Nem só de Black Mirror vive o catálogo da Netflix. Isto é, não somente daquela série deprimente que nos deixa, em seus melhores episódios, questionando o absurdo da vida é composta a grande lista de produções do serviço de streaming. Falando de antologias voltadas para este horror, de alguma forma, já tivemos a animação Tales from the Cryptkeeper (1995-1998), que fazia uma adaptação da série original (Crypt) para o público infantil. Não mais disponível atualmente, temos representada a categoria de coleção de histórias assustadoras voltadas a crianças com Goosebumps (1995-1998), série canadense que adapta os contos do escritor norte-americano R. L. Stine. Para fazer companhia a tal série e dar mais corpo à coleção do macabro dentro do universo infantojuvenil, ganhamos, neste último dia 4, Diário de Horrores.

Diário de Horrores (Creeped Out) chega ao Brasil quase um ano depois de sua estreia lá fora. A série é uma co-produção entre o Canadá e o Reino Unido, estreando nos canais CBBC e Family Channel no começo de outubro de 2017. Aqui temos treze episódios de vinte e poucos minutos, nos quais a história se desenvolve em enredos particulares, com quase nenhuma (já explico) relação entre eles. Voltada ao sobrenatural e ao mistério, esbarramos nas mais diversas criaturas e nas mais diversas protagonistas. As tramas, que não deixam de se comprometer com o bizarro, exploram os aspectos da vida através de um estudo moral de suas personagens, crianças e adolescentes. Com esses ensinamentos por trás de cada seguimento, podemos fazer uma relação entre o que é feito aqui e a origem dos contos de fadas, nas versões mais antigas, quando as crianças eram ensinadas a partir do medo.

A direção dos episódios está, em sua maioria, assinada por Steve Hughes, que tem se envolvido bastante com séries de mistério e fantasia nos últimos anos, além de programas voltados à família, o que lhe proporciona experiência para transpor os roteiros. Os episódios restantes são dirigidos por Bruce McDonald, que compartilha da mesma experiência, transitando entre filmes e séries que dialogam com o horror e a fantasia. Os roteiros são, quase que totalmente, dos criadores Bede Blake e Robert Butler, que apontam a tradição da lenda urbana como referência ao material — algo bem perceptível aos que já maratonaram a série.

Para avaliar o desenvolvimento dos episódios, precisamos, é claro, colocar-nos como parte do público alvo. Isso não nos impede de apontar defeitos dentro da construção da narrativa, nos desfechos ou demais aspectos técnicos. Mas devemos partir da certeza de que não dá para nós, principalmente quando adultos, sairmos de um episódio de Inside No. 9, excelente antologia britânica, e querer procurar no seriado deste post os mesmos efeitos ou a mesma condução. Dá, no máximo, e com indesculpável malícia, comparar com outras produções. A saudosa Are You Afraid of the Dark? dos anos noventa pode entrar na conta. Mais corajosa e mais criativa, esta série da Nickelodeon é um bom motivo para olharmos desconfiados por aqui, para não perdoarmos tudo.

Confirmada para a segunda temporada, que estreia daqui a pouco em suas emissoras de origem, os episódios desta primeira safra nem sempre nos presenteiam com universos empolgantes. Há um contato com o que o horror vem apresentando ao público nos últimos anos para encaixar a produção dentro de sua categoria. Ou seja, Creeped tenta se provar como parte de um grupo, sem buscar inovações que a destaquem de alguma forma. Além disso, vemos muita relação com a internet e a tecnologia, o que torna as histórias mais relacionáveis aos jovens telespectadores.

O que os episódios tentam fazer é dar personalidade às suas protagonistas. As crianças e adolescentes aqui retratados têm defeitos e qualidades, não caindo naquele perigoso arquétipo de personagens rasas que não são aprofundadas com a desculpa de que o tempo é curto. Assim, se temos condenáveis atitudes daqueles que acompanhamos, temos também diversos aspectos explorados para contrapor essa questão, como carência e solidão, entre outros.

Para costurar todos os contos, temos uma narradora com um texto bobo, mas com uma boa personagem, The Curious, que é um ser que vaga por aí coletando histórias. A personagem tem uma ótima máscara e o mistério que é mantido sobre sua identidade e sua história deixam suas cenas instigantes, mesmo que nunca o tenhamos como parte da história ou conversando diretamente conosco, como nas séries citadas acima, nas quais ou o narrador se reporta ao telespectador ou às personagens para quem conta a história.

A Primeira Temporada de Diário de Horrores:

Assim como Philip K Dick’s Electric Dreams na Amazon, a Netflix trocou a ordem dos episódios:

Pela Netflix, abrimos com Marti (Amigo Virtual), episódio sobre uma garota viciada no mundo virtual de seu celular, mas que não consegue se enturmar com os colegas mais populares da escola, sendo renegada a dividir seu cotidiano com uma amiga. Tudo muda quando vê uma propaganda que lhe oferece um novo modelo de celular que promete resolver este problema. Ao adquirir o produto e conceder acesso a todos os seus dados, ela percebe que ele tem vida própria (algo próximo daquele filme Her, sabe? Ou de um episódio da divertida Dimension 404).

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Em Slapstick (Teatro de Bonecos), Jessie encontra por acaso um show de bonecos na praia, perto de onde mora, cujo personagem central lhe oferece a oportunidade de controlar o comportamento dos pais, que lhe envergonham o tempo todo e não conseguem oferecer o padrão de vida que imagina precisar. Aqui vemos um vislumbre do que as antologias clássicas costumam oferecer, não só na relação de pacto entre a personagem e a criatura retratada, mas ao lhe colocar em um ambiente de fantasia e possibilidades infinitas — geralmente lojas de artigos diversos.

Kindlesticks (Difícil de Assustar) se destaca por suas reviravoltas e por fazer tão bem o que fora apontado parágrafos atrás. Esme, uma babá terrível, costuma assustar os filhos de sua clientela, obrigando-os a ir dormir enquanto assume a casa vazia para convidar o menino por quem é apaixonada. Ele não lhe dá muita bola, e é constrangedor assistir às suas investidas. Tudo muda quando em determinada noite ela tenta convencer uma criança sobre a existência de uma criatura, mas o menino em questão tem uma história pior para contar.

Bravery Badge (Medalha de Coragem) poderia facilmente ser um episódio de Are You Afraid por conta de seu ambiente, de sua proposta e do rápido desenvolvimento de sua trama. Aqui acompanhamos uma nova garota em um acampamento que valoriza muito suas integrantes, concedendo-lhes medalhas. Algo estranho acontece com o lugar no qual decidiram montar suas barracas: uma praga estranha que começa a contaminar as garotas, uma por uma.

Cat Food (Comida de Gato) é possivelmente o melhor episódio da temporada. Inspirado no clássico Janela Indiscreta (1954, Alfred Hitchcock), a trama acompanha um garoto muito esperto que usa sua inteligência para trapacear pela vida, desde jogos até na mentira levantada para não ir à escola. Num dia que fica em casa com essa desculpa, assiste à vizinha, uma velhinha, comportar-se de modo muito estranho.

Trolled (O terror da Internet) tem um protagonista difícil de odiar — ou pelo menos difícil para mim. Isso porque todos os seus atos condenáveis, movidos pela inveja que sente dos colegas de escola, vem de um complexo de inferioridade que tem origem na sua condição ali dentro. É mais um exemplo de um jogo moral estabelecido entre aquele que erra e a entidade responsável por fazer justiça: ele tem a oportunidade de reverter o castigo em si ou pagar um preço caro demais pelas brincadeiras cruéis.

Shed No Fear (A Cabana) aborda a amizade como possibilidade de enfrentar o medo e as dificuldades da vida. No enredo, Greg e Dave, antigos amigos, juntam-se para enfrentar um mal guardado no barracão de sua tia. The Call (O Chamado) talvez tenha a pior protagonista da temporada, mas traz um diálogo interessante sobre influência que pode ser aproveitado por nós. Nele, temos uma garota que descobre um dom que talvez lhe destaque entre os colegas da escola e seja o motivo para que decidam aparecer em sua festa de aniversário.

A Boy Called Red (Uma Amizade no Passado) e The Traveller (O Viajante) exploram a relação familiar através de aspectos diferentes. No primeiro, temos um garoto querendo se aproximar de seu pai, algo que só é possível ao voltar no tempo e se encontrar com ele quando criança. No segundo, vemos uma garota problemática que tem dado muita dor de cabeça a sua mãe. Ao descobrir uma máquina que para o tempo, em vez de conseguir se livrar de vez das punições, ela percebe que é momento de encarar as consequências de suas ações.

Spaceman (O Homem do Espaço) fala novamente sobre amizade, mas desvia para o preconceito na abordagem: vemos como as relações entre as pessoas podem ser afetadas por essas concepções que fazemos delas antes de as conhecermos de verdade. No episódio, Spud e Thomas descobrem uma tecnologia espacial na floresta perto de casa que guarda um passageiro que precisa da ajuda deles.

Os dois últimos episódios contam uma única história, dividida em duas partes. Side Show (Show à Parte) cria um interessante universo e tem talvez a melhor surpresa da temporada. Nele, vemos personagens com dons mágicos que vivem dentro de um circo. O grupo tem poucas lembranças, ligadas a um abandono que sofreram de sua antiga família. Guardados pelo estranho dono do lugar, todos começam a duvidar sobre o motivo de estarem ali.

As histórias que compõem a primeira temporada de Diário de Horrores formam uma boa base para o futuro da série, podendo entreter tanto seu público alvo quanto os adultos mais desapegados com questões maiores. Há boas surpresas dentro dos enredos e que sustentam uma maratona que pode ser dividida com os menores, principalmente com aquelas crianças que, assim como eu, sempre foram apaixonadas por histórias de horror e sua jornada no audiovisual.

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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-diario-de-horrores-mira-nos-mais-jovens-mas-pode-divertir-adultos-tambemAs histórias que compõem a primeira temporada de Diário de Horrores formam uma boa base para o futuro da série, podendo entreter tanto seu público alvo quanto os adultos mais desapegados com questões maiores.