The Crown possuía um desafio gigante em sua 4ª temporada: retratar os conturbados anos 80 da família real, recheado das já habituais figuras e com a adição de duas novidades extremamente importantes (Princesa Diana e Margaret Thatcher) para a história do Reino Unido – e o cumpriu com maestria.

A quarta temporada girou ao redor de três mulheres muito fortes e diferentes entre si: rainha Elizabeth II (Olivia Colman); Margaret Thatcher (Gillian Anderson), a primeira ministra; e, por fim, a Princesa Diana (Emma Corrin), princesa de Gales.

Sem sombra de dúvidas, essa é a temporada mais prejudicial em relação à imagem da família real – justamente por causa do fator Diana.

Os episódios dividiam as atenções entre as três figuras, com a princesa Margaret (Helena Bonham Carter) perdendo um pouco de seu espaço na série. Ainda assim, a atriz brilhou em todos os seus momentos em tela, não decepcionando nunca na entrega da irmã da rainha.

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A temporada já inicia com a eleição de Margaret Thatcher, a primeira mulher a ser primeira ministra do Reino Unido, cuja trajetória política foi marcada por polêmicas e problemas sociais.  Interpretada de maneira brilhante por Gillian Anderson, os episódios que giram ao seu redor tocaram nas questões sociais e econômicas do Reino Unido, assim como na relação com a Rainha.

Nos dois primeiros episódios (Gold Stick e The Balmoral Test), vemos o desenvolvimento do seu relacionamento com Elizabeth II, as diferenças de classes e ideias que acabam por tornar a relação instável, mas também, com admiração e respeito mútuos. Thatcher se surpreende no seu primeiro encontro com esta, pois realmente a considerava um símbolo – o que de fato ela é, mas ainda é uma mulher muito inteligente e com muita influência, que sabe do que está acontecendo no seu país e a sua volta.

Como nunca visto antes, Elizabeth II assume uma posição contra Thatcher em relação ao apartheid da África do Sul. Aqui, a rainha exibe sua força como monarca e política, em uma demonstração rara de poder, contornando a situação para que consiga o que deseja (mesmo que a posição pessoal da primeira ministra tenha permanecido irredutível).

No episódio Fagan (4×05), as questões sociais durante o mandato de Thatcher são mais aprofundadas, através da invasão de Michael Fagan (Tom Brooke) ao Palácio de Buckingham. Apesar da invasão ter realmente acontecido, a série utilizou de licença poética na conversa de Fagan com a Rainha (o Palácio afirma até hoje que eles nunca conversaram, enquanto há fontes que dizem que realmente houve uma conversa de dez minutos, mas ninguém sabe o que realmente foi dito).

Ainda assim, The Crown soube como utilizar este fato como pano de fundo para mostrar a realidade da população trabalhadora do Reino Unido: os altos níveis de desemprego e a crise econômica gritante, tudo isso em meio à Guerra das Malvinas, na qual Thatcher insistiu enquanto o povo britânico passava por necessidades, gastando milhões de libras.

Até esta temporada, conseguíamos ter empatia e compreender (quase) todas as ações da família real, mas principalmente, de Elizabeth II. A construção da personagem é brilhante, mostrando como ela foi moldada desde cedo para servir à Coroa e exibir um exterior frio e praticamente invulnerável, como o seu papel lhe mandava.

Desde o início, a personagem mostra-se completamente comprometida com o seu dever de soberana e exercendo-o do modo que foi ensinada. É este mesmo dever e a insistência de Elizabeth em não permitir o filho casar com Camilla (Emerald Fennel) e, mais tarde, não interferir no casamento entre Charles (Josh O’Connor) e Diana e não ouvir nem o filho e nem a nora, que a rainha, antes compreendida pelo público, começa a receber antipatia.

É inesquecível a cena na qual Diana, desesperada, abraça a sogra em busca de apoio e Elizabeth II fica parada, estática, sem corresponder ao abraço e sem falar uma palavra para a nora. Diana ainda afirma “tudo o que todo mundo quer é ter o seu amor”.

Sendo assim, a série tinha uma tarefa difícil na sua quarta temporada: retratar e inserir a figura icônica da princesa Diana. Aqui, era tudo ou nada: ou The Crown ia se afirmar como uma das melhores séries da atualidade ou todo o trabalho feito até o momento poderia ir por água abaixo, de tão importante que a princesa foi para a história da família real do Reino Unido.

Muito dependia do roteiro que, já planejado há anos, era a menor preocupação. A outra questão era a escolha da atriz. A escolha não podia ser nada menos que perfeita para representar essa figura tão relevante.

A equipe da série achou uma atriz não apenas perfeita, mas uma atriz que é praticamente a personificação de Lady Di. Emma Corrin fez um trabalho fenomenal dando vida a Diana: os mesmos gestos, o mesmo jeito de falar, a mesma postura. Muito do sucesso da temporada dependia dela e sua missão foi cumprida de maneira magnífica. Sem dúvida, os melhores episódios da temporada foram os centrados no casamento conturbado de Diana e Charles (a atuação de Josh O’Connor merece ser aplaudida também, com um príncipe extremamente amargurado e infeliz).

Desde o final da segunda temporada, nós vimos a construção de Charles como o filho que possuía o dever de ser herdeiro, mas que nunca era ouvido ou recebia afeto dos pais. As vontades e os desejos dele nunca foram levados em conta – o que até certo ponto fazia sentido, afinal, a Coroa não permite que suas vontades pessoais sejam exercidas. Charles nunca fora visto como criança ou adolescente e sim, apenas como o herdeiro, tendo  mais obrigações e deveres e, consequentemente, expectativas por todos ao seu redor.

Charles foi, sim, vítima de suas circunstâncias e de sua família inflexível e pouco afetuosa – afinal, demonstrar afeto é um sinal de fraqueza. Apesar disso, ao ser pressionado por sua família a se casar e sem a permissão de se casar com a mulher que amava – Camilla – nós o vemos se tornar algo muito além disso. Desde o início, nós vemos que o príncipe nunca fez questão de tentar ter um bom casamento nem relacionamento com Diana e estava frequentemente a traindo com Camilla. Diana, iludida com o conto de fadas de ficar com um príncipe e se tornar princesa, tinha apenas dezenove anos quando se casou com Charles, já um homem adulto – ela, sim, a verdadeira vítima da história toda.

A maneira que a introdução de Diana foi feita na série até o casamento com o príncipe, com cenas intercaladas da família real caçando animais inocentes, foram a analogia perfeita. A família real era os caçadores, enquanto Diana era a caça. Isso ecoa o que a princesa falou anos depois sobre o dia do casamento: “me senti como um cordeiro indo para o abate”.

Devido a falta de apoio de Charles, a pressão enorme para se adequar ao que a realeza esperava e a relação do noivo com Camilla, Diana acaba por desenvolver um transtorno alimentar (bulimia), doença que enfrentou por quase uma década. A situação não melhorou após o casamento: o príncipe de Gales descontava todas as suas frustrações em cima da esposa e se ressentia dela, deixando ambos infelizes.

Apesar de na turnê da Austrália (4×06, Terra Nullius) as coisas aparentarem ter melhorado por um tempo, Charles não suporta ver a princesa recebendo mais atenção do que ele. Diana era aquilo que a família real nunca havia sido até então: aberta, carismática, com sentimentos, próxima à população e empática – características que num primeiro momento também encantaram à família real (4×02, The Balmoral Test).

Ela foi a responsável por aumentar a popularidade da família nos anos 80, até mesmo ofuscando os outros membros da realeza (o que foi bem retratado na série). Também foi a responsável pela imensa impopularidade nos anos 90, após as notícias do seu sofrimento e os podres de Charles serem divulgados, somados com a sua morte.

E falando em morte, no último episódio da temporada (4×10, War) Philip (Tobias Menzies) – que teve pouquíssimo destaque nesta temporada – solta uma fala que soa como ameaça aos ouvidos de Diana e ao próprio público. Será que The Crown vai explorar a teoria da conspiração de que a família real mandou matar a princesa de Gales? Ou vai deixar subentendido? Não é à toa que essa temporada está dando dor de cabeça para a família real.

A série conseguiu se firmar como uma das melhores da atualidade, com um roteiro muito bem elaborado e estruturado; atuações brilhantes de todo o elenco (especialmente Emma Corrin, Olivia Colman, Helena Bonham Carter, Gillian Anderson e Josh O’Connor) e, é claro, sua produção esplêndida – os cenários e a ambientação por si só já nos fazem admirar The Crown. Após essa temporada, mais um ciclo na história da série se fecha e mais uma troca de elenco será realizada para as duas últimas temporadas.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-4a-temporada-de-the-crown-vem-para-coroar-a-serie-da-netflix-como-uma-das-melhores-producoes-da-atualidadeA série conseguiu se firmar como uma das melhores da atualidade, com um roteiro muito bem elaborado e estruturado; atuações brilhantes de todo o elenco (especialmente Emma Corrin, Olivia Colman, Helena Bonham Carter, Gillian Anderson e Josh O’Connor) e, é claro, sua produção esplêndida – os cenários e a ambientação por si só já nos fazem admirar The Crown.