Em uma cidade do meio oeste americano, uma nave com um bebê cai na fazenda de um casal que luta para ter o seu próprio filho. Adotado pela dupla, a criança cresce como o exemplo da perfeição, até que com a chegada adolescência começa a desenvolver superpoderes como levitação, força sobre-humana, invulnerabilidade e projetar raios de energia pelos olhos. Não, não estou falando de mais uma adaptação de Superman para os cinemas, mas de “Brightburn – Filho das Trevas” (Brightburn, 2019), que chega essa semana aos cinemas brincando com a possibilidade de ao invés de nossa salvação, ser a nossa ruina que cai como um presente dos céus.

As similaridades com o herói da DC não ficam somente no campo dos poderes, já que a capa vermelha, o ambiente familiar e até os acordes da trilha sonora emulam encarnações passadas do homem de aço. No entanto, o roteiro de Brian e Mark Gunn (primos de James Gunn, que aqui serve de produtor) joga para o alto todas essas homenagens quando começa a criar o caminho de destruição iniciado por Brandon Breyer (Jordan A. Dunn). A direção de David Yarovesky se aproveita desse roteiro competente da dupla e cria uma divertida e sangrenta viagem pelo caos instaurado na cidadezinha, com destaque para as sequências das mortes (que carregam no gore e no realismo) e no caprichado design e mixagem de som que impactam ainda mais o espectador nos momentos necessários com precisão cirúrgica. Todavia, as sequências de voo parecem destoar do conjunto geral. Em sua maioria consistem em borrões ou manchas visuais que, em comparação com os outros elementos visuais já destacados, parecem pobres e mal desenvolvidos. O longa ainda arranha de leve em alguns temas mais sérios, mas não ao ponto de desenvolver com convicção essas vertentes em algo mais sólido.
O rosto “angelical” de Dunn acaba servindo ao proposito do longa, porque ao mesmo tempo que carrega uma inocência também carrega uma estranha sensação de vazio, que só é preenchida quando subjuga alguém com seus poderes, dando ainda mais vazão ao foco de reinterpretar o apocalipse bíblico com um contorno mais “pop”. Elizabeth Banks imbui em Tori as camadas necessárias para que o deslumbramento, a descrença e (por último) o choque pelo qual a personagem passa transpareçam na exibição. David Denman completa o trio familiar principal, no papel de Kyle, o pai que é o primeiro a desconfiar das origens do filho. Matt Jones e Meredith Hagner são os responsáveis pelas pitadas de comédia, que dão o respiro necessário entre as chocantes baixas cometidas pelo garoto.

Seja uma nova versão da chegada do anticristo ou um exercício escapista de inversão da moral, “Brightburn” é uma interessante corrupção do mito do herói. Pode não apresentar algo inovador ou revolucionário, mas dentro de suas propostas constrói uma obra adequada e que consegue criar momentos de tensão e comédia sem soar artificial, além de aproveitar e, em alguns momentos, subverter alguns clichês do gênero de maneira competente. O mal finalmente encontrou o “super-herói” para chamar de seu.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil
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