A primeira produção brasileira da Netflix chegou ao seu encerramento e o resultado não poderia ser mais satisfatório. Depois de quatro temporadas, o show abriu caminho para outras produções nacionais no streaming e garantiu um lugar respeitado entre tantas produções fora do eixo EUA-Inglaterra que chegaram ao canal. Depois de receber duras críticas em sua primeira temporada, críticas do público brasileiro, diga-se de passagem, a série se reinventou e melhorou significativamente, chegando ao seu ápice narrativo nesta quarta temporada, que sem dúvida nenhuma, é a melhor da série.
Quando decidi escrever este texto, fiz uma breve pesquisa na internet, em busca de informações sobre a série e para minha surpresa, não tão grande assim, descobri muitas páginas gringas sobre a produção. 3% fez grande sucesso fora do país, garantindo sua renovação e permanência na plataforma por quatro temporadas. Isso me fez refletir: não sabemos reconhecer e valorizar as nossas produções. A série chegou a ser a produção original de língua não-inglesa mais assistida da Netflix e mesmo assim não é reconhecida em seu país de origem. Por quê? Tenho um palpite: como consumimos pouco as produções nacionais, falo, principalmente, de filmes e séries, não estamos acostumados com este tipo de narrativa. Nosso padrão, pasmem, é o padrão estadunidense de séries e foi sobre essa ótica que muitas pessoas iniciaram sua jornada com 3%. Com esse desabafo, não quero dizer que a série é perfeita e não merece críticas, longe disso. Quero apenas dar o devido reconhecimento ao legado deixado pela série. E se hoje temos produções originais brasileiras nos catálogos dos principais canais de streamings, devemos isso a 3%. Sem mais enrolação, vamos à trama da temporada.

A série começa a sua jornada final com os membros da Concha unidos por um único objetivo: destruir Maralto. E aqui está um dos grandes trunfos da temporada. A série criada por Pedro Aguilera, não perde tempo com tramas paralelas desnecessárias. Tudo que acontece, gira em torno desse objetivo central. Depois da captura da Comandante Marcela (Laila Garin), o grupo tem uma carta na manga e o Conselho decide negociar. Daqui nasce o plano: parte do grupo vai para Maralto com uma cápsula de plasma e a outra parte deve enviar a turbina para detonar o pulso eletromagnético na ilha. Plano extremamente simples, mas isso não é uma crítica. Sem grandes firulas, fica mais fácil de o telespectador comprar sua veracidade. E foi esse meu sentimento.
Joana (Vaneza Oliveira), Marcos (Rafael Lozano), Elisa (Thais Lago), Rafael (Rodolfo Valente) e Natália (Amanda Magalhães) partem para sua missão com o seguinte lema na cabeça: “Ninguém se deixa seduzir”. Isso é extremamente emblemático. Cada um deles viveu uma vida de miséria e falta de perspectivas, chegar em um lugar que tem tudo aquilo que eles sempre sonharam provoca um misto de sentimentos bem apresentado pelo roteiro da série. A confusão interna de cada um é muito plausível: Rafael e Elisa já tinham vivido do lado de lá, então tinham sentimentos específicos. Ele fica neurótico e enxerga fantasmas por todos os lados. Ela quer garantir que os recursos da ilha sejam salvos. Joana tem uma lembrança e deseja descobrir suas verdadeiras origens. Marcos descobre que está na casa da mãe e seu sentimento de indignação só cresce. Natália encontra livros inteiros e sua sede de conhecimento faz com que suas certezas fiquem abaladas. Essa cena mexeu comigo, como viver em uma sociedade sem livros/ sem conhecimento? O brilho no seu olhar me representou. Muito doloroso imaginar algo assim.

Do outro lado, Michele (Bianca Comparato), Xavier (Fernando Rubro) e Glória (Cynthia Senek) devem assegurar que a turbina chegue em Maralto. Devo dizer que ao longo das quatro temporadas, Michele foi uma das personagens que menos gostei, mas ela conseguiu mudar minha opinião nesta última temporada. Mais madura, ela percebe que Glória é um problema, pois estava tentando sabotar o plano. Michele, então, prepara Xavier para o novo processo iniciado por André (Bruno Fagundes). Toda essa construção foi magnífica. As cenas rememorando momentos anteriores da série, mostrando como ela chegou até ali foi incrível. Tudo caminhava para dar certo, mas Glória se deixou seduzir. Seu conflito interno persiste: lutar contra crenças de uma vida inteira, não é fácil. Confesso que detestei a personagem por muito tempo, mas entendi a mensagem dos roteiristas. Em uma sociedade sem esperanças, ter algo seguro em que acreditar é mais fácil do que se arriscar. Maralto significava isso para Glória. Com isso em mente, Marcela consegue convencê-la e suas ações tem consequências drásticas: a destruição da Concha. O que somos capazes de fazer para assegurar os nossos interesses? Vivendo em uma sociedade injusta e desigual, diariamente nos deparamos com situações assim, guardadas as devidas proporções. Às vezes, preferimos nos submeter ao sistema estabelecido e tentar um lugar dentro dele porque é mais seguro. Foi exatamente isso que Glória fez sem medir o impacto disso na vida das outras pessoas.
O ápice da primeira parte da temporada, sem dúvida, é a destruição de Maralto. Gostei muito que fizeram isso em quatro episódios. Isso permitiu que tivéssemos um vislumbre do que viria depois, as consequências desse plano. Toda revolução, seja ela qual for, traz consequências. E não se enganem, mesmo com as melhores das intenções, pessoas saem feridas. Considero esse o maior trunfo desta temporada. Quando Joana e companhia percebem o que tinham feito, a confusão e o sofrimento em seus rostos são visíveis. Ponto para os roteiristas que se preocuparam em nos mostrar isso, tornando tudo mais verídico.

Com Maralto destruído, a série usa os seus três últimos episódios no Continente. Como era de se esperar, o caos se instaura dando início a uma nova ordem. Ainda tentando se manter preso ao passado, André mantém o processo iniciado para criar uma ideia de normalidade. Confesso que achei seu personagem caricato demais, mas nada que estragasse o resultado final. Michele, então, na tentativa de salvar seus amigos, acaba se arriscando e morrendo nas mãos do próprio irmão. Depois de quatro temporadas, não esperava esse fim para ela, como disse anteriormente, Michele nunca foi minha favorita, mas seu sacrifício sintetiza bem tudo que ela viveu: ela estava disposta a morrer em busca de uma sociedade melhor e foi exatamente isso que aconteceu.
Na reta final, com novas facções surgindo no Continente, a cena entre Joana e Natália resume bem o sentimento do telespectador: Maralto e o Processo não existem mais, o que nos resta então? Como idealista, Joana acreditava que era só acabar com tudo e pronto, as pessoas iriam se entender, mas sabemos bem que as coisas não funcionam assim. O homem é um animal social e como tal precisa de regras bem estabelecidas para viver. A formação das sociedades humanas perpassa por isso: organização social. E aqui aponto outro grande acerto da série: mostrar o vislumbre de uma nova sociedade naquele universo. Joana sonhava com uma sociedade onde todos têm vez e voz, ao melhor estilo da democracia direta grega, sem parte excludente é claro, e incentivada por Natália ela bola uma estratégia para pôr seu plano em prática. O último episódio foi sensacional. Ao melhor estilo 3%, temos um novo processo. O vencedor levaria tudo, ou seja, decidiria como a nova ordem ficaria estabelecida no Continente. Joana, André, Marcela, Xavier e Rafael se enfrentam em uma prova criada pelo casal fundador. Tudo foi eletrizante e muito tenso, mas bem feito, tornando o final emocionante. E quando um dos participantes não aceita o resultado final e tenta burlar o combinado, nos deparamos com um encerramento que se preocupou em passar a seguinte mensagem: devemos ter fé nas pessoas, mesmo quando ninguém mais tem.
E é com essa mensagem de esperança que 3% encerra sua jornada. Os acertos superaram de longe os erros, tornando sua despedida algo que nos deixou com o sorriso no rosto. O saldo é tão positivo que espero que isso fortaleça as produções nacionais e que a mensagem de esperança não fique só nas telas, mas também fora delas: continuem lutando por espaços e viva ao entretenimento brasileiro!
Para além do Processo e outras curiosidades.
– 3% merece uma salva de palmas pelo cuidado na escolha do elenco. A série se preocupou em mostrar a diversidade do povo brasileiro e isso é perceptível. Parabéns!
– Tivemos algumas participações ilustres nesta temporada, mas quero destacar a participação de Ney Matogrosso. Que homem!
– A despedida de Marcos foi uma das coisas mais belas construídas pela série. Sua evolução foi tão bem feita que foi impossível não se emocionar ao vê-lo deitado naquela praia.
– Michele era a protagonista da série, mas Joana foi ganhando espaço ao longo das temporadas, tornando-se a protagonista moral de 3%, então, não posso deixar de ficar retumbante de ver uma mulher preta e bissexual conduzindo a construção de uma nova sociedade.














