Nunca fui o maior dos fãs da franquia Rocky (1976); todo o apelo que a história do personagem título tinha por carregar o orgulho da classe operária na Filadélfia ali em meados dos anos 1970 jamais me fisgou, trata-se de um bom filme, mas que não tocava a parte profunda que deveria em meus sentimentos. Talvez tenha sido esse status-quo de reboot, remake e continuação que me afastou da obra de Ryan Coogler ao narrar o primeiro passo da nova franquia: não me dizia nada, mesmo com todos os jogos de câmera inteligentes e excelentes escalações, algo me bloqueava a entrar neste mundinho do boxe e não me deixava relacionar com a figura de Adonis (Michael B. Jordan), faltava, talvez, um pouco de humanidade ao personagem, mesmo que a trama inteira do primeiro longa tentasse a todo custo comprar a simpatia do espectador, a mim não fazia efeito.
E que agradável surpresa quando, logo em seus primeiros momentos, Creed II fisga o espectador, reconstruindo personas e amplificando um pouco mais daquelas realidades, traçando, com clareza, os limites morais e éticos e a dualidade que cabe dentro da racionalidade de Adonis, assim como no ego destroçado de Ivan Drago (Dolph Lundgren), e o ódio incutido diariamente em Viktor (Florean Munteanu), seu filho.

Os reflexos de quem são as lendas Creed e Drago de Rocky IV (1985) são a força motriz do longa, trazendo a velha pergunta ao protagonista: eu sou mais do que foi meu pai? Qual meu papel e como eu serei lembrado a partir desse ponto? Preciso me provar, para mim e para a sociedade? Apesar do clichê clássico que permeia a trama, acaba sendo trabalhado de forma orgânica, e justificando algumas relações de causalidade entre os acontecimentos, apresentando uma cadeia dinâmica de altos e baixos que se ligam de forma sutil. Creed II é a pura Jornada do Herói, com alma, sangue e dor. Muita dor.
Sylvester Stallone e Juel Taylor fazem um excelente trabalho em cima dos personagens, antigos e novos. Há espaço para todo mundo, o conflito de cada um é bem trabalhado dentro da trama central e não soa deslocado, de fato, a ótica reduzida ao personagem traz a grandiosidade do que se tornou o boxe para dentro do mundo pessoal de cada um dos envolvidos, afetando o psicológico, escolhas e arcos estabelecido. O mais importante é ver os roteiristas respeitando a voz que cada um ali tem, sem modificar o que já fora pré-estabelecido por conveniência ao roteiro ou situação; seja a arrogância de Adonis ou o escapismo com que Rocky encara as situações difíceis, tratando de assuntos banais até chegar o momento de falar sério; assim como a força que Bianca mostra (mesmo em meio a toda sua doçura) entendendo e respeitando o tempo e distância que Donnie precisa, mas sem deixar de oferecer o suporte necessário. A relação entre Adonis e Bianca é saudável como pouco se vê, de fato, não há um drama que afete o casal, e mesmo os dramas situacionais que ocorrem na vida conjugal são tratados de forma madura. E claro, a química entre B. Jordan e Tessa Thompson continua impecável.
Por falar em tempo, os roteiristas e, principalmente, o diretor Steven Caple Jr. são felizes em deixar os personagens sentirem. Seja as consequências de seus atos ou de terceiros, nós vemos, embarcamos e sentimos sem precisar falar. Caple Jr. sabe a qualidade dos atores que tem na mão e constrói as situações de forma que culminem na expressividade dos atores para te emocionar, pois nada além disso é preciso.

O diretor se mostra competente, inclusive, dando uma cena difícil e necessária para Florean Munteanu (este, não comprometendo em nada e entregando de forma satisfatória um pico emocional, apesar de suas evidentes limitações), que até então vinha construído apenas como o carrasco. A humanização do pretenso vilão, estereótipo do russo durão, cai por terra quando o fatídico jantar com oligarcas russos traz a figura que o leva a questionar o porquê de tudo aquilo. Ele foi criado e lapidado no ódio, no ressentimento, para ser aquilo que o pai fora em seus tempos de glória, cada passo que o rapaz d´qa é com permissão expressa do pai, com os olhos confusos questionando o certo e o errado… Viktor jamais ousou pensar ou questionar Ivan por seus atos descabidos, esse sim, verdadeiro vilão e peça fundamental na trama. Ele não se arrepende, a glória é seu inalcançável objetivo, mesmo que para isso precise recorrer a baixeza moral.
Um show a parte é o OST de Ludwig Goransson, repaginando velhos temas e trazendo ecos da trilha icônica, as composições aqui são mais que mero suporte e trazem a vida necessária para cenas climáticas, jogando o emocional do espectador lá para cima.
O longa não é perfeito, em seus erros constam a continua necessidade de ‘mitificar’ Adonis através de jornais e questionar, para que o público entenda, os motivos dele fazer o que faz. A narrativa enfraquece toda vez que o roteiro se vê explicando algo que já foi mostrado em tela e até embarriga ali pela metade, mesmo que a empatia pelos personagens te leve pela mão e desvie os olhos desses pequenos defeitos.
Com acertos muito dignos e soando como uma grata surpresa, Creed II se credencia como muito mais que um mero filme sobre esporte ao calcar sua narrativa nos personagens, bebendo da fonte original sem perder em personalidade. É acessível quando necessário, porém artístico em seu cerne, afastando qualquer aura de caça níquel que sempre rondam as continuações e reboots. Ao mexer com nosso emocional, a segunda parte da saga de Adonis Creed realiza um feito cada vez mais raro no cinema: nos inspira e eleva, assim como o material fonte lá de 1976 fez com milhares de pessoas, e agora talvez eu entenda o motiva e valha uma nova assistida.
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Creed II chega aos cinemas brasileiros nessa quinta-feira dia 24 de janeiro.



















