Lembro quando a Netflix anunciou a “iniciativa Defensores”, em que quatro heróis urbanos da Marvel se uniriam em uma minissérie ao estilo Vingadores, para trazer uma experiência bem próxima das histórias em quadrinhos, mas através de um viés mais sombrio. A expectativa aumentou após a primeira temporada de Demolidor, e o potencial de Jessica Jones, felizmente a parte do crossover que mais funcionou, trabalhou positivamente. Luke Cage não conseguiu se encaixar tanto, especialmente após uma temporada de estreia tão diferente das outras duas, mas o poder estava ali. Foi com Punho de Ferro, porém, que as coisas desandaram de vez. Como a série dos Defensores já estava concluída quando o publico reagiu ao Danny Rand, não dava mais tempo de corrigir e o resto vocês já sabem.

A verdade é que Elektra e também o Tentáculo destruíram lentamente esse universo coeso. Se pudéssemos traçar uma linha do tempo e montar um quadro ao melhor estilo “quem é o assassino?”, definitivamente encontraríamos a pessoa que considerou, lá na concepção deste mundo urbano, que ninjas seriam a melhor opção para o grande vilão que uniria esses quatro heróis. Lentamente acompanhamos e sofremos enquanto The Hand corrosivamente apagava bons personagens e influenciava negativamente os rumos dessas produções.

Exatamente por esse motivo a terceira temporada de Demolidor praticamente esqueceu dos eventos do confronto com Elektra, tanto em Daredevil quanto em Defenders. A série começa imediatamente após os eventos do Midland Circle, e não teria como não o fazer, mas tirando esse “detalhe”, nada do que veio depois se conectou a destruição do prédio, a morte da Elektra (que nem é mencionada), ou as hordas de ninjas mortos vivos. E o time criativo fez bem ao desprezar essa avalanche de decisões ruins.

Inspirado livremente no arco Born Again, em português “A Queda de Murdock”, Demolidor se aproximou bastante da sua primeira temporada, não apenas pela roupa preta do Matt (que funciona bem mais para a proposta do herói), mas também pela sensação de recriação e reintrodução de seus personagens. Karen, após muita antecipação, teve seu flashback apresentado, em um episódio competente e com uma conclusão bem forte – infelizmente um sentimento que o season finale não conseguiu reproduzir. De maneira geral, porém, o trabalho do time criativo da série foi em realmente adaptar o “born again/nascido de novo”, como regra, para todos estes – talvez em menor dose para o Foggy, que operou como suporte, mas alguém precisava de um passado um pouco mais tranquilo e menos conturbado. Nem todo mundo pode ter uma origem de super-herói guardada no banco da memória, não é mesmo? E mesmo assim, até a história do advogado tentando ser promotor, mesmo que para se safar do Fisk, conseguiu me interessar bem mais do que a trama do “nós odiamos o Matt” da temporada passada.

Demolidor
Demolidor

E quando consideramos o renascimento, para o bem e para o mal, o personagem que recebeu o melhor tratamento do roteiro, nesta temporada, foi o vilão conhecido como Mercenário. Dex Poindexter, introduzido como um agente do FBI, é um homem com tendências psicopáticas, que encontrou em Wilson Fisk o apoio e a manipulação necessários para transformá-lo em um dos melhores antagonistas já apresentados pela série. Toda a sua história de origem apresentada em vários episódios foi bem conduzida, passando pelos seus transtornos até chegarmos em sua obsessão. Novamente esbarrei em um problema de conclusão, com a reprodução da mulher na geladeira indo ao limite do cômico, mas de sua apresentação enquanto protegia o comboio do Fisk, até seu ataque ao jornal, me surpreendi bastante.

Outro vilão que funcionou muito bem, especialmente pela história e pela maneira que a série decidiu lidar com sua presença, foi Wilson Fisk. Aqui, contudo, tenho algumas ressalvas. Fisk, assim como Matt, recebeu um arco de redenção/renascimento. Diferente do nosso protetor da Cozinha do Inferno, porém, ele seguiu um padrão inverso. Fisk começou a conquistar novamente seu poder, enquanto Matt lentamente perdia o seu, assim como sua crença e fé. Contudo, Matt se tornava mais interessante a cada questionamento, ao passo que Wilson se tornava mais caricato quanto mais poder ele reconquistava.

Demolidor
Demolidor

As manipulações que ele precisava recorrer durante seu período como prisioneiro eram bem mais interessantes de acompanhar do que suas explosões. Também eram mais válidas do que suas interações com Vanessa, que retornou apenas para nos lembrar o motivo pelo qual a detestamos na primeira temporada, assim como um gancho para safar nossos protagonistas sem que Matt precisasse matar seu inimigo – um band aid humano. Claro que essa estrada era a única possível, precisávamos ver Fisk como Rei do Crime, mesmo que o apelido tenha sido dado pelo FBI e não seus associados, mas ver o personagem em sua “velha forma” teria rapidamente se tornado o calcanhar de Aquiles da série, caso ela não tivesse decidido manda-lo de volta para a cadeia no final da temporada – um vilão que sabe a identidade do herói e pode tudo, não é tão interessante a longo prazo.

Consequentemente o episódio que menos gostei, dentro de uma terceira temporada bem estruturada, foi exatamente aquele que deveria ter sido o ponto mais alto da trama, o season finale. Eu já devia ter me acostumado, séries da Marvel Netflix usualmente não constroem bons últimos episódios, sendo Punho de Ferro a exceção (e todos sabemos como terminou), mas Demolidor precisava de um gancho mais forte para sua conclusão. Um arco que começou tão bem precisava terminar igualmente. Infelizmente, o confronto não foi tão satisfatório e o Matt, personagem que mais lutou contra seus demônios nessa temporada, terminou assumindo uma postura passiva demais, com apenas uma explosão com o Fisk, após tanta construção para o encontro dos dois. A mudança no tom do personagem do começo da temporada até o capítulo de conclusão beirou o ridículo. Parece que ficou faltando alguma coisa ali que justificasse porque o Matt perturbado, incrédulo e desacreditado, ficou tão centrado assim de uma hora para a outra. Foi a morte do padre? Talvez, mas o roteiro não demorou por muito tempo neste questionamento para ter o efeito desejado.

Demolidor
Demolidor

E mesmo que A New Napkin não tenha conseguido me vender o fim da história entre Wilson ‘Rei do Crime’ Fisk e Demolidor como eu queria, o gancho para uma eventual quarta temporada (se a Netflix não surtar e cancelar a série), me deixou animado para continuar acompanhando a história destes personagens. Nelson, Murdock & Page é exatamente o que a série precisava para se reestabelecer, especialmente após as decisões questionáveis do segundo ano, que não ajudaram em nada a série. Elektra não funcionou e para que sua presença fosse realmente sentida separaram Karen, Foggy e Matt. Agora que voltamos ao status quo original, muitas portas se abriram e pela primeira vez, em muito tempo, estou ansioso por mais deste universo sombrio e urbano da Netflix.

> Elite, The Innocents e Kiss Me First – SÉRIES PERDÍVEIS!

Demolidor voltou bem, com aquele ritmo mais engasgado no começo, por uns quatro episódios, mas com uma pegada excelente até o final. Foi muito interessante acompanhar um Matt desgastado por sua própria fé e crença. Seu relacionamento com os seus fantasmas, Fisk e o pai, sua relação com a mãe – em uma revelação que não expôs segredos para quem já conhecia o personagem, mas que ajudou bastante na composição da relação entre “quem você pode acreditar revela quem você é”, tema explorado durante toda a temporada, com o agente Nadeem e também com Matt, Karen e Foggy. A temporada da manipulação nos entregou ótimos vilões e mesmo que o gancho para o próximo ano não tenha sido tão forte, com um último episódio um tanto quanto insosso, esse terceiro ano realmente vendeu um caso forte o bastante para que a corte da Netflix considere uma renovação.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorSupernatural 14×02: Gods and Monsters
Próximo artigoGuillermo del Toro estreia como diretor de animação na Netflix com Pinóquio
critica-demolidor-excelente-3-temporadaDemolidor voltou bem, com aquele ritmo mais engasgado no começo, por uns quatro episódios, mas com uma pegada excelente até o final. Foi muito interessante acompanhar um Matt desgastado por sua própria fé e crença.