Os trailers do novo trabalho do cineasta mexicano Guillermo del Toro haviam me deixado com um pé atrás, confesso. E começo esse review dizendo isso para mostrar que, nem sempre o que é vendido é o que teremos em produto final. Minha impressão ao ver as primeiras imagens de A Forma da Água era que seria uma versão 2.0 de qualquer outro filme do diretor. Essencialmente o longa é, de fato, um produto de seu realizador e você sente a mão do realizador a todo momento, porém, dessa vez, não há os excessos estilísticos e maneirismos aplicados, tudo é dosado na medida certa.
Sobre o filme: Eliza é uma zeladora muda que trabalha em um laboratório do governo dos Estados Unidos da América onde um humanóide anfíbio está sendo mantido em cativeiro para análises. Quando Eliza se apaixona pela criatura, ela elabora um plano para soltá-lo com a ajuda do seu vizinho.
A premissa básica de garota conhece garoto; garota se apaixona pelo garoto; garota faz de tudo para ficar com o garoto; tirando o fato de que o garoto é um homem-peixe de dois metros e meio de altura.
Sally Hawkins leva o filme com maestria o tempo todo. Sem ter um dos principais instrumentos para sua performance, conseguimos nos relacionar quase que de imediato com Eliza, acompanhando sua rotina, conhecendo seus amigos e seus sonhos. A espantosa expressividade no olhar da moça nos leva a repensar como enxergamos os outros, como nunca paramos para analisar a vida de outra pessoa como ela de fato o é e não por meras suposições. Acompanhar Eliza em sua jornada, mesmo que por apenas duas horas, é um exercício de reflexão.

A construção do relacionamento de Eliza com seu anfíbio (interpretado, como já habitual, por Doug Jones) é de um primor sem igual: privada pelo ferimento em suas cordas vocais ainda criança, a heroína se conecta com ele de forma sucinta, através de sons, da música, de gestos… Vemos que toda a compaixão e amabilidade da protagonista em olhar aquele outro ser como um igual, apesar da casca diferente, vem de ela mesma se enxergar na pele dele. Eliza é julgada e desdenhada por diversas vezes apenas pelo fato de não poder falar, por não se encaixar no dito “normal”. A inferiorização que a personagem sofre está presente em diversas passagens, seja com ações completas e composições de cenas, seja nos diálogos que alguns proferem ao decorrer do longa.
E por falar em personagens, o elenco de apoio é acertado em seus momentos. Temos vislumbres da vida de cada um: o vizinho ilustrador Giles (Richard Jenkins), apaixonado por musicais e que compra tortas apenas para flertar com o atendente bonitão da loja; Zelda (Octavia Spencer), a melhor amiga que não para de falar um segundo sobre as dificuldades que passa como mulher negra e com um marido que é peça figurativa; Hoffstettler (Michael Sthulbarg), um homem da ciência dividido entre sua ética e seu dever com o país, preso no meio da politicagem e de mãos atadas a fazer a coisa certa e finalmente Strickland (Michael Shannon), um vilão que só se torna aquilo por ser quem é, obcecado com conquistar mais e subir na hierarquia do exército.
Cada uma das sub-tramas nos dá um ponto de reflexão:
– Giles fica fascinado com o atendente bonitão da loja de tortas, ele é o arquétipo da perfeição, porém, em determinado momento, vemos a verdadeira faceta do personagem e em contraponto a isso, vemos o flerte de Eliza e o anfíbio, tão puro e doce, mesmo taxados como abrerrações.
– Zelda ainda sofre a repressão de ser negra e mulher, assumindo responsabilidades num mundo onde a Guerra Fria é uma verdade e onde o racismo ainda é uma verdade absoluta. Assim como Eliza, Zelda assume as rédeas de sua vida, porém, ainda é estigmatizada pela sociedade apenas por ser ela.
– Hoffstettler é o contraponto do que normalmente vemos no cinema, ele não é um vilão, ele é humanizado o suficiente para ver o quão magnífica a Forma pode ser e em como está preso a ordens que recebe. É um jogo de ética e moral.
– Strickland é a personificação do Oficial do Exército Norte Americano: bruto, selvagem, sádico, obcecado e sistemático. Encaro isso como uma grande crítica as pessoas que são formadas por esse sistema, onde a compaixão fica abaixo do dever, onde a crueldade consegue prevalecer diante do desconhecido.
Del Toro brinca muito com os arquétipos nessa jornada, o mau que não é tão mau assim, a princesa que não precisa ser salva e não é tão pura, a fera que só quer ser compreendida, o apoio que precisa constantemente ser apoiado…

Na parte técnica o filme é um primor: a reconstrução da época com homenagens aos anos 1950 do Design de Produção enche os olhos e trabalha de forma magistral com a Fotografia, extremamente bem iluminada e certeira na escolha da composição de cores. Palmas também para as cenas filmadas debaixo d’água que são de uma dificuldade ímpar e tão bem finalizadas que nos leva a perguntar como a equipe do diretor conseguiu tal feito.
A trilha sonora de Alexandre Desplat, premiada com o Globo de Ouro e favorita ao Oscar também embala e ambienta o filme no ponto certo, sem parecer datada ou excessiva.
O último ponto dessa experiência é a excelência com qual é feita a Criatura. Num misto de maquiagem, efeitos práticos e efeitos visuais, tudo nela enche os olhos e deslumbra, encanta.
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O novo conto de fadas sombrio de Del Toro vale cada minuto e merece ser visto na maior tela possível, o calorzinho no coração é garantido no fim da sessão!






















