A minissérie Inacreditável, da Netflix, baseada nas reportagens de T. Christian Miller e Ken Armstrong, publicadas em 2015, nos sites ProPublica e The Marshall Project, que se dedicam a trabalhos investigativos sobre uma série de estupros em Washington e Colorado, chamada de “An Unbelievable Story of Rape” (Uma Inacreditável História de Estupro), narra, em duas linhas temporais distintas, estranhas ocorrências de violência sexual contra mulheres.  A primeira linha temporal se passa em 2008 quando vemos a história de Marie Adler (Kaitlyn Dever), uma jovem recorrente no sistema de lares adotivos, que relata a polícia ter sido estuprada enquanto dormia em seu apartamento e a segunda linha temporal, que se passa em 2011, acompanha as investigadoras Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette), em uma frenética empreitada para desvendar uma série de estupros com um modus operandi muito semelhante ao ocorrido com Marie.

Esse não é um tema muito estranho para nós que estamos acostumados a assistir Law & Order: Unidade de Vítimas Especiais, longeva série da NBC, que conta a história de detetives que fazem parte da Unidade de Vítimas Especiais da polícia de Nova York e investigam crimes de natureza sexual, como estupros, em que a vítima sobrevive, e auxilia as autoridades na investigação. No entanto, ao contrário dos dedicados detetives de Law & Ordem, em Inacreditável, Marie não encontra tanta resiliência e empatia da parte dos dois investigadores envolvidos, que questionam o tempo todo a veracidade da sua narrativa, nos fazendo duvidar sobre até que ponto o estupro realmente aconteceu ou tudo não passa de invenção de uma mente perturbada.

A minissérie, que tem apenas oito episódios, foi criada colaborativamente por Susannah Grant (uma das roteiristas de Erin Brockovich), Ayelet Waldman (autora do romance que inspirou o filme A Outra Mulher) e Michael Chabon (autor de Wonder Boys). Apesar do tema espinhoso, Inacreditável é bastante palatável e não nos causa o mesmo desconforto que a sua excelente irmã de casa “Olhos que Condenam” nos causa. Apesar de ser mais palatável, não se enganem, a minissérie é densa, pesada e sufocante em alguns momentos. A cenografia é bem urbana, com direito aos conjuntos habitacionais destinados a jovens egressos do sistema social americano e as tomadas feitas em ruas estreitas e pouco convidativas, mostram que há um criminoso habilidoso e perigoso à espreita. Um outro ponto a se destacar é a força da atuação de Kaitlyn Dever, que nos entrega um poderoso resultado na personificação de uma Marie complexa e confusa. A jovem, fruto de diversos lares adotivos, é muito desorientada, tem muitas camadas e é despedaçada em diversos setores da sua formatação pessoal e emocional. Além dos aspectos descritos acima, cinco episódios de Inacreditável foram dirigidos por mulheres, isso é perceptível, já que a sensibilidade e a dramaticidade emprestadas a cada um desses episódios são patentes aos nossos olhos. Vale a pena exaltar também a cuidadosa direção de fotografia, que não exagera na questão gráfica dos abusos e não supervaloriza o sofrimento das vítimas ao nos poupar de cenas desnecessariamente descritivas dos crimes. A intenção não é nos chocar gratuitamente, é dar visibilidade as vítimas, retratando-as enquanto pessoas, seres humanos.

O piloto, da minissérie, apesar de longo, tem um bom ritmo narrativo, abre um importante debate sobre a forma como as vítimas de abuso sexual são tratadas pelo sistema, que em tese deveria protegê-las e não as pressionar ao limite, empurrando-as para uma sobrecarga emocional igual ou pior que o atentado sofrido. A forma coercitiva e covarde com que os detetives conduzem os repetitivos depoimentos prestados por Marie é nauseante. Independente de ela estar dizendo a verdade ou não, creio que ela merecia ao menos ser escutada com o mínimo de empatia, nesse caso, isso não aconteceu. Entre o seu depoimento junto aos policiais até o exame de violação, Marie foi ao inferno e voltou diversas vezes. A garota se sentiu humilhada, desamparada e desacreditada.

Mais tarde somos apresentados de forma mais detalhada as investigadoras Karen e Grace, ambas empenhadas em desvendar essa série de casos que, de uma forma ou de outra, se interligam. A forma como ambas conduzem a investigação é bem instigante e nos lembra muito o realismo de True Detective. Cada episódio finaliza com um cliffhanger que nos faz querer ver imediatamente o episódio seguinte. É impressionante a qualidade técnica que cada atriz empresta na construção das suas personagens. Wever e Collette possuem uma dinâmica incrível, são envolventes e, por mais que exista uma sobrecarga de informações e textos, tudo é tão bem colocado por ambas que se torna impossível não prender a nossa atenção.

A frustração das investigadoras Duvall e Rasmussen é palpável. As duas investigadoras observam a passagem de tempo e se mostram inconformadas com o fato de ainda não terem informações concretas sobre o criminoso para repassar as vítimas. Mas é exatamente dentro dessa frustração que ambas acabam por procurar o FBI para compartilhar os seus pensamentos e para pedir apoio logístico na elucidação desses crimes.

Com o avançar dos episódios nos deparamos com a degradação emocional de Marie, após ter sua identidade revelada em alguns jornais sensacionalistas, a garota se mostra vulnerável e mais desacreditada, encontrando apoio somente ao lado de Connor, seu ex-namorado, algo que não dura muito tempo. É muito triste e dolorosa a percepção de o quão solitária Marie se encontra, principalmente diante dos desdobramentos da sua suposta falsa denúncia. Ninguém nunca deveria se sentir tão desamparada dessa forma.

Mariska Hargitay (Olivia Benson), Fundadora e Presidente da Joyful Heart Foundation, uma organização que fornece apoio a pessoas que foram agredidas sexualmente disse: “Quando as pessoas são abusadas e agredidas, é como se as portas de suas almas se fechassem. O objetivo do Joyful Heart Foundation é deixar a luz e a vida voltarem – banir as trevas e deixar a cura começar.” Percebo que a minissérie Inacreditável é uma possibilidade de um pequeno vislumbre de luz na vida das incontáveis mulheres vitimadas por algo tão doloroso que, não só machucou os seus corpos, como maculou e aquebrantou os seus espíritos.

Poderia avançar um pouco mais nesse texto, com algumas informações que julgo relevantes e pertinentes, mas certamente comprometeria a experiência imersiva de quem está lendo essa singela crítica e essa não é a minha intenção. O episódio sete, por exemplo, merece essa surpresa por ser emocional, profundo e cheio de reviravoltas, que completam a incrível experiência construída por Inacreditável. Gostaria de incentivá-los a ver essa minissérie, além dela ser imprescindível para as mulheres, por abordar um tema tão oportuno e necessário, Inacreditável lança um olhar comovente e sensível para as sobreviventes de abusos. Esse, sem dúvidas, é o tipo de material que nos faz refletir profundamente, quer sejamos homens ou mulheres, sobre a intrincada sociedade que ainda cultua pensamentos antiquados na hora de culpabilizar a vítima ao invés de apurar os fatos a luz da razão.

Caso queiram ler a publicação original do site ProPublica.org sobre o caso, cliquem aqui.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-inacreditavel-da-netflix-lanca-um-olhar-comovente-e-sensivel-para-as-sobreviventes-de-abusosInacreditável lança um olhar comovente e sensível para as sobreviventes de abusos. Esse, sem dúvidas, é o tipo de material que nos faz refletir profundamente, quer sejamos homens ou mulheres, sobre a intrincada sociedade que ainda cultua pensamentos antiquados na hora de culpabilizar a vítima ao invés de apurar os fatos a luz da razão.