Há certo tempo, eu tive uma experiência estranha. Vi uma foto na internet de duas pessoas fazendo uma coisa cruel. Não havia violência física/explícita na foto, mas uma idealização da violência; ou, podemos chamar, uma violência ideológica. Esta, imortalizada em seu momento de performance, não foi o que eu achei estranho. Estamos meio insensíveis com a violência ou a tragédia alheia em geral — e mesmo os mais sensíveis têm acesso a tantas imagens chocantes nesse mundo que se documenta e se reproduz das redes sociais que acaba, cedo ou tarde, anestesiado. O grande impacto foi que, ao olhar os homens na foto, sorrindo diante de um ato, eu esqueci que eles eram humanos, homens, pessoas. A cena, por um momento, perdeu o significado, aquela decodificação que o cérebro faz para te informar o que você assiste. Por um momento, foi tão irreal e absurdo que meu cérebro fez uma negação do fato e me fez crer que não eram pessoas; aquilo não era um ato humano.

Conversando com amigos, após, eu cheguei à conclusão de que esse espanto surge quando não conseguimos nos colocar minimamente naquele lugar de ato, imaginar-nos, de algumas forma, praticando o que o outro faz. Tem a ver com sensibilidade, empatia. Tem a ver, além, com os princípios que elaboramos para definir aquilo que é humano e aquilo que é o monstro. Os dois aspectos e a linha tão apagada que os separa formam um tema recorrente dentro do horror. Diria da literatura em geral, mas nosso foco aqui é o gênero. Como mencionei no artigo que abriu esse especial no ano passado, a ficção do horror nesta década passa por um momento de colocar as lentes da câmera diante de vários tipos de monstros diferentes. No que eu propus, temos aquele oculto, o sem rosto, o presente (coadjuvante), o protagonista e o humano, nós como monstros. Esse “nós” não se refere ao sobrenatural, mas como os homens entram e saem da moldura que utilizamos para o denominar de homem, e não de monstro.

Dororo.

A moldura que eu cito é desenhada por algumas regras. Digo, nós compomos esse humano através de uma série de itens que ele precisa ter. É preciso que consigamos ver algo além do amor ou além do ódio em uma personagem, por exemplo, para que nós consigamos atestá-la como humana dentro de uma narrativa, não um arquétipo criado na sala dos roteiristas. Com pessoas eu diria que aplicamos esse mesmo teste de verossimilhança. Um dos aspectos que nos ajuda é o mais lógico da coisa: o corpo. É humano o que tem corpo de homem. É ser vivo o que tem corpo de ser vivo. É objeto o que tem corpo de objeto. No mundo da ficção, onde o sobrenatural é explorado, é demônio aquilo que não tem corpo de homem ou o deforma de alguma forma — olhos totalmente escuros, flexibilidade anormal e língua distante da língua do grupo a qual aquela pessoa pertence são formas de representar essa deformação. Então, tecnicamente, fica muito fácil separar os dois, obedecendo apenas esta regra: o corpo (ou o que o corpo faz) os separa.

Mas e se o corpo não for o bastante? E se o corpo do homem não for suficiente para que digamos que ele não é um monstro? Já se perguntava Clarice Lispector, disfarçada de um narrador cruel: “sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?”. A pergunta da autora, que nos deixou questionamentos impossíveis de se responder, mas essenciais de se fazer, entra em nossa discussão para voltarmos ao meu exemplo lá no começo. Uma pessoa fotografada, com sorriso e corpo de pessoa, prova-se como humana diante de nós? Ou é seu ato, aquilo que faz na foto que vai definir isso? Em Dororo, percebemos que a violência presente na foto é que vai determinar se há um demônio ou se há um homem sorrindo pra gente.

Dororo.

Dororo estreou em janeiro deste ano nos canais Tokyo MX, BS11 e Jidaieki Senmon Channel no Japão. Com vinte e quatro episódios, o anime permaneceu como atração durante o primeiro semestre. Ele é baseado no mangá homônimo de Osamu Tezuka. Não é a primeira adaptação, e elas divergem do material de origem, mas, como só assisti a esta nova versão, fico devendo um estudo comparativo entre as mídias. A distribuição internacional é da Prime Video — ou seja, temos no catálogo brasileiro.

Nossa história começa com um pouco (ou muito) de Édipo: temos um bebê que precisa ser sacrificado por seu pai, mas sobrevive graças à piedade alheia. A diferença é que aqui, o pai do bebê fez um pacto com o demônio e vendeu o corpo do filho, que nasce cego, sem braços, pernas e outros membros. Essa vítima é Hyakkimaru. O garoto cresce, a despeito de todas essas dificuldades, e utiliza próteses para se locomover. Elas não impedem, no entanto, que ele se torne um guerreiro ágil e experiente, que combate demônios. Sua jornada esbarra na de Dororo, menino órfão que perdeu os pais recentemente e vaga por aí aprontando para sobreviver. Ambos encontrarão nessa amizade o ponto de partida para conseguirem se sensibilizar e não se esquecerem do fator humano em um mundo em guerra.

Dororo.

Logo no fim do primeiro episódio, aprendemos que o corpo de nosso guerreiro pode ser recuperado. Conforme vai matando demônios, os mesmo que devoraram partes do bebê, o jovem vai tomando de volta o que é seu — os membros começam a nascer de forma dolorosa. Se Hya não parece humano à primeira vista, a possibilidade do humano se mostra nisso. Se o humano se prova através do corpo, aquilo que lhe falta, ser um humano não está tão longe de seu destino. Recuperar seu corpo, no entanto, só é possível através da violência, através da chacina do sobrenatural. Até aí, nenhum problema, afinal, a maioria dos demônios da história devoram homens no dia a dia. Mas, em um mundo povoado por criaturas assim, há constantes acordos entre sociedades e demônios, sendo muitas vezes necessário que se passe por cima de um para alcançar o outro.

É nesse ponto que a grande reflexão do anime nos alcança. Hya, aos olhos de Dororo, que o acompanha pelo caminho, vai deixando de ser humano por se entregar cegamente à busca do sangue alheio. As discussão sobre isso são boa parte do tempo subentendidas, mas não ficamos apenas nesse plano. O protagonista se pergunta, com todos os pontos de interrogação, o que compõe uma pessoa. Quando encontra seu parceiro mirim, o guerreiro não tinha corpo, sendo uma figura que apenas assustava as pessoas, mas não creio que isso seja o que o tirava esse aspecto: Hya era apenas algo, insensível ao mundo a sua volta, farejando demônios por onde andava. Havia tido um contato com o homem que o criara, mas isso não foi suficiente para lhe apresentar as diversas camadas de empatia e de generosidade que compõe a paleta de sentimentos humanos.

Dororo.

É ai que entra Dororo.

Eu diria que a amizade entre os dois é a melhor coisa da produção, mas há tanta coisa para se elogiar que fica difícil apontar isso. De qualquer forma, percebemos que a forma como o contato se dá engrandece os temas ricos já trazidos no roteiro. Dororo precisa de amparo, de figuras mais velhas, pois está passando por dois processos importantes e difíceis para uma criança: o luto e o amadurecimento. Enquanto está em contato com a morte e a miséria, Dororo também se desenvolve como pessoa, mas faz isso, lá no princípio, desacompanhado, indefeso. Hyakkimaru é quase um irmão mais velho.

Para o guerreiro, é Dororo que apresenta a humanidade, as noções de amizade, carinho, respeito ou mesmo a malícia necessária em um cenário onde a fome é uma constante possibilidade. Com os pequenos defeitos e as grandes qualidades, Dororo praticamente o forma como humano — e poderíamos esticar a discussão para o quão inusitado é perceber isso, mas há um grande spoiler que não me permite elaborar a respeito.

Dororo.

O anime se apoia muito no senso de aventura. A jornada é composta por “histórias” — cada capítulo se chama “a história de…”. É um conjunto de narrativas, portanto. Ganhamos um conjunto de histórias, uma forma utilizada para constituir muitas narrativas literárias clássicas. Em cada momento, temos um ensinamento diferente, uma moral diferente. A mente se forma durante essa viagem. Isto é, em certo episódio aprendemos sobre compaixão, em outro sobre honestidade, em outro sobre ganância e assim vai se construindo o mundo racional como o temos até hoje.

Temos ótimas personagens secundárias. Tahōmaru, irmão de Hya, foi criado anos depois que o primogênito foi sacrificado e a terra de seu pai voltou a prosperar. Solitário, rancoroso e violento, ele representa a herança de todos os males que foram semeados em sua terra em nome da boa ventura de seu povo. Tahōmaru tem a ideologia distorcida do pai, ou pelo menos a assume conforme vemos seu desenvolvimento. Este, aliás, é interessante de acompanharmos se desdobrar, assim como os dois protagonistas.

Dororo (2019)
Dororo.

Jukai é o pai de criação de Hyakkimaru. Ele cria próteses para aqueles que tiveram seus corpos mutilados na guerra. No episódio dedicado à sua história, o terceiro, aprendemos que seu trabalho é uma forma de se redimir de sua participação nesses conflitos. Com ele, aprendemos o que constitui um pai, mesmo que essa palavra só seja dita muito depois. Biwa-Hōshi é um sábio cego que aparece em momentos pontuais para compartilhar reflexões com as personagens. Há uma sensação de que nunca conhecemos o bastante sobre ele, o que desenha uma aura de mistério a seu redor.

Nuinokata, mãe de Hya, lembra-nos novamente de como a história do anime toca a peça de Sófocles. Vale lembrar que ela fora obrigada a abrir mão do filho e vive numa sociedade em que suas opiniões não são ouvidas. Além deles, temos outras personagens recorrentes ou que têm participações pontuais, sempre interessantes. Kagemitsu, pai de Hya e senhor das terras que governa depois do sacrifício, traz questões complexas, sem nunca parecer unilateral. Ele é perseguido pela crise causada pela miséria, pela fome — então, lá no fundo, mesmo que por um instante, nós o compreendemos.

Dororo.

Dororo tem muitas aventuras, algo que se sobressai boa parte das vezes à temática do horror, explicando na prática o termo “fantasia sombria”, que pode ser associado ao anime. Mesmo com temas tão pesados, criando tantas vezes a atmosfera da guerra e sua devastação pela nação, não acredito que seja melancólico. Temos momentos tristes, mas não diria que permanecemos nesse tom por um período suficiente para dizer que ele se sobressai à ação ou mesmo aos debates existenciais da narrativa. Aliás, sobre eles, fico feliz que o roteiro chegue a boas conclusões, longe do óbvio que nos faria associar o corpo recuperado ao não-humano, enquanto o corpo incompleto seria o humano disfarçado. Não é tão simples assim. Como eu disse lá no início, a aparência não prova nada além do que é aparente. E temos diversos episódios investidos na ideia de que o que é aparente nem sempre é verdadeiro — há criaturas boas em situações ruins enquanto há criaturas ruins disfarçadas de bons hóspedes.

Dororo.

O guerreiro de Dororo, que começa sem rosto, sem voz e sem visão, vai tomando posse de seu corpo aos poucos. O anime assume essa postura como um todo, trazendo aos poucos os assuntos que quer abordar. A sensibilidade alcança essa história só no momento certo. A amizade dos protagonistas vai se fazendo aos poucos. Os segredos do passado de Dororo também. Ou seja, quase um trabalho manual muito delicado para que tenhamos um final tão completo quanto o apresentado. A família que Hyakkimaru forma na estrada é o que torna humano, e as boas decisões na narrativa é o que tornam o anime uma recomendação segura. É tão violento quanto parece ser a luta para se manter humano em um mundo atualmente desumano.

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PS:

(1)

Quem assistiu ao anime deve ter percebido que durante o texto eu não fiz uma revelação sobre uma das personagens. Foi de propósito, e peço que a gente mantenha essa discussão sem spoilers nos comentários. Comentários com esse spoiler serão apagados.

(2)

Num texto que já se ameaçava como grande, eu não trouxe a “questão da posse” dentro do horror, algo que eu mencionei lá no texto sobre horror como metáfora. Eu disse que essa é a metáfora para o horror contemporâneo, sobre aquilo que me pertence e é ameaçado pelo sobrenatural. Em Dororo, quando perguntado sobre por que deseja recuperar seu corpo, Hyakkimaru apenas responde “porque é meu”. Além de uma resposta maravilhosa, é, portanto, um bom exemplo da teoria que eu defendi naquele artigo.

(3)

Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-dororo-a-desumanizacao-de-personagens-nao-humanasAs boas decisões na narrativa é o que tornam o anime uma recomendação segura. É tão violento quanto parece ser a luta para se manter humano em um mundo atualmente desumano.