Aos poucos Constantine encontra seu caminho. Mas será que ainda dá tempo?

Lentamente a série está se aproximando mais das histórias de John Constantine nos quadrinhos, e indo mais longe, está se aproximando mais da qualidade que ela deveria ter demonstrado constantemente desde o piloto, para justificar um horário e dia tão ingratos, além das limitações da TV aberta. Lentamente não é o suficiente e com a confirmação de que a primeira temporada terá apenas 13 episódios, o que resta para os produtores e redatores da série é tentar descolar ao menos, uma salvação para uma segunda temporada, ou outra emissora. E podem ter certeza, não existe nada pior para uma equipe do que a necessidade de conduzir sua trama com a faca no pescoço. A pressão pode tanto colaborar para que a qualidade da produção aumente, ou nos levar ao próprio inferno astral da estabilidade.

Sejamos honestos, Constantine é uma série bem limitada. Apesar de ter efeitos bonitos e bem feitos, o ar genérico perdura por todo o momento. Passamos 40 minutos em Nova Orleans, mas se não fossem os rituais de voodoo do Papa Meia-Noite, ou a cena de abertura, a série poderia ter escolhido qualquer outro nome para a cidade, não faria a diferença. Isso nos coloca em uma posição de enclausuramento. Ficamos presos a ambientações fracas e a sensação é de que nossos personagens não saíram do lugar desde o piloto. O único ponto realmente fixo no meu imaginário é o QG da equipe. Qualquer outra rua ou cidade não conseguem dar a sensação de mobilidade.

A forma com que decidiram incluir o futuro Espectro na série foi um pouco clichê, apesar de ter sido válida. Quase nada de James Corrigan realmente foi exposto, tudo se tornou um pouco superficial. Talvez o momento adequado para a inclusão de um personagem com peso tão grande no cânone não seria agora, mas sim próximos ao season finale. Não sei o quanto de planejado estava o “fail safe” da série para um possível cancelamento, o que consigo ver é uma tentativa gigantesca de trazer quase todos os elementos mais interessantes do material de origem para que, pelo menos os fãs, continuem sua cruzada ao lado da série.

Porém, o efeito é exatamente o oposto. Ao tentar se aproximar de Hellblazer, o que Constantine tem conseguido é se afastar dos fãs mais xiitas e parcialmente se aproximar de quem deseja apenas diversão, tendo estes como uma base mais fiel. É como eu sempre digo nas minhas reviews, as séries precisam cumprir apenas uma meta: Entreter. Esse é um trabalho que a Marvel Studios veio desempenhando primorosamente. Você não precisa ser um fã cego para se divertir assistindo a um filme como Vingadores, ou Guardiões da Galáxia, você só precisa estar disposto a aproveitar um entretenimento solto e descompromissado.

O que agrada aos fãs é uma dedicação maior em ser fiel a personalidade dos heróis, ser mais próximo do visual das HQs, coisas que para quem não conhece nada do mundo dos quadrinhos, não faz muita diferença. Outro ponto que também valoriza muito a produção e soa como um agrado são as conexões. A sensação de que existe um mundo interligado e mais complexo consegue suprir a necessidade de imersão dos leitores e acabou criando uma regra no imaginário de fãs antigos e novos.

Um problema das produções da DC comics na TV é não conseguir unir coesamente seus mundos, havendo a necessidade da criação de um multiverso. Vamos tomar como exemplo James Corrigan, o policial de Nova Orleans que futuramente se tornará (ou não) o Espectro. Jim começa nas HQs como um policial de Gotham, para depois de algum tempo cruzar o caminho de John Constantine.

Uma forma das produções da DC, especialmente as novatas, de manter um relacionamento mais estável com os fãs antigos, seria dar a possibilidade de uma sensação de pertencimento maior, de uma estrutura mais rica. Poderíamos sim encontrar Jim lá em Gotham e depois vê-lo migrar para Constantine. Mas as limitações existentes nestas séries nos impedem de ver um panorama maior. São mundos diferentes tentando conversar com a mesma fonte, saída de um mesmo universo.

O que vemos é uma verdadeira Babel das produções de super-heróis da DC Comics. Ninguém fala a mesma língua e aos poucos a torre idealizada está sendo destruída porque ninguém se entende. Aos novatos, nada disso importa. Mas quando a série sozinha não consegue segurar as pontas, o fundamental seria expandir e com todos falando a mesma língua, reproduzir na televisão um dos pontos mais fortes da concorrente, que está dando um show de integração de seus personagens, mesmo quando eles não estão no mesmo ponto do universo.

Constantine peca em não ter encontrado uma âncora firme com capacidade de prender, pelo menos, os novatos. Nós já temos Supernatural a dez anos na televisão, uma série que começou como “adaptação livre” de Hellblazer, e que já consumiu boa parte das histórias e da fórmula que hoje Constantine está tentando passar com certa pompa de novidade. Não é novidade, não existe nada ali que já não tenhamos experimentado em alguma outra produção do gênero.

Mas existe crescimento. Durante todo este quinto episódio eu consegui aproveitar muito bem as interações, o plot e a diversidade de personagens, de uma forma que eu ainda não havia conseguido com os anteriores.

Zed está se transformando em uma personagem bem mais agradável e competente. Seus poderes, o crescimento, estou gostando bastante de ter essa possibilidade dentro da série. A sensação de ganho e de uma história relevante por trás de tudo ficou maior ainda em ‘Dense Vaudou’. Quando Jim reconhece Zed como uma “desaparecida”, ele amplia nossa sensação para as possibilidades, que até então, eram bem mais limitadas. Do que ela fugiu? De quem? Lembrem-se, nos quadrinhos nossa jovem paranormal precisa fugir do seu pai louco, que acredita que ela será responsável por trazer uma espécie de Messias para o mundo.

Da mesma forma Papa Meia-Noite e sua irmã conseguiram passar uma relação bem menos “endeusada” de um personagem. O que faltava nele era um pouco mais de vulnerabilidade. A história da irmã condenada ao inferno por ele o aproxima e muito de Constantine e Astra. Além de tudo, consegue passar um panorama mais amplo e possibilidades maiores para todos os personagens. Só eu consegui ver uma espécie de prelúdio para a Liga das Sombras com Papa e John trabalhando juntos? Um questionando as habilidades do outro e John sendo constantemente chamado de feiticeiro menor trouxeram para mim uma ponta de esperança para o tema.

Outra das características que tem cooperado e muito para que a série esteja (ainda) nas minhas boas graças, é o protagonista. John Constantine sempre foi um dos anti-heróis mais interessantes que eu já tive o prazer de ler. Matt Ryan transporta bem o ar cômico e segura as pontas de um roteiro que está sempre no limiar do bom. Falta aquele direcionamento maior, afinal, o ator sozinho não conseguirá carregar a série nas costas.

Quem também deveria estar recebendo um tratamento melhor do roteiro é Chas, que até então só havia exemplificado a função do motorista entendido. Seus momentos com o fantasma foram absolutamente deliciosos. Não tinha como melhorar muito em um episódio que já estava preocupado em desenvolver vários personagens ao mesmo tempo. Vejam só, passamos ao lado de John, Zed, Jim, Chas, Papa e ainda “sobrou” tempo para os dramas pessoais dos personagens secundários. Através desta ótica, a série foi sim muito feliz na maneira que dedicou certo tempo para todos eles. Em um viés mais crítico, eu riscaria pelo menos o fantasma que estava deixando a mulher doente, já que nem uma cena gore ele foi capaz de nos entregar. Para os outros dois, parabéns!

E olhem, preciso alongar as congratulações aos efeitos e a forma com que a magia vem sendo trabalhada na série. John não é o tipo de herói que vai sair no tapa com o bandido, salvo raras exceções, o mágico persuasivo é quem dita as regras neste mundo. Fé, direcionamento e um agrado aos deuses mostram a verdadeira base de Constantine. E sobre isso eu não tenho nada a reclamar, ao contrário, preciso de mais.

No geral, o quinto episódio de Constantine melhorou bastante o que já estava em processo de crescimento. A série ainda está bem longe do essencial, com um pé ao lado do mediano. O interessante agora seria abandonar os fillers e trabalhar com força em cima da trama da temporada. Tenho interesse na tal escuridão crescente e sei que como as coisas estão, até o season finale estaremos bem próximos do que idealizamos. Afinal, a reclamação de muitos era de que “Constantine nem fuma”, isso já não deve mais entrar na cartilha dos pessimistas (eu incluso).

Easter Eggs e outras informações.

– Espectro, o personagem que Jim Corrigan futuramente irá se transformar (de acordo com a visão da Zed) é um deus vingativo do mundo da DC. Lá ele é traído e recebe a oportunidade de utilizar sua raiva para punir os injustos.

– Nos quadrinhos Papa Meia-Noite recebe o presente da imortalidade e também utilizada o crânio da irmã para canalizar poderes mágicos.

– Rolou uma alfinetada aos irmãos Winchester de Supernatural, certo? Papa dizendo para John que a técnica de salgar corpos e incendiá-los era algo digno de uma criança seguindo o livro do pai. Ouch!

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