Quase despercebidamente, Halt and Catch Fire encerrou sua jornada após quatro anos. Criada pelos iniciantes Christopher Cantwell e Christopher C. Rogers, a série do AMC cativou um pequeno e fiel grupo de fãs. Ao contrário do que a emissora pretendia, a produção não conseguiu ser a sucessora do legado deixado por Mad Men (2007-2015), pelo menos não em audiência.
Sucesso de crítica, Halt and Catch Fire abordou as evoluções do mundo da informática sob a ótima dos quatro protagonistas: Joe MacMillan (Lee Pace), Cameron Howe (Mackenzie Davis), Gordon Clark (Scott McNairy) e Donna Clark (Kerry Bishé). A tecnologia, na verdade, servia apenas como pano de fundo para o desenvolvimento dos dramas e das relações entre os personagens. Apesar da série não ter mais do que 40 episódios, todos tiveram tempo para evoluir e ainda conquistar os espectadores.
Tudo isso por causa do roteiro primoroso escrito pela dupla de novatos. Nas temporadas finais, além de criadores, eles também se tornaram as principais cabeças pensantes por trás da obra. Em especial, neste último ano, foi difícil piscar o olho. Cada diálogo foi muito bem colocado e tinha o porquê de existir, nada de gorduras narrativas por aqui. A cena do telefonema entre Joe e Cameron, logo no início da temporada, teve mais de 10 minutos e não soou chata para quem assistiu, muito pelo contrário. A relação entre eles sempre foi uma das mais fascinantes, a menina prodígio e o caça talentos, que apesar das decisões da vida, sempre acabavam convergindo na mesma história.

Não é a primeira vez que Lee Pace mostra ser um excelente ator, mas aqui pode ter encontrado um dos maiores papeis da vida, não em status, mas sim em relevância e qualidade. Joe MacMillan a primeira vista parece ser o clássico anti-herói, mas no decorrer da jornada conseguimos observar as nuances e características únicas do personagem, como as cicatrizes espalhadas pelo corpo, que não deixam enganar. A bissexualidade dele, por exemplo, é rara de ser ver na televisão americana. Mackenzie Davis, pelo contrário, praticamente ganhou o pontapé inicial da carreira em Halt and Catch Fire e já é uma das atrizes mais promissoras de Hollywood. A programadora problemática demorou, mas finalmente atingiu a maturidade plena. Isso é o que eu chamo de desenvolvimento de personagem, meus amigos. Depois de surtar por sentir que tinha a criatividade limitada com o projeto do Giant na temporada inicial e na saída da Mutiny no ano passado, Cameron se mostrou uma profissional muito mais controlada e consciente. Aqui, após anos no mercado e um casamento mal sucedido, já tinha a expertise suficiente para decidir qual seria o próximo passo. O espírito aventureiro não foi embora, como mostra as cenas finais da série. Basta a nós imaginar o que ela e Donna vão produzir juntas. Difícil não shippar uma amizade entre duas mulheres tão fortes e decididas.
Mesmo com o ritmo lento, característico desse tipo de série voltada ao drama, a sensação foi de que a história andou e andou rápido. Os constantes conflitos e tensões pela disputa da liderança no segmento de navegadores de web, até então inovador, levaram a produção a um patamar narrativo elevado. Elementos de seriados de suspense e ação agregaram ao bom texto e atuações inquestionáveis de HaCF. Donna como figura antagonista dessa temporada trouxe mais uma vez o girl power à tona. Junto com Diane (Annabeth Gish) fazia frente em uma empresa repleta de homens machistas e tradicionalistas. Kerry Bishé imprimiu em Donna um carisma unânime. Com os altos e baixos na vida, muito mais baixos eu diria, Donna só foi se fortalecendo até se tornar a workaholic que nós conhecemos De coadjuvante na primeira temporada, a personagem conquistou espaço e foi logo encabeçando a história no segundo ano. Infelizmente ela e Mackenzie Davis só conseguiram salários igualitários na temporada derradeira.

Ao contrário da ex-esposa, Gordon sempre teve o estigma de orbitar ao redor dos outros protagonistas por ser uma persona mais dependente. Em partes, a história realmente foi conduzida assim, mas é inegável como Scoot McNairy conduziu tão bem o personagem mais ambíguo da série. Frágil e determinado ao mesmo tempo. A cena da morte dele é um exemplo para outras obras da dramaturgia, subjetiva e nada espetacularizada. As filhas Haley (Susanna Skaggs) e Joanie (Kathryn Newton) na adolescência foram uma excelente adição à trama, com personalidades nada obvias e histórias interessantes, que fugiram das tramas juvenis clichê.
A direção não fica por menos, basta perceber como são montados os enquadramentos da série. É como se cada cena fosse milimetricamente pensada para atender a regra dos terços ou ganhar umas molduras entre objetos. Um deleite para os amantes do audiovisual. Na fotografia, Halt and Catch Fire ganha outro destaque, sempre intercalando entre tons de verde, amarelo e vermelho – adaptado para cada situação mostrada e longe de ser algo carregado.
> STRANGER THINGS 2 – Veredito
Nunca é demais agradecer ao AMC por manter uma série com audiência tão baixa durante quatro anos. Pelo menos os criadores conseguiram compensar em qualidade. A cada temporada, a obra foi se superando até entregar um series finale impecável, que vai ficar marcado na história da TV.






















