Nos últimos anos é possível perceber uma crescente evolução na categoria de animação televisiva, seja em quantidade de novos shows, quanto em qualidade dos que estão surgindo, principalmente nos serviços de streaming, uma vitrine importante para tais séries. A Netflix é uma das maiores culpadas dessa insurreição animada, produzindo não só maravilhas elaboradas como Bojack Horseman e Midnight Gospel, mas também conteúdos mais esdrúxulos consumidos facilmente.
É nessa segunda leva que se encaixa Hoops, nova animação do serviço com Jake Johnson (eterno Nick de New Girl) dando vida ao protagonista e praticamente carregando a série nas costas durante a temporada inteira. Logo de cara é possível perceber que o seu personagem, Coach Ben, professor do time de basquete de uma HS genérica, só funciona por causa do ator, um claro casamento entre ambos evidenciando a escolha acertada da produção.
Jake cansou de mostrar em New Girl sua capacidade de se tornar extremamente cômico e nada irritante, com direito a gritos, trejeitos e diálogos confusamente agitados. Talvez exatamente por isso que o criador da série, Ben Hoffman, escolheu ator para o papel, pois o treinador é praticamente uma caricatura de Nick, com o seu pavio curto e estrondoso regado pelo recém termino do casamento, daddy issues e fracasso profissional com um time de perebas. É com essa munição em mãos, que Hoops dá as caras para o espectador.

A primeira coisa que se precisa ter em mente é que não estaremos assistindo um primor de roteiro, com plots elaborados e fora da caixa, piadas criativas com camadas adicionais ou até mesmo com um leque amplo de personagens secundários interessantes. Estamos diante de uma animação que propõe apenas fazer rir e se divertir com os recursos básicos que tem: relação imoral e saudável entre adolescentes e sua referência, nem tanto, adulta, com seus episódios de raiva descontrolada auxiliando do uso desgarrado de sua metralhadora verbal.
Esta característica é que mais me saltou aos olhos assistindo os 10 episódios inaugurais, achei o roteiro excelente quando, com moderação, utiliza do artificio de pessoa com temperamento explosivo, sem cair no estereotipo do “old man yelling at the cloud” (sim, Jerry Seinfeld, estou olhando para você e o seu último especial pra Netflix). Confesso ser parcial por amar o Jake desde New Girl, mas a sua atuação como Coach Ben funciona de forma excelente durante a primeira temporada.
O mesmo não pode ser dito sobre o elenco secundário, onde percebe-se a falta de profundidade e elaboração dos mesmos para a própria criação quanto pro desenvolvimento de plots paralelos para variar o humor da série e, consequentemente, tirar toda a responsabilidade cômica das costas do Coach e seus descontrolados ataques de raiva que se multiplicam ao longo dos capítulos.
Infelizmente, tais personagens funcionam exclusivamente quando em participação direta com o Ben ou participando de uma das suas histórias, porém quando cada um vai pilotar o próprio fio de trama, a mesma acaba ficando desinteressante ou simplesmente sem graça, salvo para alguns acertos do roteiro como o passado militar do Ron ou da obsessão do pai do protagonista com seu ex rival dos tempos de escola. Uma pequena parcela de acertos diante de tantas tentativas perdidas de tornar interessante as figuras que devem apoiar o principal.

Desses, o que merece destaque é o conjunto dos garotos treinados por Ben, cada um com sua personalidade e aparência, foram fundamentais pra dar mais combustível para o professor em cada capitulo, variando no ritmo da trama, aprofundando nas piadas internas e tendo mais liberdade para cenas absurdas e engraçadas. São esses garotos que tem a melhor química com o protagonista e conseguem, com as próprias pernas, caminharem seguramente na construção de suas histórias isoladas. Afinal, isso não ocorre por acaso, toda a premissa da série envolve tal relacionamento de forma um tanto quanto genérica: adulto imaturo e desbocado que é uma espécie de líder para um grupo curioso de adolescentes.
Somado a isso, é a grande cartada da comédia em tentar dar uma apimentada na proposta comum, injetando o seu trunfo, o discurso acelerado, sem freio e para maiores de Ben Hopkins sempre que possível.
A inteligência da animação foi de exatamente saber a sua limitação criativa e focar, quase que inteiramente, no Coach e seu time, com pinceladas aqui e acolá da Shannon, Opal, Barry e Ron. A impressão que dá é que a equipe de roteiristas conseguiu criar da forma que desejava o principal e seu arredor próximo, mas dedicou menos na elaboração dos demais secundários, complicando a escoliose do treinador. Eles funcionam muito bem auxiliando no timing cômico e construção de piadas, só que pro protagonista, falhando na hora de sustentar as próprias histórias.
Um exemplo é o episódio 4, em que o ápice divertido ocorreu devido a participação do suposto filho de Ben, basicamente um mini coach, logo ele, a personalidade cômica gravitacional da animação. Outra falha do texto foi na abordagem de um plot bastante comum e explorado nas comedias e que, no final, não acrescentou nada de novo pra trama ou de diferente diante das demais produções já apresentadas.

Hoops não será a melhor série que você irá assistir, mas tão pouco será a pior. É uma produção nua que expõe logo de cara qual é a sua proposta e que não irá fugir disso, que decide concentrar todo o seu arsenal de piadas em algumas categorias sem o tesão explorador de novos terrenos cômicos. Pra assistir a comédia, tem que ter algo em mente: não será um roteiro exuberante e criativo como Rick and Morty, Family Guy ou Bob’s Burgers, mas sim um show para quem gosta de rants engraçadas e fora de hora, além de uma interação imoral e hilária entre um adulto e um grupo de crianças.
Assim como Paradise PD, é uma animação debochada que faz o que quer em termos de linha narrativa e deixar crianças falarem merda o tempo todo, mas é bem menos brilhante, seja nas referências, poderio hilariante ou desenvolvimento dos personagens secundários, é palpável a ausência daquele toque especial de produções mais exaltadas.
A Netflix ainda não se manifestou oficialmente sobre a renovação ou cancelamento da comédia, mas qualquer que seja a decisão, é uma animação que vale a pena ser assistida e apreciada, principalmente se você abaixar as suas expectativas e apenas se divertir ao entrar nessa embarcação lotada de xingamentos e palavrões. Hoops é mais uma boa comédia do catalogo da gigante do streaming, é uma ótima maratona a se fazer, mas não espere que será um primor exuberante de criação cômica.















