperançoso sobre um ambiente com pessoas de mente mais aberta, entretanto se apenas isso fosse suficiente para lidar com as dúvidas que surgem no processo de descobrir quem você é, Victor teria resolvido sua vida muito antes, mas a história dele não é nada como a de Simon.

Em dez episódios conhecemos a vida de Victor, um jovem latino com uma família passando não apenas por uma mudança de estado, mas também tentando sobreviver a uma crise no casamento dos pais, Isabel (Ana Ortiz) e Armando Salazar (James Martinez). A família Salazar ter um papel tão importante na série é necessário para entendermos alguns aspectos sobre o Victor, que para mim é um dos protagonistas mais carismáticos de todas as séries teens atuais, a posição que o personagem tem de segurar toda a sua família e resolver os problemas é algo que o segue durante essa primeira temporada.

Outro ponto positivo para a série é que por não apresentar muitos personagens, conseguimos nos afeiçoar a todos que possuem tempo de tela, a começar por Felix (Anthony Turpel), melhor amigo e vizinho de Victor, o personagem é muito divertido e sua história com Lake (Bebe Wood) é o clichê na medida certa, assim como a série toda. Espero que numa futura segunda temporada, podemos ver um pouco mais sobre a relação dele com sua mãe, é um personagem que serve tanto para ser alívio cômico, quanto para momentos de debates mais sérios.

Os interesses amorosos de Victor adicionam uma dubiedade muito boa de se acompanhar, enquanto Mia (Rachel Hilson), que inclusive já esteve em This Is Us, representa esta última esperança que o rapaz tem de ignorar estes sentimentos tão latentes, ao mesmo tempo que a moça possui sua própria narrativa, e um núcleo com a Sophia Bush não tinha como dar errado, conhecemos a solidão de Mia, assim como seus traumas com sua mãe e o medo de deixar alguém se aproximar, inclusive é um dos meus poucos problemas com a série, pois o desfecho disso chega a ser um tanto quanto decepcionante, já que passamos toda a temporada vendo como isso iria magoar a personagem e não aprofundaram tanto sua história com Andrew.

Do outro lado temos Benji (George Sear), que desde o primeiro momento tem uma química incrível com Victor, a tensão entre os dois é tão perceptível que chega a ser angustiante não tê-los juntos logo de primeira, os sinais estavam todos lá, se em algum momento não foi óbvio, quando eles dançam Carly Rae Jensen juntos não havia mais dúvidas de que algo estava acontecendo ali. Ao mesmo tempo que seria interessante vê-los juntos desde o início da série, foi bom ver Victor nesse período de aceitação e que Benji de alguma forma serviu como um exemplo para ele se entender. Aliás, aquele namorado dele que foi colocado na série especialmente pra ser chato e ninguém se importar quando eles terminassem. É um crime ser romântico, Derek?

O único ponto que ficou um pouco fraco para mim em questão dos personagens foi a Pilar, entendo que a irmã de Victor estava passando por um momento difícil dando adeus a sua vida e logo em seguida descobrindo sobre a infidelidade de sua mãe, mas os poucos momentos que a personagem teve em que ela foi no mínimo legal foram quando ela estava interagindo com Felix e Mia, espero que ela me faça mudar de opinião numa futura segunda temporada.

Todos os episódios são no mínimo bons, com vários ápices, mas não tem como negar que o episódio oito é de longe o melhor da série, superando, para mim, o próprio filme, a presença de Simon e Bram, em conjunto com seus companheiros de quarto foi crucial para o desenvolvimento da narrativa, por mim poderíamos ter muitos mais episódios assim. A série toda construída com essa relação entre Simon e Victor foi muito satisfatória e bem pensada, a questão de na verdade não ser apenas Simon ajudando o adolescente, mas sim todo um sistema de apoio da comunidade conseguiu manter um elemento essencial do filme, que eram os e-mails que Simon e Blue trocavam e se tornou como um guia para nosso protagonista carismático. O episódio foi o grande ponto de virada e fez com que Victor finalmente encontrasse a resposta que tanto procurou e tentou ignorar tantas vezes. A conversa com Justin sobre o que era ser drag e a resposta de Victor foi emocionante e quando ele encontra Simon fica clara a intenção da série ao dizer que nenhuma história é igual, mas que existe uma comunidade que você pode se apoiar e deixar as coisas mais fáceis para se enfrentar.

E é neste momento que a série se mostra necessária, se com “Love, Simon” tivemos um dos primeiros filmes mainstream sobre um adolescente gay, “Love, Victor” vai além e traz um jovem de cor que conseguirá alcançar tantas pessoas com sua história pelo simples fato de representar algo de forma positiva, se com essa idade todos tivéssemos representações tão em foco na mídia seria muito mais fácil aceitar quem somos. E para melhorar o episódio termina com a maravilhosa Katya, então é óbvio que esse é o melhor até então.

Todo o elenco possui uma química muito boa, o que facilita para que a narrativa se desenvolva de forma orgânica, as conversas de Benji e Victor, a relação de Victor e Mia, que era tão boa que eu entendi por que o Victor estava tão apegado a isso. A cena em que Victor conta a Felix sobre sua orientação sexual é um dos melhores momentos, a forma como foi feita, a escolha das palavras, algo muito difícil de se fazer é finalmente dizer em voz alta quem você é, depois da primeira vez que essas palavras são ditas parece que o peso do mundo sai de suas costas, mesmo que a reação das pessoas não seja a melhor, você não está mais se escondendo ou mentindo sobre quem é.

Os desfechos para essa primeira temporada foram bons, um tanto apressados para o pouco tempo que tinham, mas ainda assim coerentes. Os pais de Victor se separarem por um momento é o melhor a se fazer, desde o dia que Isabel disse à Pilar sobre se casar cedo, dava pra perceber que eles precisavam de um momento para se reencontrarem e talvez se apaixonarem de novo, é um bom caminho para uma segunda temporada, era melhor que continuar na relação só deixando o ambiente em casa pior ainda, consequentemente sendo péssimos pais, como apontado por Victor.

Fica claro o arco de redenção de Andrew nos últimos episódios e acredito que o personagem crescerá num próximo momento, como disse anteriormente, não gostei tanta da forma que Mia descobriu, queria que tivesse sido algo que preservasse o que ela e Victor tinham, mas infelizmente não aconteceu. Colocar o namorado gay para trair a namorada extremamente legal não é a melhor saída de roteiro, nem a mais inteligente, mas foi o que teve, apesar de entender tudo que Victor estava passando, não me pareceu justo para nenhum dos dois. Benji e Victor juntos é o que eu preciso para a segunda temporada e que tenha um desenvolvimento do casal de forma mais ampla e natural, é interessante acompanhar este processo de descobrimento durante a adolescência, mas também é importante normalizar a ideia de um casal gay comum apenas descobrindo a vida como um casal. Não há o que reclamar sobre Felix e Lake, o clichê bem feito e na medida certa.

“Love, Victor” constrói suas bases e está pronto para dar o próximo passo, a primeira temporada é coesa e bem feita, uma das melhores séries teens dos últimos tempos, uma boa produção, trilha sonora incrível e todas as atuações estão no mínimo boas, um parabéns para os roteiristas por escrever personagens tão cativantes, como Victor, e pelo ator ter interpretado tão bem, é uma série que servirá para muitas pessoas como Simon, Bram, Victor e tantos jovens LGBTQ+ se sentirem representados e aceitos em algum lugar. A série, apesar de um clichê adolescente, possui potencial para crescer bastante, caso consiga manter o nível dessa primeira temporada, às vezes tudo que precisamos é de um clichê bem feito.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-love-victor-e-um-spin-off-que-consegue-superar-sua-origem-e-abrir-novos-caminhos“Love, Victor” constrói suas bases e está pronto para dar o próximo passo, a primeira temporada é coesa e bem feita, uma das melhores séries teens dos últimos tempos, uma boa produção, trilha sonora incrível e todas as atuações estão no mínimo boas, um parabéns para os roteiristas por escrever personagens tão cativantes, como Victor, e pelo ator ter interpretado tão bem, é uma série que servirá para muitas pessoas como Simon, Bram, Victor e tantos jovens LGBTQ+ se sentirem representados e aceitos em algum lugar.