É muito complicado classificar a infância como desta ou daquela forma porque as pessoas têm experiências opostas com este período: alguns percebem, em sua lembrança, como um refúgio da vida, enquanto outros classificariam como a pior fase de até então. De uma forma ou de outra, podemos visualizar nesse período um caminho para o aprendizado naquilo que compõe o adulto, suas relações, sua visão de mundo e seus defeitos. A maneira como se aprende pode ser diversa, desde o uso da imaginação para assimilar o conhecimento passado pelos mais velhos, até a realidade da coisa, quando traumas e injustiças acompanham a formação do vocabulário de alguém.
Hilda chegou à Netflix no final de setembro brincando com tudo isso. Ao colocar as lições que sua protagonista aprende como jogos e mistérios, a animação nos mostra alguém constantemente desvendando segredos como quem desvenda a vida. E não daquela forma intocável que coloca o mundo à parte: a obra sobre a infância tem momentos melancólicos, talvez mais perceptíveis aos adultos, e que exibem um contato de sua personagem com a perda, a frustração e a derrota. Para combater essas dificuldades, o roteiro alimenta uma protagonista corajosa, com princípios muito definidos e bem acompanhada por uma mãe zelosa e amigos que tornam a jornada mais fácil de trilhar.

Em treze episódios de vinte e quatro minutos, Hilda é a adaptação da história em quadrinhos do cartunista Luke Pearson, que tem em seu currículo participações em temporadas de A Hora da Aventura (2010-2018), aclamada série da Cartoon Network. Stephanie Simpson, que já desenvolveu diversos roteiros para séries infantis, assina a maioria por aqui. Com o autor trabalhando tão perto, ocupando-se com o roteiro, o desenvolvimento e a produção executiva, temos um trabalho que se expande ao trocar de mídia, mas que desde a aparência acompanha a proposta de seu material de origem.
Começamos nossa história com Hilda e a mãe convivendo no campo, afastadas e sem qualquer outra pessoa por perto. Com seres mágicos por toda a parte, a menina prefere viver assim, mesmo que o isolamento lhe impeça de ter outras crianças com quem brincar. Seu convívio se dá com essas criaturas bondosas (ou não), que possuem reinos dentro deste reino humano. Após incidentes, no entanto, nossa heroína e sua mãe repensam a necessidade de se mudar para a cidade e construir por lá a sua vida.

Entre tantas formas de definir, podemos dizer que a animação retrata a saga de adequação de uma pessoa dentro de uma sociedade. Hilda, como alguém que não desenvolveu essa habilidade de lidar com pessoas, não entende muito bem algumas regras, usando dos ensinamentos maternos e instintivos para classificar no que deve ou não imitar as outras crianças. Como uma figura moral que tem o certo e o errado definidos para si, mesmo que as outras pessoas não percebam dessa forma, a garota vai desvendando essa rotina na vila aos poucos, uma aventura de cada vez.
O que mesmo as pessoas que não gostaram muito do desenvolvimento da produção vão reafirmar é que a série é visualmente deslumbrante. Vemos durante os episódios uma brincadeira com a paleta de cores que vai buscando uma nova forma de colorir a tela, firme à identidade visual que criara para si. A vivacidade que procuramos em histórias assim é construída através desta perspectiva de procurar novos tons dentro daquilo que julgamos como uma cor só. Assim, a animação vai desenhando suas criaturas, suas pessoas e o cenário que a compõem.

Como deixei transparecer, Hilda tem momentos melancólicos, mas nunca se deixa levar por eles. The Midnight Giant, segundo episódio, chega ao auge disso ao falar sobre uma espera frustrada e um desencontro entre duas criaturas que combinaram algo há muito tempo. Hilda assume o papel da resolver o problema, postura que adota nas tarefas seguintes. À nossa heroína, que chega à Netflix em época que as crianças estão se tornando desacostumadas ao ar livre, temos uma constante busca por aventuras. Para ela, o mais importante é o inesperado: o que se aprende através da experiência, do questionamento que se faz frente ao adulto ou do corpo frente ao mundo, e não da maneira tradicional — algo que lhe atrapalha na escola e na relação com os novos amigos.
Além dos gigantes, temos elfos, trolls, pássaros mágicos, espíritos e fantasmas. Estes últimos compõem a constante brincadeira que a série faz com o horror, sendo uma recomendação às crianças que gostam desde cedo deste nosso interesse pelo sobrenatural. Nunca levando este aspecto a sério demais para assustar as crianças, temos uma visão da fantasia que esbarra no sobrenatural, não na investigação do horror em sua tradição. Ou seja, as personagens questionam através do deslumbre e da surpresa aquilo que presenciam, não através do medo como desencadeamento.

Hilda é uma ótima protagonista para se acompanhar. A garota nos mostra diversos aspectos de uma personalidade que vemos complexa. Ela erra o tempo todo, faz diversas confusões quando deixa sua verdade acima daquilo que os outros lhe apontam como tal, coloca os amigos em perigo e nem sempre consegue o que quer. Todos esses aspectos nos aproximam de seus dilemas, por mais inacreditáveis e mágicos que eles se tornem ao longo da jornada.
Vale destacar o relacionamento que a protagonista tem com a mãe, talvez o ser mais encantador da infância da maioria das crianças. A mãe é alguém tentando sobreviver trabalhando em sua área, mas tendo que ceder à realidade de procurar trabalho onde puder para sustentar sua casa. Não há figura paterna por perto (algo que soa bem natural), e sua filha não questiona isso, o que pode ajudar as crianças a visualizarem a família como constituída em diversas configurações. Às vezes rígida na medida esperada, a mãe de Hilda entra nas brincadeiras da filha e costuma acreditar em suas missões e na importância delas.

Frida e David são os dois companheiros de jornada que Hilda faz durante o caminho, o que forma o clássico trio de aventura. Ela é acostumada a seguir regras e a buscar alguma recompensa pelas qualidades, enquanto ele é medroso e tem uma estranha relação com os insetos que não o deixam em paz. A dupla não é condescendente com nossa protagonista, puxando sua orelha aqui e ali pelos planos inconsequentes que elabora e que coloca todos em perigo mais de uma vez. Quando juntos, temos ótimos momentos e uma construção de personalidade forte para que os visualizemos como complemento um do outro.
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No mundo de Hilda, os seres fantásticos não são parte de sua imaginação, mas algo assimilado pela cultura dos humanos. Assim, muitas vezes a cidade inteira enfrenta o mesmo perigo. Além dos muros dela, voltamos à floresta na qual os elfos rabugentos e apaixonados por burocracia vivem, vamos ao cemitério para conversar com fantasmas e descobrimos um mundo que se esconde dentro da casa de todas as pessoas. Ganhamos também cenas com um divertido homem de madeira pouco sociável.

Não só um flerte com o horror e o mistério, gêneros que marcam o projeto no qual esta recomendação aparece quase (quase) clandestinamente, Hilda traz bons questionamentos às personagens e aos telespectadores, convidando-os a descobrir o que está lá fora e se perde por não mais olharmos a vida através destes olhos gulosos de criança. Vale acompanhar sua viagem não só pelo visual encantador que encontramos no caminho, mas por perceber que dentro dos citados gêneros e adicionando-os à aventura, temos uma maratona para desacelerar a nossa rotina — em época que precisamos tanto. Por treze episódios, podemos trocar os nossos medos pelos dela.
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Este post faz parte do terceiro ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.















