Depois de ir ao futuro com Futurama e acertar no presente com Os Simpsons, Matt Groening decide voltar ao passado com (Des)encanto. E em sua primeira série de animação desenvolvida para a Netflix, ele enfrenta aqui, um vilão imbatível e assustador: o monstro da expectativa.
Não é fácil ser a irmã mais nova da série de tv americana mais longa da história e é por isso que as semelhanças entre elas terminam no design dos personagens (difícil olhar pro Elfo sem lembrar do Bart). (Des)encanto segue por um caminho diferente e apresenta uma história divertida, dramática, melancólica e profundamente existencial. Explorando a atmosfera medieval e fantasiosa, inspirado por clássicos como O Senhor dos Anéis e Game of Thrones.
E apesar de a narrativa estar no lugar certo, os episódios são muito longos e o ritmo dos pode ser o calcanhar de Aquiles dessa boa produção. O primeiro episódio, que carrega quase 40 minutos de tela, é eficiente, mas depois dele o restante da temporada que segue lento e a sensação é de que a história se arrasta.
A narrativa se comporta como um cachorro correndo atrás do próprio rabo e poderia ser resolvida com seis episódios e não dez. Cansa ver a protagonista caindo na sarjeta da bebida em repetidas situações que não dão em nada. O arco principal só volta a ser abordado nos últimos quatro episódios da temporada e quando a história passa a ser desenvolvida, ela cresce e justifica a trama.

Bean não é uma princesa convencional. É irresponsável, alcoólatra e não leva desaforo pra casa. Ela ousa romper com os padrões estabelecido do gênero, mas passa quase o tempo todo perdida e cometendo erros bobos durante toda a temporada. O que era pra ser uma jornada de descoberta e reafirmação, acaba murchando quando a reviravolta final se revela e coloca Bean como apenas uma peça no projeto de outros personagens.
Perdida e sem saber o que fazer, ela tem (literalmente) um diabinho e um anjinho elfo sussurrando e direcionando seus movimentos. Luci, é um demônio niilista e irônico, e Elfo é um elfo que não se encaixa dentro de seu mundo. Os três acabam desenvolvendo uma amizade confusa e disfuncional.
A bondade dos personagens é volátil e serve ao momento da trama. Quando necessário, Luci é bonzinho e ajuda a salvar todo mundo. Quando não, embebeda a “amiga” e quer ver o circo pegar fogo. O Elfo é muito mal e rebelde no mundo dos elfos, mas no mundo dos humanos é super bonzinho e feliz. Personalidades inconstantes dificultam o apego ao trio principal e a grande decisão que ela toma no final, quase sem titubear, deveria ser mais pesada em termos dramáticos, principalmente se amizade com o Elfo fosse importante.
A trama ainda conta com algumas mulheres coadjuvantes que são incríveis, mesmo tendo muito pouco tempo de tela, como a Grifo (melhor personagem), a ama Benta (que tem seu espaço no episódio da sua família), a fada prostituta (que aparece muito pouco), a Gigante Tess (e seu olho de vidro) e até mesmo a madrasta Oon (meio humana e meio anfíbia).
> SPOILER É PECADO? 🤬 feat Carol Moreira!
A criação do universo é bem construída apesar de alguns tropeços, mas a decisão de incluir a casa de João e Maria, por exemplo, é desnecessária e fora do formato de paródia adotado. Um acerto importante que vale ser citado é a liberdade da equipe de dublagem brasileira, que insere memes e consegue arrancar rizadas em momentos que não funcionam tão bem em inglês.
https://www.facebook.com/netflixbrasil/videos/1994399967517535/?hc_ref=ARTyvkZup6Or8vMcZrWJdtGhRiELQOQVZvAf7Lg7A475zaue3ZrucH9K6-HNnLI0PcM&__xts__[0]=68.ARATu1u8Eactx1kZhYR2P1_hxEfHsiCKPqaOYRrYaejBNMsdyt4VjbXk0kRZeSQZrcxXu4X-G5nqDwsXO4TnPmCrm2bN5cd_3ilFr0sjMbzZsL-6jLzAdGsPrFniHgWRRdY6tHCm6rdiC2WZXf_LyGMYbb5p66d6ScZVq6Pya9tFmzjpwAyyWQ&__tn__=FC-R&fb_dtsg_ag=AdxiiAC1GRe5DqSax4ru3CSZJPjR8FgYRBpxySJvd0hgXg%3AAdxUZRaQwipcfbr4kIYciTiEvxde-bTKWq_sVqZKHUu1Aw
(Des)encanto conta uma história interessante, mas termina a temporada com um plot twist que acaba anulando muito do que foi construído. A reviravolta é boa, mas é preciso coragem e certeza de que as pessoas vão investir em uma segunda temporada pra entender aonde eles querem chegar. Uma trama que espelha bem sua protagonista: confusa, inconsistente e irônica, mas com um bom coração. A paródia melancólica funciona quando quer ser crítica e ácida, mas vacila quando força graça onde não tem.
















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