Quando Ernest Cline criou uma história sobre um mundo virtual que servia de escape para uma sociedade distópica ele não imaginaria que estaria criando uma bíblia da cultura pop oitentista. Misturando crítica social com a estrutura progressiva de um RPG clássico e ainda adicionando pitadas gigantescas de saudosismo, o livro figurou entre os mais vendidos por várias semanas e claro atraiu a atenção da indústria cinematográfica para uma adaptação. Claramente não haveria diretor mais perfeito para a tarefa do que Steven Spielberg, que tem um senso absurdo de como contar uma história e tornar tudo ainda mais divertido. Alguns dos conceitos foram diluídos, algumas mudanças necessárias, mas Jogador N°1 (Ready Player One, 2018) continua com a força de homenagear a cultura pop como também vai atualizando suas referências de modo competente.
O ano é 2045. O OASIS é uma febre cultural e também o único refúgio contra a realidade opressora. Nesse mundo virtual você pode ser quem quiser, quando quiser nos vários mundos habitados por diversas figuras icônicas dos mais variados filmes, livros e jogos. Quando o criador deste universo, Halliday (Mark Rylance), morre ele deixa uma caça ao tesouro como testamento e quem achar o “easter egg” ganha o poder de controle e todas as ações majoritárias da empresa. Isso atrai a atenção de jovens como Wade Watts (Tye Sheridan), que pretende usar o dinheiro para obter uma vida melhor e também de uma grande corporação que visa lucrar de todos os modos com a plataforma, custe o que custar.

O livro vai construindo um mundo sem esperança, que depende da tecnologia para esquecer das guerras, da falta de recursos e da crescente tensão tecnológica. Os contornos adultos da obra sobrepõem a cultura pop, mesmo que essa seja em maior relevância. Os personagens sofrem as consequências de uma vida sedentária e a ameaça apresentada pelo vilão é real, com mortes e assassinatos acontecendo no decorrer da história. No filme isso é diluído, deixando a história com uma pegada mais adolescente, que suaviza as críticas e minimiza a ameaça além do mundo virtual com a presença de um núcleo inexistente nos livros.

Mas se a narrativa deve em alguns elementos, o visual compensa todo o resto. Spielberg cria um mundo vivo que salta aos olhos, não somente pelos diversos e milhares de easter eggs nos cenários (sério, é preciso várias vistas para contabilizar todos os presentes, de Gundam a Overwatch), mas também pelas escolhas de inserir o espectador na ação das principais tarefas em busca do tesouro. Escolhas essas que funcionam dentro do âmbito cinematográfico, deixando espaço para a câmera de Janusz Kaminski passear de modo alucinante pelas diversas provas e ambientes, com destaque para a primeira e segunda provas, esta última um dos melhores momentos do cinema recente. O formato IMAX ajuda na imersão dentro do universo visualmente rico. As telas comuns podem tirar um pouco do encanto nesse aspecto. O 3D funciona nas sequências digitais, mas no mundo real não passa do nosso velho conhecido efeito de profundidade de campo. A trilha sonora repleta de clássicos da década de oitenta, complementa ainda mais a sensação nostálgica das referências apresentadas.

As questões de adaptação atacam novamente na construção dos personagens. Alguns têm seus papéis eliminados, outros são criados especialmente para o cinema para ligar os pontos soltos deixados por excertos do livro que são aproveitados pelo roteiro. Os principais continuam com suas personas bastante próximas de suas contrapartes escritas, com foco em Wade (Sheridan), Art3mis (Olivia Cooke) e Aech (Lena Waithe) . Já o vilão Sorrento, vivido por Ben Mendelsohn, só corresponde em partes, ganhando contornos de comédia que não são presentes no original. Ogden Morrow (Simon Pegg) mal aparece e I-Rok vira um capanga com a voz de T. J. Miller.
O resultado final comprova que Jogador N° 1 é um blockbuster com B maiúsculo. É o lado fã de Spielberg tomando conta da tela, sem esquecer de homenagear a cultura na qual ele surgiu e também de reverenciar o cinema como uma válvula de escape. Seja no OASIS ou numa sala de cinema, sempre precisaremos de um momento em que nos colocarmos no lugar de outra pessoa é o necessário para que sejamos felizes.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros Pictures Brasil
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