Recomendado apenas para os mais fortes, o jornalista estatal do Cazaquistão está de volta 14 anos depois em um momento político muito oportuno para suas críticas contundentes.

Em uma época em que obras audiovisuais que abordam temas delicados precisam mostrar de antemão aviso de conteúdo sensível, que podem gerar gatilhos dolorosos e traumáticos para os telespectadores, a saga de Borat nos cinemas deveria alertar de forma antecipada seu público para altas doses de antissemitismo, racismo, xenofobia, misoginia, machismo e tudo o mais que abranja o complexo e extenso universo do politicamente incorreto.

Muito mais importante do que classificação etária indicativa, o alerta proporcionaria que o espectador mais desavisado ativasse seu botão de “Descansa, militante!” para poder curtir e aproveitar o longa-metragem.

Como pontuei no início do texto, o repórter do regime ditatorial do Cazaquistão retorna ao trabalho após longos catorze anos, portanto uma revisita ao filme original de 2006 se faz necessária e obrigatória, para refrescar a memória.

A maior falha está no Amazon Prime Video não disponibilizar o primeiro filme em seu catálogo, já que comprou a sequência do estúdio provavelmente pela impossibilidade de estreia nos cinemas devido a pandemia.

E amigos, eu não estava preparado para a metralhadora de nonsense que é Borat, personagem criado pelo talentoso comediante Sacha Baron Cohen. Pouco me lembrava do filme de 2006 e situações de desconforto, constrangimento, vergonha alheia e até mesmo escatologia são a regra.

Chego a me questionar se tudo em si é roteirizado ou se há situações “reais”, que as pessoas realmente acreditam naquela figura, agem de forma polida até estourar com o personagem.

No filme de 2006, é até mais provável que as cenas filmadas como “pegadinha” fossem mesmo não ensaiadas, mas em 2020 o personagem já é conhecido, como é pontuado já no início de Borat: Subsequent Moviefilm e os roteiristas encontraram uma solução para o problema.

Em 2006 a pauta era a “Guerra ao Terror” perpetrada pelo republicano Bush filho. O constante e crescente ódio, racismo e xenofobia em cima de muçulmanos, islâmicos, árabes e asiáticos é explorado com contundência no filme. O incômodo e desconforto causados no telespectador é proposital, com a crítica social e política embutida nas nuances.

O absurdo é para chocar, mas não temam caros leitores: se você embarcar na proposta dos autores, o humor como plataforma, não levar a sério todos os “ismos” contidos no texto, as risadas e gargalhadas são garantidas. Foi o meu caso, felizmente.

Já em 2020, Borat 2 explora alguns temas já abordados lá em 2006, como o antissemitismo, o fundamentalismo religioso que trata mulheres como coisas e não seres humanos, xenofobia, etc.

O panorama político difere um pouco, porém temos novamente um governo republicano, liderado por McDonald Trump, segundo Borat. Se em 2006, o pano de fundo principal era ainda o ataque terrorista às Torres Gêmeas e a falsa “Guerra ao Terror”, em 2020 o background é bem mais complexo e mostra como a humanidade pode involuir: negacionistas da ciência, terraplanistas, movimento antivax, QAnon, supremacistas brancos, pandemia do corona vírus, etc.

Como artista, pessoa pública formadora de opinião, Sacha Baron Cohen sentiu a necessidade de se posicionar e tirar o personagem da aposentadoria (ou gulag) para falar sobre o conturbado momento que os Estados Unidos e o mundo vivem.

Se no primeiro filme Borat foi conhecer a América e seus costumes para implantar técnicas bem sucedidas em seu país natal, em 2020 ele é convocado por seu presidente para levar um presente para o vice-presidente americano Mike Pence a fim dele conseguir integrar o seleto grupo/clube de chefes de Estado de extrema direita.

A trama é cheia de reviravoltas, percalços e obstáculos enfrentados pelo incansável repórter e quem o acompanha dessa vez é sua recém-conhecida filha Tutar Sagdiyev, interpretada pela telentosíssima Maria Bakalova.

A personagem é bem explorada, garante boas risadas e é definitivamente é a que tem o melhor arco de desenvolvimento na trama. Quando pai e filha desatam a falar em seu ininteligível idioma nativo frente a americanos desesperados não entendendo nada do que está acontecendo, é impossível não rir.

O inglês bruto falado por Borat e toda a estética de produção estatal institucional de suas reportagens e entrevistas também são elementos bem utilizados na trama para arrancar gargalhadas do telespectador.

Borat 2 é uma boa sequência para seu filme anterior, embora não o supere. Essa foi minha percepção ao assistir os dois longas na sequência. Sacha Baron Cohen faz uma crítica contundente e mordaz ao momento político que os EUA vivem, pontuado pelos absurdos.

Utilizando-se da técnica de combater fogo com mais fogo, Borat se apropria dos temas defendidos pela extrema-direita para criticá-la em seu maior campo de atuação para arregimentar seguidores: o do absurdo, nonsense, ódio irracional e tudo mais que foge ao bom senso e senso comum.

Há quem defenda a liberdade de se utilizar o humor como crítica, paródia. Nas grandes e sólidas democracias isso é direito básico estabelecido de liberdade de expressão. Se tentar militar e palestrar não adianta, talvez o humor atinja um público já anestesiado pelas notícias veiculadas na mídia convencional.

O fato de o voto não ser obrigatório nos Estados Unidos, enseja que o eleitor queira genuinamente participar da democracia, se sinta estimulado para isso (a descrença na política, propostas e candidatos não difere muito da realidade brasileira). Se por um lado isso garante uma maior liberdade e livre arbítrio, também acarreta uma maior responsabilidade ao se abster/se calar nas urnas.

Não à toa, Borat 2 se encerra com um “Vote!” e diversas celebridades formadoras de opinião americanas parecem engajadas em conscientizar os potenciais eleitores da importância de se participar ativamente e utilizar sua voz na democracia.

Menção honrosa 1: melhor personagem de Borat em 2006: Luenell! <3 S2 <3 S2 <3 S2

Menção honrosa 2: melhor personagem de Borat 2 em 2020: sua filha Tutar Sagdiyev.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-assim-como-no-primeiro-filme-borat-2-foca-no-absurdo-para-chocar-e-fazer-rirBorat 2 é uma boa sequência para seu filme anterior, embora não o supere.