Nada se cria, tudo se renova. Ou no caso de Hollywood, se copia. Com o crescente consumo de filmes de heróis, cada estúdio partiu em busca de um universo para chamar de seu, seja ele compartilhado ou não. Foi assim com o MCU, com as produções do Homem-Aranha na Sony e com o DCEU na Warner.
Este último não teve a melhor das trajetórias. Seja pelas escolhas dos diretores, ou pelas dos executivos (que ora compartilhavam personagens, ora isolavam-os em seus mundos), os personagens da DC passaram por altos e baixos. Se longas como Homem de Aço, Shazam e Mulher-Maravilha apresentaram boas histórias, outros como Batman vs Superman, Esquadrão Suicida e Liga da Justiça foram verdadeiras bombas, testando os limites do que deveria ser produzido nos cinemas.
Curiosamente Aquaman foi um personagem que ficou no meio termo. Interpretado com coração e uma certa dose de humor por Jason Momoa, o longa do personagem sempre foi escolhido para fechar as fases do universo. Se o primeiro exemplar entregava uma aventura colorida, bela e cheia de espírito, este “Aquaman 2: O Reino Perdido” (Aquaman: The Lost Kingdom, 2023), parece uma cópia distante do que o primeiro filme tinha de bom.
Arthur Curry é um homem dividido. Se por um lado ele é um pai de família exemplar, por outro ele é um rei falho que não consegue administrar as forças contrárias dentro de seu próprio reino e prefere partir pra “ação” do que recorrer à diplomacia e às normas. Mas tudo isso fica em segundo plano quando o Arraia Negra ressurge, trazendo com ele uma ameaça milenar esquecida na história de Atlântida, que pode destruir não só o reino submarino, mas o planeta como um todo. Com a ajuda de seu meio-irmão (e antigo inimigo) Orm, Curry vai correr contra o tempo pra salvar o planeta e a sua família.
James Wan retorna na direção do longa com seu usual apelo estético. Os ângulos de câmera inventivos e as transições de cenas continuam ótimos e o diretor continua mostrando sua competência visual. Mas isso acaba sendo eclipsado pela narrativa, que acaba não sabendo o que realmente quer ser.

O longa tem um contexto familiar forte, não só pela óbvia relação de Curry e Orm, mas também nas origens da própria Atlântida. A motivação do vilão vivido por Yahya Abdul-Mateen II também tem uma forte motivação nesse sentido, com contornos claros de vingança que bebem direto da fonte shakespeariana.
Contudo, isso logo dá lugar pra um subtexto ecológico que critica claramente o aquecimento global e as mudanças climáticas, sem nunca aprofundar totalmente tal crítica. Alguns minutos depois, a história dá uma guinada pro horror, se utilizando de feitiços de sangue, magia negra e zumbis. Em seguida abraça de vez o humor pueril e meio absurdo das comédias dos anos 80 e 90. São elementos que funcionam isoladamente, mas não conseguem harmonizar no conjunto da obra.
Até no visual o filme sofreu uma certa queda. O mundo colorido e deslumbrante do primeiro longa continua, mas parece sem vida, sem o fator que prende o espectador na tela. É como se estivesse no piloto automático, saltando de um monstro pra outro, de um cenário de fantasia genérico pra outro. Ainda assim, o valor de produção continua bem melhor do que alguns longas recentes do estúdio (eu estou falando de você The Flash).

Patrick Wilson acaba sendo um dos destaques pela sua construção cheia de camadas para Orm. Não só a química dele com Momoa funciona bem, dando credibilidade aos constantes momentos de picuinha entre irmãos, mas é divertido ver o ator em tela se esbaldando com o arco de redenção do personagem, enquanto mergulha na vilania aqui e acolá.
Assim como Amber Heard. Envolta em polêmicas com a sua tumultuada separação de Johnny Depp, a atriz pouco foi utilizada na divulgação do longa, mas tem um papel chave (ainda que pequeno) na trama, salvando os heróis (e o filme) diversas vezes durante a exibição.
No final das contas, Aquaman 2: O Reino Perdido é uma diversão competente que tenta abarcar diversas temáticas, mas acaba não sendo relevante em nenhuma delas. É um encerramento agridoce para o DCEU, deixando um gostinho de quero mais ao mesmo tempo que compartilha diversos dos sinais do declínio da era dos heróis no cinema. A maré está virando, propaga a publicidade do longa. Bem parece que virou tarde demais.
*O Série Maníacos assistiu o filme a convite da Warner Bros. Pictures Brasil
















