Mesmo em uma cela eu estarei mais livre do que você jamais será. [Stephan Jawarski]

Há muito tempo eu aguardava por um episódio como este. Quero dizer, não me refiro exatamente ao seu contexto, mas sim ao pano de fundo. Desde quando comecei a acompanhar Continuum fiquei imaginando quando a série apresentaria um episódio onde todo o seu roteiro seria desenvolvido no futuro. O mundo tão conhecido por Kiera e o Liber8, mas que para o público ainda se apresenta em pequenos fragmentos, que quando posicionados lado a lado, não nos fornece o verdadeiro panorama deste distópico universo controlado por Alec Sadler e o parlamento corporativo.

E eis que no episódio desta semana Waning Minute, minha curiosidade foi aguçada. Afinal, não é apenas uma questão de mudar o futuro, mas também compreendê-lo na perspectiva da história e na relação de seus acontecimentos. Pois se existe uma dúvida que carrego comigo, constantemente, é saber se existe o “bem” e o “mal” nesta batalha travada com o tempo e o destino.

Não sei ao certo qual a opinião de vocês, mas acredito que muitos possam ter considerado o episódio um pouco mais calmo e sem a presença dinâmica que Continnum expõe nos seus enredos do presente, com Kiera, Carlos, Liber8, Alec, Kellog e os Freelancers. Não há dúvidas de que com tamanho potencial criado com estes personagens os roteiros que relatam os acontecimentos atuais tendem a garantir um material rico em diversificação e plots secundários. Mas Waning Minute decidiu apostar em um contexto destinado a estabelecer conceitos acima de verdadeiros acontecimentos, ainda que este segundo mostrou-se significativo para expandir a experiência de nossa protagonista, e revelar algumas razões que destinaram Kiera como a escolhida para mergulhar nesta viagem ao passado. E que talvez, esta seleção não tenha sido feita por uma única pessoa.

Antes mesmo de falarmos sobre Waning Minute é preciso considerar as recordações dos acontecimentos mostrados no inicio do episódio, sendo os seguintes:

1. Kiera e Jawarski estão no future e ele ameaça atacar a Protetora – Episódio 1×08 Playtime.

2. Kagame diz: “A revolução começa aqui.”. – Episódio 1×06 Time’s Up.

3. Alec Sadler diz ao filho (no futuro) – “O Liber8 não existiria sem mim, talvez eles não sejam nada mais do que uma manifestação da minha consciência” – Episódio 2×13 Second Time.

Associado a estes fatos, temos os acontecimentos de Wasted Minute, apresentado na semana passada, que ocasionaram a “prisão” de Alec(B) e Curtis. Ainda que Curtis não tenha participação efetiva no enredo desta semana foi o seu comentário que leva Kiera a uma relato de alguns incidentes em sua vida como SPM.

“Você vagava pela sua vida em 2077, então um milagre aconteceu. Mostraram-lhe a estrutura de tudo e mesmo assim, você continuou vagando.” [Curtis].

Em principio eu imaginei que ele estivesse se referindo à viagem no tempo, mas então percebemos que na realidade, Chen tem conhecimento sobre o que aconteceu com Kiera enquanto ela atuava como Protetora e realizou a prisão de Stephan Jawarski.

Vocês se lembraram de Stephan? Eu confesso que não. O personagem só havia participado do piloto da série, onde acabara morto por Carlos e depois no futuro, onde descobrimos que quando preso Jawarski foi utilizado como cobaia para procedimentos experimentais de um chip (desenvolvido por Lucas) que teria a capacidade de controlar todas as emoções e ações de um ser humano. No episódio o teste falha, quando Lucas ordena que Stephan levante sua perna. Ele ataca o palestrante, mas é contido antes que Kiera ou o parceiro precisem utilizar suas armas.

O curioso daquele acontecimento é que não entendemos muito bem porque Jawarski fica totalmente enfurecido após ver Cameron. Assim como também, não entendemos porque Kiera demonstra conhecer o prisioneiro no momento em que ele entra em cena. Por conta deste fato, já é possível reconhecer que os acontecimentos de Waning Minute precedem este incidente.

O conceito sobre a forma que um movimento social ou a promoção de uma organização alcança a influência da sociedade é um dos argumentos apresentados na review de A Minute Changes Everything. Neste mesmo texto, eu comentei com vocês sobre as intenções do Liber8 e de que os primeiros atos do movimento buscou convencer o cidadão, e assim conquistar o seu apoio. O episódio da primeira temporada, Time’s Up foi o primeiro roteiro a abordar este tema, e é também onde Kagame comenta:

A única coisa mais poderosa que o dinheiro é o conhecimento, a partir deste espetáculo despertaremos o público de sua complacência e os ensinaremos a pensar por eles mesmos. A revolução começa aqui.”.

A razão para citar este diálogo é para que todos os feitos de Edouard Kagame em Waning Minute sejam compreendidos sobre esta perspectiva.

Você já deve ter notado que, todas as vezes, nas quais cito o futuro que trouxe Kiera e o Liber8, acabo mencionando o mesmo como um futuro distópico. No cenário da literatura ou do cinema, é comum trazer às obras de ficção cientifica esta ideia, que se baseia em uma antítese à utopia. O mundo perfeito, idealizado e repleto do “bem”, onde não existem guerras ou desigualdades e a civilização encontra-se plenamente satisfeita com tudo. Isto é uma utopia. O problema é que este mundo não existe, então surge a realidade distópica. Este cenário é exatamente a estruturação que Continuum veio mostrar em Waning Minute.

Tudo que presenciamos como relatos do futuro, são memórias ou acontecimentos diretamente relacionados com a protagonista da série, Kiera. Por conta disto, até a última semana, o mundo que conhecíamos de 60 anos à frente é um universo repleto de tecnologia, com uma policia bem treinada e equipada, onde os arranha-céus refletem a riqueza urbana e a sociedade avança em desenvolvimentos capazes de sanar a fome, a falta de energia e as dívidas estatais, responsáveis por prejudicar a economia. Ainda que em seu passado, a Protetora tenha tido a oportunidade de ver o outro lado, ocultado pelo parlamento, Kiera não se permitia reconhecer esta verdade. Assim, apenas “parte do futuro” era de nosso conhecimento, porque assim era esta a concepção de Cameron, até os acontecimentos presente e sua traição a Alec(B).

O acidente que leva Stephan e Kiera em outras terras e outra realidade, em parte, faz-se propositalmente para que tenhamos na protagonista a perspectiva da maioria. Quando Kagame conversa com Sonya e pergunta o que ela achou do livro de Theseus, a médica responde que ele é diferente… de tudo que ela aprendeu. Porque ela, assim como Cameron e a maioria da sociedade encontra-se “alienada” ao regime político imposto pelo Parlamento, onde o controle do sistema está diretamente associado ao controle de cada civil. E como isto é feito? Inibindo o conhecimento dos verdadeiros fatos. A história é ensinada sob o relato de uma perspectiva parcial. Além disso, Sonya revela que o chip utilizado nos SPM é responsável por inibir o comportamento emocional, ainda que o individuo não perca a capacidade de sentir e viver experiências intensas, ele se abstém de fatos que ocorrem ao seu redor.

Eles te controlam. Eles mudam o seu modo de pensar, o que você aceita. Você grava ao invés de testemunhar. Armazena dados, mas não se lembra dos sentimentos.” [Sonya]

Este conhecimento por parte de Edouard faz com que o homem repense a sua concepção sobre Kiera, e ele revela isto a ela. O significado deste fato está na questão que Kagame não aceita o modo de vida criado pelos semeadores, que não aceitam o sistema, mas também não possuem coragem para se opor ao mesmo. Ele acredita que esta condição é sem fundamento e alimenta o sistema. E por esta razão, Edouard provoca a disseminação daquela vila, acreditando que era necessário por um fim em meios que se transformaram em “máquinas” do regime. Incidente que revela à Cameron a outra face do parlamento.

Em outra review eu cheguei a comentar com vocês a influência do livro 1984 no contexto de Continuum. Na realidade, existem muitas obras literárias que acabam sendo espelhadas ao desenvolver da trama. Além disso, a série também se estrutura em fatos históricos que marcaram a influência de movimentos sociais e outros regimes políticos que existiram no decorrer da história. Em ênfase a Waning Minute, é imprescindível comentar sobre o comportamento de Kagame em relação à nossa história.

Todos nós já tivemos a oportunidade de conhecer os acontecimentos marcantes da Revolução Russa de 1917, o nascimento da União Soviética e o regime socialista. Também é de nosso conhecimento que uma das maiores obras da história, na qual, embasa-se este regime é o Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels.

Este fundamento político é fortemente utilizado em Continuum para construir os ideais do Liber8. E um acontecimento distinto na história deste manifesto, é que anos depois de escrito, Marx acrescentou um prefácio onde dizia que “Não basta a classe operária apoderar-se da máquina do Estado para adaptá-lo aos seus próprios fins”. Lenin interpretou este conceito com a ideia de que a “máquina do Estado” deveria ser destruída. E é com esta ideia que ele liderou a Revolução Russa e lutou na Guerra Civil Russa.

Esta é a mesma premissa de Edouard Kagame, é alimentado na crença de que se precisa lutar pela liberdade que ele estrutura sua organização, cria o manifesto do Liber8, conscientiza a população de seus ideais e elimina elementos que simbolizam a fortificação do sistema.

Paralelamente a este cenário, temos o momento de “epifania” de Greg. Após receber a notícia de que sua esposa fora considerada morta por um escrivão, (exclusivamente presente em busca de uma assinatura para inibir qualquer reação futura do esposo), Greg percebe o significado da vida para a SadTech, ou melhor, a compreensão da sua posição dentro do sistema político ao qual ele está inserido. O diálogo do marido de Kiera com Alec, talvez represente o inicio de uma sequência de providências que caminharam para a viagem ao passado, (planejada por Sadler).

Não é uma venda ou aquisição, é uma vida… Deixamos contadores e planilhas determinarem o nosso valor. Mesmo que isso valha algo, não é certo.” [Greg].

A reação de Alec ao discurso de Greg é de surpresa. Ainda que não tenhamos a sequência dos acontecimentos, é possível realizarmos um retrospecto a alguns fatos de episódios passados da série e considerar esta teoria…

Second Time mostrou que no futuro, Kiera envolveu-se na investigação do assassinato de uma engenheira da SadTech, ao qual fora afastada em poucos minutos. Desconfiada, a Protetora permanece investigando e descobre sobre a “esfera”. Apesar de não saber o que seja, Kiera sabe que o objeto foi a causa do crime. Ao comentar com Greg sobre o tema ele leva a informação a Alec que resolve o problema apagando a memória de Cameron sobre o assunto.

Em A Stitch in Time, Greg se desespera ao ver Kiera dentro da câmara onde deveria ocorrer a execução dos prisioneiros. Nitidamente, é possível considerar que ele sabia o que iria acontecer, pois a sua reação não foi de espanto quando o dispositivo é acionado e sim, de surpresa e desolação. Ao final do episódio, Greg aparece como um amigo antigo de Alec e apresenta sua esposa. A resposta de Sadler é: “Kiera, foi uma longa espera.”.

Com a apresentação de Waning Minute é possível supor que Greg esteve envolvido no projeto de levar aqueles prisioneiros ao passado e que sua única surpresa foi ver a esposa ir junto. Além disso, ao decorrer da história, é possível perceber que a Protetora esteve envolvida com todos aqueles que voltaram ao passado com ela, onde parte de sua experiência como SPM foi partilhada com eles. E para concluir, é possível também especular que Kagame possa ter influenciado a decisão de Alec na escolha de Kiera para retornar com o Liber8, talvez porque ele acreditasse que ela poderia entender os ideais da organização.

“Siga seus instintos e tome uma posição moral”.

Isto foi o que Kagame disse para Sonya, mas que sem dúvidas é a revelação de Cameron. Quando ela diz que Edouard sempre esteve certo e compreende sua objetivação, Kiera percebe que nunca tomou uma posição quanto ao que estava acontecendo, ainda que tenha lutado contra o Liber8, ela sempre fez questão de enfatizar que “Aquela não era a sua luta”.

Cada um de nós é julgado pelo que deixamos para trás”. [Alec Sadler].

Seja por compreender nesta frase alguma intenção de Alec, ou por entender que o que ela havia deixado para trás era a sua família. A questão é que, finalmente, Kiera Cameron toma uma posição moral.

Eu estou indo para casa.” [Kiera]

O que isso significa? Bem… Só o futuro irá dizer.

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