A ficção, por mais extrapolativa e distópica que seja, sempre se baseia na realidade para criar seus alicerces. Isso permite que o autor construa sua narrativa de maneira imparcial ou que mergulhe de cabeça em sua obra, borrando os limites da realidade e da fantasia ao misturar elementos de sua própria vida na trama. Um dos maiores exemplos são as obras de Louisa May Alcott. Criada numa família de intelectuais no pós-Guerra Civil Americana, ela sempre cresceu entre as artes, mas as dificuldades financeiras da família a fizeram trabalhar desde cedo, na maioria das vezes, escrevendo e vendendo pequenos contos de espionagem e vingança para os jornais da época, com nomes de pena ou sob o anonimato.

Não é muito diferente da situação que Jo March (Saoirse Ronan) se encontra no começo de “Adoráveis Mulheres” (Little Women, 2019), a mais recente adaptação para o cinema da obra homônima da autora (“Mulherzinhas”, no Brasil). O livro se tornou um clássico infanto-juvenil ao retratar o cotidiano de quatro irmãs, cada uma com seus sonhos e pretensões, enquanto lidam com as dificuldades do país em reconstrução após a guerra e também com os percalços de ser mulher no período.

Fica claro desde o inicio que Jo não é somente a nossa guia dentro desse mundo, como é a voz direta de Alcott dentro da história. E o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig conseguiu transpor com extrema precisão essa mesma característica para as telas. De personalidade forte, progressista, quase irascível até, é através do olhar e das percepções de Jo sobre os outros personagens que vamos construindo as relações de envolvimento e empatia com cada um deles. Dentro desse aspecto, Ronan consegue mais uma vez uma parceria primorosa com a diretora, num personagem que parece ter sido escrito para ela, que transita na tela exalando carisma e convencimento.

Mas a metalinguagem não para somente na figura de Alcott. É possível também ver alguns pontos de identificação da própria Greta na personagem principal, seja nas passagens em que ela diz que nasceu para escrever e dirigir as irmãs ou quando ela questiona o papel da mulher dentro da sociedade (o que ecoa diretamente na questão do crescente, mas ainda incipiente protagonismo delas no papel de diretoras em Hollywood). São atualizações como essas (intencionais ou não) que fazem o filme ganhar apelo ao público atual, principalmente para aqueles que são iniciantes e nunca tenham visto as versões anteriores ou lido o livro. Porque, mesmo com todo o atrativo visual dos cenários bem reproduzidos, dos figurinos pomposos e estonteantes, da iluminação e movimentação de câmera inspirada, a história em si é bem simplória, ainda que conduzida e escrita com destreza.

A decisão de estabelecer duas linhas temporais, com um espaço de sete anos entre elas, é outra das decisões que podem tanto atrair como afastar o público. Isso faz com que dilemas enfrentados pelas versões maduras sejam espelhados por momentos semelhantes do passado ou ocorrendo no caminho inverso. É uma chance para os atores mostrarem a evolução de seus personagens. Amy (Florence Pugh) é a que mais amadurece dentro desse recurso, já que vemos tanto uma versão mais controlada, como uma mais selvagem e infantil. Na figura de Meg (Emma Watson) é que temos talvez a linha mais constante, já que ela sempre foi centrada e comedida do que as suas irmãs. Beth (Eliza Scanlen) é o vértice de união, servindo como o porto seguro das irmãs, colocando sua integridade física abaixo delas até. E Marmee (Laura Dern), a mãe delas, é a consciência que paira sobre todas, guiando seus preceitos sociais e comportamentais estando presente ou não. O único problema que essa estrutura encontrada por Gerwig trás para o filme é a falta de convencimento em alguns pontos, principalmente em Watson ser mais velha que Ronan (quando elas parecem ter a mesma idade) e nas “versões infantis” de Pugh e Scanlen.

Fora desse núcleo, os destaques vão para Timothée Chalamet na pele de Theodore “Laurie” Laurence, o “elemento externo” dentro do grupo de garotas e motivação afetiva principal; e Meryl Streep como a característica tia rica, solteirona e sem papas na língua das obras do período. Chris Cooper, Louis Garrel, James Norton e Bob Odenkirk completam o estrelado elenco.

Adoráveis Mulheres” é um daqueles filmes que aquecem o coração. Onde criadora e criatura perdem seus limites e se misturam em um retrato do cotidiano (o que os japoneses comumente chamam de “slice of life” em seus animes e mangás) repleto de candura, alegria, tristeza e evolução. Carregando a aura dos clássicos de outrora, mas imprimindo modernidade em suas escolhas, Gerwig desponta como uma das mais interessantes diretoras da atualidade em teu terceiro trabalho.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil 

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
critica-adoraveis-mulheres-e-um-filme-para-aquecer-o-coracao“Adoráveis Mulheres” é um daqueles filmes que aquecem o coração. Onde criadora e criatura perdem seus limites e se misturam em um retrato do cotidiano repleto de candura, alegria, tristeza e evolução.