Observando as personagens de histórias de horror na televisão, percebemos diferentes relações com o sobrenatural. Na maioria dos casos, esta relação não é bem-vinda e só lhes traz problemas. Temos os protagonistas que esbarram no sobrenatural por conta de uma casa ou objeto mal-assombrados. Temos os protagonistas que são rondados por criaturas do plano não-humano, como fantasmas ou monstros. Temos os protagonistas que testemunham o sobrenatural ou algum mistério a sua volta. Mas e aqueles que veem no sobrenatural todo o fascínio que nós, telespectadores, vemos? Os fãs do horror não são personagens principais em histórias do gênero. Talvez porque isso proporia uma linguagem metalinguística muito complicada de se elaborar. É um desafio criar uma narrativa ficcional que tome o apreciador do gênero, do objeto final, para navegar dentro dele sem que o resultado tenha uma aparência documental ou uma paródia não intencional.

Os produtores de Los Espookys encararam esse desafio e nos presentearam com uma das séries mais inusitadas e criativas do primeiro semestre. Estreando na HBO em junho deste ano, a série fez uma temporada de seis episódios com menos de trinta minutos. Todos foram dirigidos por Fernando Frias e escritos por Fred Armisen, Ana Fabrega e Julio Torres. Sem variações na cadeira da direção e mãos diferentes assinando os roteiros, é perceptível a unidade que a produção consegue para si, articulando um humor absurdo com um visual colorido e mórbido na mesma medida. A fotografia parece obsessivamente bem pensada e as personagens formam um grupo carismático, empolgante de se acompanhar.

Bernardo Velasco and Julio Torres in El exorcismo (The Exorcism) (2019)

Com Espookys voltamos ao espanhol neste Mês do Horror. No enredo, temos um grupo de amigos apaixonados pelo gênero do horror que formam um grupo (Los Espookys) com a missão de levar a experiência dentro do gênero para aqueles que precisam. Eles encenam um exorcismo, decoram uma mansão para cinco pessoas disputarem uma herança e criam um monstro como atração turística de uma cidade, entre outras missões. Os desafios de se firmarem como essa empresa que começou como um passatempo e as questões de suas vidas pessoais se confrontam conforme a trama avança.

O horror proposto pela série é aquele configurado pelas próprias personagens. Um horror de ambiente, mas a partir de mecanismos. Um “horror falso”. É o mesmo que vemos em séries como Arquivo X (Fox), Project Blue Book (History) ou no mundo de Scooby-Doo. A diferença é que aqui vemos tudo do ponto de vista daqueles que fazem as armações, criam os cenários propícios aos sustos alheios. É algo feito de forma desajeitada, mas sempre comprometida, afinal, nossos meninos levam o horror como algo muito sério. Talvez na própria seriedade, inclusive, encontramos certo humor ao percebermos como falas graves não combinam com as situações ridículas em que são proferidas.

El laboratorio alienigena (The Alien Lab) (2019)

Hora de apresentar nossos espookys. Renaldo (Bernardo Velasco) é o líder do grupo e talvez o mais entusiasta deles. Sua função é agenciar compromissos e cuidar do cachê. Em suas palavras, tudo que lhe interessa é o horror e situações aterrorizadoras. Quando não há nada relacionado a isso para se fazer, ele apenas senta e espera que novas coisas assustadoras aconteçam. Andrés (Julio Torres), seu melhor amigo, presta algum suporte financeiro ao grupo. Ele é o herdeiro de uma fábrica de chocolate e tem um namorado que o oprime, opondo-se a sua personalidade obscura e a seus amigos que a cultuam. Úrsula (Cassandra Ciangherotti) trabalha com a parte técnica da coisa, elaborando próteses e efeitos visuais. Tati (Ana Fabrega), sua irmã, complementa o grupo de forma ainda mais especial, sendo a “estranha” — se é que nesse grupo isso faz sentido. Ela tem empregos estranhos e aceita fazer as coisas mais absurdas pelo grupo, como se disfarçar de monstro do lago.

Algo que nossos espookys e os telespectadores não esperavam é que o sobrenatural de fato aparecesse por aqui — não apenas sua manifestação arquitetada no faz de conta de fãs do gênero. É quando o absurdo do texto encontra o absurdo da composição dramática da narrativa, flertando com universos paralelos e teorias conspiratórias que envolvem redes de televisão. Alternando as aventuras do quarteto, o ator Fred Armisen (Portlandia, IFC) tem uma narrativa própria, adjacente, como Tico, o tio de Renaldo que o incentiva a transformar sua paixão por horror em um negócio. Fred se encaixa muito bem no estilo absurdo da série.

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De premissa simples, Espookys é o tipo de série que eu definiria como sofisticada. Há uma paleta de cores estudada para criar um visual vivo e singular dentro da série, explorado por enquadramentos bem ensaiados. A história quebra sua linearidade para mostrar flashbacks absurdos que adentram ainda mais na mente extraordinária das personagens. Estas não respeitam sequer a estrutura da televisão, quebrando as paredes que separam o passado e o futuro, comentando entre si, por exemplo, um flashback que só o telespectador poderia ter visto. A escolha do elenco também é certeira, mesmo nas participações especiais. Carol Kane (da também inusitada Unbreakable Kimmy Schmidt) reafirma isso ao interpretar aqui uma atriz veterana decadente, muito respeitada pelo grupo.

> TEORIAS DE WATCHMEN!

Los Espookys garantiu aclamação da crítica por todos os motivos listados acima, além de uma segunda temporada. Depois de devorar os seis episódios em uma velocidade assustadora, a sensação é de que precisamos de pelo menos mais duas temporadas com essa turma antes de nos considerarmos satisfeitos. Fãs de horror se sentirão contemplados por essa investigação da mente e do comportamento de quem ama se inserir nesse meio. Fãs de comédia vão adorar esse ensaio do ridículo e do incomum. Fãs de televisão em geral vão se apaixonar por essa produção da HBO que, acima de tudo, é uma série fantástica.

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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-los-espookys-uma-das-comedias-mais-inusitadas-dos-ultimos-anosFãs de comédia vão adorar esse ensaio do ridículo e do incomum. Fãs de televisão em geral vão se apaixonar por essa produção da HBO que, acima de tudo, é uma série fantástica.