A fórmula “show dentro do show” já nos agraciou diversas vezes nos últimos anos dentro do mundo das séries, seja essa uma estrutura presente em toda a narrativa (como na genial “30 Rock”), seja em episódios pontuais (como na também excelente animação “Bojack Horseman”). Em “GLOW”, essa fórmula é testada na sua mais alta abrangência.

Em apenas duas temporadas, já passamos por todo o “ciclo de vida” de um programa de tv: o nascimento do conceito criativo (se é que podemos chamar o primeiro esboço assim), o casting, os bastidores das gravações, reuniões entre produtores e showrunners, luta por patrocínios e sobrevivência, os contratos abusivos aos quais atores iniciantes são submetidos, crise de audiência, boicotes vindos de altos executivos da emissora e do público conservador e, por fim, o cancelamento.

Glow
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A cena que inicia essa nova fase, com todas as atrizes cheias de sonhos e expectativas reunidas para uma foto, deixa claro que a mudança na perspectiva do que se tornou “GLOW” é o fio condutor que guia esse segundo ciclo; a série deixa de ser sobre um grupo de mulheres tentando alcançar uma oportunidade significativa em suas vidas profissionais e passa a ser sobre as consequências e novos obstáculos que surgem quando essa oportunidade finalmente se concretiza. Mas falar em 2018 sobre os bastidores de um programa de TV da década de 80 protagonizado por mulheres traz consigo certas responsabilidades, e é nesse desafio que as criadoras Liz Flahive & Carly Mensch merecem tanto ser aplaudidas por seus méritos, quanto questionadas sobre suas incoerências.

Aqui na vida real, o espaço entre a primeira e a segunda temporada foi marcado por diversos acontecimentos, declarações e movimentos relacionados à (falta de) igualdade entre gêneros, ao empoderamento feminino e à denúncia contra o assédio sexual. Em Hollywood, iniciativas como a “Time’s Up” e a “#MeToo” só deram mais força e voz a esses temas. Dentro desse contexto, GLOW tenta abraçar a oportunidade de se tornar a obra perfeita para expor uma realidade que pode ser desconfortável para muitos: todas essas questões levantadas nos últimos tempos não são uma novidade, sendo que já aconteciam muito antes da atração que originou a produção da Netflix e continuam acontecendo até hoje.

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Existem alguns plots e cenas onde podemos perceber a preocupação da narrativa em abordar tais assuntos com a seriedade e delicadeza necessárias. Talvez o principal deles seja quando o presidente da K-DTV, Tom Grant (Paul Fitzgerald), tenta aproveitar sua posição de poder para pressionar a protagonista Ruth (Alison Brie) a fazer sexo com ele. Posteriormente, o abuso e o machismo são refletidos e escancarados mais uma vez quando o mesmo Tom Grant decide reagir à negativa de Ruth com a mudança de timeslot da atração para as madrugadas (detalhe: dando lugar a um show de wrestling masculino). Essas abordagens ao longo do segundo ano de “GLOW” são feitas sobre o alicerce de um roteiro muito sagaz e eficiente, que firma a série como um produto que é inteligente no jeito de ser bobo e elegante no jeito de ser “trash”.

Porém, é inegável que a obra cai em contradições sérias em relação ao seu discurso. Dentro de uma narrativa sobre mulheres tentando conquistar seu espaço, é problemático que exista um desenvolvimento tão bem elaborado para Sam (Marc Maron), enquanto uma outra dezena de figuras femininas tenham suas histórias deixadas à deriva. Em diversos momentos, GLOW enfatiza a dificuldade que as mulheres encontram em conseguir espaço – tanto física (exposição de imagem) quanto criativamente (direito de expressar ideias e fazê-las serem ouvidas) – ao mesmo tempo em que mira seus holofotes o tempo todo pra Sam e Bash (Chris Lowell) que, individualmente, somam mais airtime que a maioria das personagens secundárias juntas.

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Já que falamos em Sam, é curioso como ele parece concentrar, simultaneamente, a maior qualidade e o maior defeito da série. Marc Maron tem de longe a melhor atuação do elenco, só que somando isso à abordagem tendenciosa que o enredo traz para o fracassado diretor com excesso de criatividade e falta de tato com seres humanos – especialmente mulheres -, a impressão que fica é a de estamos diante de uma história que em muitos momentos tenta “passar pano” para um personagem que é claramente um abusador.

Aqui, podemos analisar com mais atenção como a trajetória de Sam é construída nesse segundo ano. É importante reparar em como a sua relação paterna com Justine (Britt Baron) que resulta no seu amadurecimento, o envolvimento emocional com Ruth repleto de pedidos de desculpas e demonstrações de vulnerabilidade, além de eventuais atitudes “heroicas” –  como a destruição do vidro do carro de Tom Grant – parecem ser um modo de justificar e/ou abafar sua personalidade notoriamente tóxica, e é nesse ponto que o ótimo trabalho de Marc acaba ajudando a humanizar o personagem de uma forma que pode ser não tão positiva assim. É como se, no meio do caminho, quisessem tentar nos fazer “perdoar” e/ou esquecer, por exemplo, de como sua postura no estúdio era claramente uma conduta de assédio moral com toda a equipe, ou de quando ele tentou beijar Ruth dias depois que ela contou a ele sobre sua traumática experiência com o presidente da emissora. Ou de como ele ignorou veementemente Debbie como produtora, alguém que tinha direitos garantidos em contrato nas tomadas de decisão sobre GLOW, simplesmente pelo fato dela ser uma mulher.

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Vale lembrar que essa última atitude foi corroborada por Bash, que, por coincidência (ou não), também ganhou um maior desenvolvimento e uma storyline de humanização. A abordagem do tema da homossexulidade e do HIV são válidas (a cena da detetização na casa do falecido Florian em especial é bem forte e significativa para o contexto daquela época, marcada pelo desconhecimento sobre o vírus), mas até que ponto esse destaque é positivo na mesma série em que Arthie (Sunita Mani) e a novata Yolanda “Junkchain” (Shakira Barrera) têm um plot que envolve um possível romance homossexual, e que é trabalhado de forma completamente superficial? Isso sem contar tantas outras lutadoras que o público mal sabe o nome em plena segunda temporada (duvido você lembrar o nome de uma das personagens que fazem parte da dupla de “idosas”, por exemplo). É claro que a duração média de 30 minutos impede que a narrativa navegue por um núcleo tão numeroso de personagens da mesma maneira que, por exemplo, Orange Is the New Black (que conta com mais de 50 minutos por episódio, e mais episódios por temporada) para apresentar as detentas com mais profundidade. Ainda assim, é no mínimo questionável que dentro desses poucos 30 minutos exista uma discrepância tão perceptível quanto a preferência em dar mais enfoque aos personagens masculinos.

Mas, voltando a falar dos aspectos positivos, a relação Ruth & Debbie (Betty Gilpin), que muitas vezes está mais para Ruth vs Debbie, ganhou novos capítulos mais densos nesse segundo ano. Dentro desse arco, os roteiristas conseguiram aprofundar de uma maneira muito bem executada as motivações das “amigas e rivais”, de forma que ambas as personagens se afastaram ainda mais do clichê da 100% mocinha e da 100% vilã. A briga delas no hospital e o momento em que Debbie confronta e julga Ruth por seu comportamento diante da investida de Tom são pontos altos da temporada, dramaticamente falando. Existem também boas tensões e contrapontos provocados pelo roteiro no que diz respeito à conciliação maternidade-trabalho e também ao racismo e reconhecimento de privilégios, por meio dos paralelos desenhados entre as trajetórias de Debbie e Tammé (Kia Stevens) – que brilha e faz “Mother Of All Matches” ser um dos melhores episódios dessa nova leva.

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Tecnicamente, é interessante notar como GLOW começou até a se arriscar mais. Um exemplo claro disso é “The Good Twin”, que explora o recurso da metalinguagem de uma forma que outras séries muitas vezes demoram mais tempo para explorar. Embora não seja exatamente um momento brilhante, o oitavo episódio é divertido e cumpre seu papel dentro da narrativa, de provar a diferença causada por uma liberdade criativa que só existe quando não existem as amarras da emissora, dos executivos e da censura pública. Produzir um programa que vai ser exibido às 2h da manhã tira muito da pressão pela audiência e permite que as pessoas por trás do show façam o que elas sempre quiseram fazer (é levar para a tela o conceito do “o que você faz quando ninguém te vê fazendo?”), e é aí que o show (no caso, o fictício) atinge seu ápice.

Para os mais ansiosos, provavelmente vai ser difícil esperar mais uma vez pela batida de martelo final sobre o destino da atração. Assim como no ciclo antecessor, o desfecho deste também é razoavelmente satisfatório para uma series finale. Tão difícil quanto medir o quão longe o horizonte criativo dessa história pode ir sem prejudicar a qualidade do que foi construído até então, é tentar prever se o hype mediano terá forças para causar uma renovação. O importante é que, se isso não rolar, a série vai poder partir sem deixar muitas pontas soltas e nem aquela sensação de frustração que elas causariam no público.

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No geral, GLOW acerta muito mais do que erra no que diz respeito a como conta e conduz a sua história nesse segundo ano, mas ainda assim não consegue escapar de deslizes em partes fundamentais de sua premissa. Para ser fiel ao discurso do que afirma representar, é preciso mais do que uma luta final encenada em que as mulheres vencem os homens. É preciso encontrar uma forma de satirizar o padrão de comportamento do show business dos anos 80, ao invés de repeti-lo.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Aleph Macaullay
Goiano que foi viver no caos de São Paulo mas não esconde as origens caipiras e chora quando ouve "Evidências". Radialista por formação e redator publicitário por profissão.
critica-2-temporada-glow-brilhaA segunda temporada de GLOW é ainda melhor que a primeira, com a ajuda de um roteiro ágil e perspicaz somado a uma forma sofisticada de ser simples - e até boba em alguns momentos. Porém, é uma série que ainda precisa ser mais fiel ao discurso que defende, o que ela só vai alcançar quando der mais espaço ao seu vasto elenco feminino.